Me entenda. por Julio Vicari, 2026.
Me entenda, antes de qualquer coisa. Eu não sou uma pessoa comum. Não porque eu seja melhor, longe disso. É porque eu simplesmente não caibo nesse molde apertado que chamam de normal. Enquanto muita gente vive contando hora, curtida, saldo e aparência, eu vivo contando silêncio, sensação e espanto. Eu tenho minha loucura e ela não é bagunça, não. É método, sobrevivência. É jeito de não endurecer por dentro num mundo que insiste em virar pedra.
Eu vivo em outra dimensão e não falo de nada místico demais. É outra dimensão de olhar, onde o tempo não corre mas anda descalço. Onde conversa não é barulho, é troca e onde um café sem pressa vale mais do que cem reuniões cheias de gente vazia. Já percebi faz tempo que o mundo anda rápido demais pra quem sente muito e eu sinto, bem lá no fundo, torto e fora de hora. Enquanto uns aprendem a ignorar, eu ainda paro pra ouvir e ver o cachorro abandonado, o velho esquecido no banco da praça, a música que toca longe e ninguém mais percebe. Isso cansa, mas é isso que me mantém vivo.
Eu não tenho tempo e nem paciência, mas mesmo assim sou paciente, para coisas que não têm alma, conversas que são só disputa, relação que é só interesse, gente que sorri com a boca e apodrece por dentro. Já tentei fingir normalidade, confesso. Vestir o figurino certo, dizer as frases esperadas, concordar por educação mas isso me adoece. Eu não sei viver pela metade. Ou sou inteiro, ou é nada. E o “nada” eu já conheço bem demais pra voltar.
Minha loucura é acordar cedo só pra ver o céu mudar de cor. É ouvir música alta quando o mundo pesa. É preferir um papo sincero a uma festa cheia. É desaparecer quando preciso e voltar quando faz sentido. Tem quem chame isso de isolamento. Eu chamo de cuidado.
Eu vivo numa dimensão onde o erro ensina mais que o sucesso, onde a dor não é vergonha e o choro não é fraqueza. Onde a gente se permite quebrar pra se refazer do jeito certo, não do jeito que esperam, mas do jeito que dá. E olha… dá trabalho ser assim. Você perde gente, perde oportunidades que não combinam com você, perde convites, perde status, perde a tal “vida social” que mais parece vitrine. Mas ganha outras coisas que não aparecem em foto nenhuma. Ganha paz, verdade, espiritualidade e histórias que não cabem em legenda.
Eu não sou comum porque não sei ser raso, não sei passar por cima, não sei fingir que não vi. Se isso é loucura, então que seja. Prefiro ser louco com alma do que são, sem sentir. Prefiro viver nessa minha dimensão torta, mas honesta, do que me encaixar num mundo que já desistiu de sentir. Então, me entenda, ou não. Também aprendi que nem todo mundo precisa entender. Alguns só passam, outros ficam e os que ficam… ah, esses me reconhecem, porque também vivem um pouco fora do eixo.
















