Victor possuía a impressão de que Hogwarts parecia ser, por vezes, o inferno na terra. As aulas longas e tediosas e os quilômetros de pergaminho que os alunos eram obrigados a realizar eram mais do que o suficiente para azedar o humor de qualquer um; mas o grifino entendia que o castelo também era capaz de ser o melhor lugar de todo o universo quando queria, tão temperamentais eram as torres, escadarias e ambientes desertos. Aquela noite em especial era uma das provas de que a escola possuía seus momentos de claridade e tranquilidade, mesmo que reservado para um público seleto.
Mais do que meras salas de aula, morros e lagos encantados compreendiam o espaço onde estudava; aqueles que possuíam os requisitos necessários e suficiente esperteza eram capazes de descobrir lugares conhecidos por poucos e frequentados por uma quantidade ainda menor. Alcovas secretas, paredes fundas e encantamentos sussurrados escondiam clubes de elite impressionantes, com reuniões regadas ao melhor que a cozinha do castelo tinha a oferecer, além das personalidades mais peculiares. Ser capacitado o bastante para ser convidado para tais reuniões secretamente alimentava o ego de Victor mais do que devia, mas nada o divertia mais do que ser adorado e paparicado pelos professores de forma que fosse requisitado em qualquer que fosse o evento. O garoto não era nem de longe um aluno exemplar, mas lhe parecia incrível o modo como seu charme abria as portas mais impossíveis.
Naquela noite, apesar de todos os benefícios, o grifino não parecia ser capaz de aproveitar a festa do clube do mestre de poções do modo desregrado que já lhe era costume. A cacofonia de vozes e da banda o irritava absurdamente, e nem mesmo os goles de whisky de fogo que tomava sempre que um responsável parecia distraído acalmavam sua mente. O motivo de toda aquela inquietação permanecia um mistério para si mesmo, mas era um fato inexorável que tudo havia começado desde a última aula que teve na presença da irmã mais nova de seus melhores amigos, Ophelia Wood. Não fazia o menor sentido em sua cabeça pouquíssimo pensante que a garota habitasse seus pensamentos após aquele embate, que se assemelhava a todos os outros que os dois já haviam tido desde que se conheceram. Victor não lidava nada bem com o que não compreendia e com o que não parecia simples de resolver. Daquela forma, desgastava o solado dos sapatos andando de um lado para o outro no salão do subsolo, irrequieto, seus conhecidos estranhando incrivelmente toda aquela agitação.
Os passos incessantes levaram o inglês ao único lugar que não parecia estimular seu acesso de raiva: um canto remoto e silencioso da festa, escondido por cortinas diáfanas, as mesmas que enfeitavam o resto do ambiente. Ali, apoiado numa parede e agarrando o copo praticamente vazio como um bote salva-vidas, Victor foi capaz de respirar e colocar parte dos pensamentos em ordem. A cada segundo, porém, a mente era invadida pelo rosto irritante de Ophelia, e por suas expressões mais irritantes ainda. Lhe incomodava ainda mais profundamente o modo como a existência da garota parecia pulsar em seu cérebro como uma dor de cabeça terrível, e tudo aquilo sendo fruto de alguns meros minutos que havia passado junto dela em uma aula.
Bagunçando os cabelos loiros ao enterrar os dígitos neles, completamente transtornado, o grifino sequer foi capaz de se afastar quando um corpo se chocou contra o seu do outro lado do pano transparente, respingando whisky de fogo no chão. Largando o copo agora vazio em um canto que julgava ser mais seguro, agarrou um dos ombros da presença que havia revirado ainda mais a ordem das suas ideias, pronto para xingar o desconhecido até sua próxima reencarnação. O reconhecimento do rosto que agora lhe encarava, porém, arrancou a mais longa risada de escárnio de Victor, ao ter os olhos curiosos de Ophelia o encarando no lugar mais improvável possível. Parecia uma peça pregada pelo destino que a garota fosse jogada contra seus braços daquela forma, como se a força de seu pensamento fosse responsável por aquela piada de mau gosto. Apesar da surpresa, o inglês se esforçou para manter um semblante neutro, tombando a cabeça para um dos lados enquanto inspecionava Wood sem a menor reprimenda. “Falando no diabo… Ou melhor, pensando.”
Continuar a ler
As festas do Slug Club costumavam tirar Ophelia da zona de conforto, facilitando que ela realmente aproveitasse o evento com os colegas de forma mais espontânea, sobretudo sabendo que nenhum dos irmãos estaria presente, o que fazia sentir que aquele era um lugar só seu, de alguma forma. A postura tranquila e extrovertida mascarava todo o caos que havia se tornado sua última aula de poções, por culpa da dupla brilhante na qual havia sido colocada. Ainda assim a Wood tentava se manter segura de que apesar de percalços - que haviam nome e sobrenome - em seu caminho, ainda havia muito para que ela conquistasse com seu pequeno dom para poções.
Um certo estranhamento, que quase se tornou uma preocupaçãozinha, chamou sua atenção pela ausência de Crist, que parecia sempre tentar se tornar o centro das atenções de alguma forma, principalmente quando se tratava de eventos mais exclusivos como aquele. Os olhos castanhos esverdeados pareciam se desligar da movimentação da festa, quase como se Ophelia buscasse algo além do que estava sendo oferecido, mas negaria com firmeza caso fosse questionada sobre o assunto.
Desvencilhou-se dos pensamentos intrusivos com a bebida que fora batizada como se costume e algumas doses de firewhisky que conseguiam roubar dos poucos adultos presentes. Ophelia dificilmente estava à frente desses momentos de rebeldia, mas se permitia usufruir deles vez ou outra e sendo aquele seu último ano no castelo, não havia como negar a chance. Mais próxima da margem do salão e na companhia de algumas de suas amigas, Wood arriscava alguns passinhos discretos de dança, uma vez que ainda estivesse cedo demais para que as poses fossem deixadas de lado. Foi durante um deles, em meio a uma risada mais alta, que Ophelia se desequilibrou, o corpo foi rapidamente jogado para trás e se chocou em um outro convidado da festa. O semblante da bruxa se fechou em uma caretinha culpada pelo pequeno acidente, já pronta para se virar com o pedido de desculpas na ponta da língua, quando os olhos encontraram as feições de Viktor. Ophelia puxou o ar e o segurou enquanto as mãos do bruxo ainda estavam segurando seus ombros com firmeza, encarando-o por mais tempo do que gostaria.
“O que você estava fazendo se escondendo feito um stalker?” questionou se desvencilhando das mãos alheias logo que as palavras dele se fizeram presente, logo rolando os olhos como de costume quando estava na companhia do grifino, mas naquele momento, talvez pelo efeito da bebida, Ophelia sentiu uma pontada de coragem para enfrentá-lo. “Oh, você estava pensando em mim? Por acaso o esbarrão também fazia parte dos seus planos para a noite?” questionou com um riso rouco em seguida, irritada, mas tentando não deixar transparecer o nervosismo imediato, que poderia ser notado pela forma hesitante com que agia, apesar das palavras firmes.
O destino realmente conseguia ser filha da puta sempre que queria. Não havia mais nada que pudesse justificar a situação em que se encontrava: os poucos segundos em que ficou em silêncio, mentalizando as mais perversas peças que poderia pregar em Ophelia e apenas lembrando de sua existência fizeram com que a garota praticamente caísse em seu colo. Se Victor tivesse planejado aquele momento, ele não teria ocorrido de maneira tão perfeita quanto a realidade, mas ele bem sabia que jamais teria feito tal coisa. Ou, pelo menos, era naquilo que gostava de acreditar. De qualquer forma, dali em diante, precisaria lidar com uma das maiores dores de cabeça de seus dias: uma que se fazia presente sem que sequer notasse, sempre se infiltrando em sua mente de forma sorrateira, tomando quaisquer linhas de raciocínios um dia decentes e transformando-as em uma bagunça absurda. Aquela era Ophelia Wood.
A pior parte de todo aquele problema era o fato de que a irmãzinha dos melhores amigos provavelmente sequer imaginava a situação que estava causando. De certa forma, Victor podia admitir que aquilo não era culpa dela. Afinal, o responsável por enlouquecer ao relembrar todos os embates constantes dos dois era ele. Ophelia era alguém muito mais racional: na maioria das vezes, quem se deixava levar pela emoção e fazia questão de apertar os botões da lufana era Crist, sempre obcecado com arrancar qualquer que fosse a reação dela. Por algum motivo inexplicável, gostava de tirar a garota do sério, de deixá-la bufando e longe da aura costumeira de paz e placidez que a envolvia. Contudo, Vic sabia que brincava com fogo em um tempo milimetricamente contado. O dia da vingança suprema da Ophelia está cada vez mais próximo, suspirava Oliver, sempre que ouvia da última das peripécias do grifino.
Naquela noite, o mais velho não estava por perto para ser sua voz da razão. Crist julgava aquela a ocasião perfeita para fazer o que bem entendesse, sem que um ser muito mais coerente e evoluído o impedisse de arranjar confusão. Ao ter Ophelia em sua frente, porém, perfeitamente decente para a formalidade requerida pelo clube do professor, sentia que qualquer comentário maldoso ou peça bem arquitetada evaporasse em sua mente, como se naquele instante existisse algo de importância muito maior. Por bons segundos, Victor permaneceu estático, encarando a garota como se nunca tivesse a visto em sua vida, as sobrancelhas franzidas e os lábios entreabertos, prontos para deixar rolar solto alguma ofensa. Nada realmente saía: sua mão permaneceu no ombro da lufana até ela se afastar por si só, um rastro de perfume anuviando seus pensamentos e atrasando ainda mais a resposta costumeira da presença de Vic.
Balançando a cabeça violentamente, se esforçou para prestar atenção no que Ophelia lhe dizia, enfim soltando outra gargalhada cínica assim que seu organismo pareceu voltar a funcionar. “Eu sou um stalker ou você que arquitetou esse esbarrão, justamente nesse lugar?” Arqueando uma das sobrancelhas, Victor inclinou-se na direção da lufana, fazendo com que outra lufada de perfume subisse ao olfato e deixando, ao seu ver, toda aquela situação muito mais agradável. Mas ele jamais seria pego admitindo tal realidade. “Pode ser que eu estivesse mesmo. Se eu estava pensando bem ou mal, você nunca vai saber.”
O grifino ignorou o questionamento irritado da garota, entornando o que restava de whisky de fogo em seu copo, a queimação que se seguiu em sua garganta auxiliando em sua missão de manter a calma perante a pestinha que sempre fazia sua cabeça girar. Mais tarde, Vic poderia refletir sobre como ele não odiava a companhia de Ophelia, nem mesmo um pouco. Naquele momento, porém, ele precisava manter as aparências. “Desde quando o Slug convida gente que nem você pra cá? Eu vejo que o nível desse lugar anda decaindo e muito.”














