Raquel destrancava a porta de sua casa, era o começo da madrugada e havia sido, indiscutivelmente, o pior dia de sua vida, Kleber havia terminado com ela, na frente de suas falsas amigas, e porque? por que era gorda. gorda demais, ele disse, em corpo e alma, ele disse. Ela chorava ao lembrar enquanto entrava, o sol se pondo irritava seus olhos ao camihar para cozinha. "Ela nem consegue me acompanhar" ele disse a uma das garotas quando ela tentou me defender, num tom q deixou implicito a conotação sexual. "babaca", elas disseram após ele sair, mas ela sabia que elas concordavam com ele, quantas vezes não haviam me ajudado a me livrar dos excessos? Ela abriu a geladeira, e retirou a torta de limão que sua mãe havia feito na noite passada, pegou tambem uma garrafa de refri e fechou a geladeira com o pé, antes de depositar o que carregava na mesa. Não havia sido a julia quem lhe ensinara a vomitar? teresa dizia que todas modelos faziam isso... eu só pensava como deveria ser facil falar disso, no alto de seus 40 kilos, e 1,60 de altura. diferente de mim, horrenda de gorda com meus 90 kilos e 1, 80 de altura, nenhum pouco atraente, alta demais, gorda demais, era oq o espelho lhe dizia. No armario, pegou um saco gigante de ruffles e dois sacos de club social. odiava sua vida, sua aparencia, os sorrisos cada vez mais falsos que dava para todos, inclusive para sua familia. começou a devorar, com uma colher pegava a torta, com a outra pegava as batatinhas, em sua boca tudo se misturava e a apaziguava, mesmo com as lagrimas ainda escorrendo pelo rosto, não importava, depois disso vomitaria o exagero, e então poderia ficar vegetando em baixo do chuveiro frio... Seu choro ficou mais ruidoso, e ela permitiu que ficasse, queria chorar e engolir toda dor logo, para poder voltar aos sorrisos falsos, as risadas sem humor, a vida aparente e falsamente feliz. Ela só notou ele, quando ele sentou ao seu lado e ficou passando a mão em suas costas. Ela engoliu imediatamente, o choro, as bolachas, a dor. Mas não conseguiu disfarçar o choque, nem conseguiu pensar no que faria, havia sido flagrada em um momento tão fragil, e por quem? seu austero e serio pai, que parecia não compartilhar sentimentos humanos, ela já começava a se desesperar quanto seu pai lhe disse: - tudo bem, não precisa segurar o choro por mim, já estive ai, posso te ajudar a sair se quiser - ele chorava, algo que ela só notou com a voz dele, por estar tão chocada que nem havia olhado para ele, agora ela olhava, e chorava, como se as lágrimas de seu pai chamasse as dela para fora. Ela começou a concordar com a cabeça enquanto chorava, chorando mais alto ao tentar falar. E então eles se abraçaram e choraram juntos, entendendo a dor compartilhada sem perguntas extras, sabiam que teriam tempo para isso depois, mas que agora, o importante era aquele vinculo inusitado, que ela soube que poderia contar.