Na sua estante. I
Te disse tantas vezes que voltei a vida por vocĂȘ, mas talvez nĂŁo tenha ficado claro. Entre suas chegadas e partidas repetidas, a sombra da felicidade pareceu existir apenas sob seus olhos e entre seus abraços. NĂŁo havia como ser feliz, tudo em mim era esvaziado a cada brisa fria que nos tocava. Suas palavras amaciavam minhas tensĂ”es e arredondavam as arestas quando chegou pela primeira vez, na terceira jĂĄ eram setas apontadas diretamente para as feridas quase fechadas. Foi como se nunca pudĂ©ssemos ter cicatrizes, fadadas a serem machucadas constantemente. Meus olhos ausentes golpearam seu coração dependente, suas dĂșvidas feriram meu amor tĂŁo esforçado.
Te esperei sempre ao lado da porta, sabendo que voltaria mais uma vez, esperando que desse notĂcias. Como de costume, tu fez uma bagunça no meu peito que, por aparentar ser tĂŁo forte, foi meramente descartado. E saiu ilesa. O gosto do nosso beijo era doce, mas virou fracasso quanto mais claro ficava que isso viraria uma tragĂ©dia. Eu tentei tudo o que podia. VocĂȘ fez o melhor que pode. Te mostrei inĂșmeras vezes que sempre dava um jeito de consertar algo quebrado, seja lĂĄ quanto tempo leve. Mas nada nunca foi o suficiente. Nos arriscamos doer cada vez mais em nome desse amor que tanto doamos. VocĂȘ queria paz. Eu queria faĂscas. Te vi em todos os meus sonhos e me doeu toda vez que acordei e nĂŁo te via ao meu lado.
Te observei desistir de nĂłs lentamente. Na primeira despedida, eu quis amaldiçoar qualquer pessoa que se aproximasse de ti. Na segunda, doeu de forma tĂŁo ĂĄrdua, que eu mal conseguia levantar da cama. Na terceira, aceitei que a compreensĂŁo jamais faria par com tantas tentativas. Observei sua vida seguir enquanto a minha passava sob os meus olhos. Entre tantas incertezas, confesso que senti vontade de ir ao teu encontro e dizer que eu ficaria, independente de qualquer coisa. Mas dessa vez nĂŁo. VocĂȘ sempre soube das minhas inseguranças e medos, sempre soube da minha necessidade imensa de saber o lugar exato de cada posição em vida e foi exatamente lĂĄ que bateu.
No fim da estrada é aqui que permaneço, mais uma vez. Acreditando em outras rotas. Possibilitando outros finais. Recalculando caminhos que não me façam acreditar que eu sempre-amei-errado. Eu sei. Nunca hå a intenção de colocar esse fardo no colo de alguém.
[exceto quando faz outra pessoa sangrar].
psicoativos e refeita












