"Como se eu fosse cantar para você.", replicou deixando uma lufada de ar seguir as palavras, reforçando o tom de deboche. Erik tinha deixado o canto de lado, talvez não tivesse comentado com Romeu anteriormente, talvez sim, mas não era esse o ponto. O ponto, era que até poderia cogitar uma apresentação no futuro e incluir o amigo entre os convidados para esse momento, mas duvidava muito que fosse abrir mão do ressentimento tão facilmente, superar a sensação de rejeição e retomar o que eles tinham. Na cabeça de Erik, jamais seriam os mesmos e, por mais que isso traga margens para serem melhores, naquele momento ele só conseguia pensar que seriam ainda pior do que antes, completos desconhecidos, inimigos talvez. O sorriso vitorioso aparecia nos lábios de Erik depois de ouvir a replica malcriada de outrem. Não por ele finalmente ter cedido e deixado de insistir para que o mais velho tomasse a água, mas por ter conseguido irritá-lo. Infantilidade era um jogo que dois poderiam fazer, e Erik não tinha problema algum em assumir esse papel algumas vezes. Ao longa da vida, passou por tantas situações traumáticas, que é no mínimo aceitável que ele não saiba lidar com alguns sentimentos, assim como crianças que choram, fazem birra e esperneiam, pois não sabem lidar com seus sentimentos. No caso do homem, isso se colocava em provocações, ameaças veladas e fazer exatamente o oposto do que lhe era solicitado. Não tinha orgulho, mas tinha prazer. E como tinha. "Uma forma rebuscada de me chamar de vilão, ainda é me chamar de vilão, Romeu. E tudo bem que pense assim.", virou-se, por fim, na direção do mais novo. O corpo inclinando-se em seu sentido, como quem estivesse prestes a lhe revelar um segredo muito precioso, deixou os lábios próximos do ouvido do outro. "Pois eu realmente sou, Romeu. E não sinto remorso algum pelo que fiz.", concluiu num sussurro suave como uma brisa de outono, soprando o riso antes que voltasse a postura afastada dele, o sorriso largo desenhando os lábios e aquele brilho perverso em seus olhos. Sóbrio, Erik se arrependia de tudo, ou quase tudo. Mas naquele nível de álcool? A única coisa pela qual se lamentava, era não ter matado mais algumas pessoas que, certamente, mereciam morrer em sua história. "Você, por outro lado, age como um típico mocinho, cheio de remorso e desesperado para que eu o perdoe.", chegava a ser patético, mas Erik não diria isso, apenas pensava. "Indulgente? Bom, pelo menos agora me chama pelo que sou. Sendo assim, Romeu, deixe-me ser claro também. Igualmente lhe dei benefícios, poderia tê-lo machucado, fisicamente, diversas vezes e teria saboreado cada uma delas. Mas o que fiz no lugar? Acolhi você, abracei você, gostei de você.", as últimas palavras traziam um gosto agridoce ao paladar de Erik, era desagradável. "Aparentemente, nós dois erramos. Deveria ter me repudiado antes e eu, deveria ter lhe dado motivos concretos para tal.".