A dor era insuportĂĄvel, e, se pudesse, Geno acabaria com ela com um Ășnico Blaster. Mas isso era impossĂvel preso na Tela de Save, em alguma parte ainda mais profunda daquele maldito espaço vazio, incapaz de interferir mais em seu (antigo) mundo. Mesmo assim, ali estava aquela tela que lhe mostrava tudo, que lhe permitia ver o quĂŁo estĂșpido ele tinha sido mais uma vez.
Quando ele ia aprender que não podia confiar em ninguém? Quantas vezes mais ele teria que ver seu pobre Papyrus se tornar poeira nas mãos daquele humano?!
â Ei, Geninho! Achei vocĂȘâ
â Agora nĂŁo, Reaper! â Ele cortou a morte com a voz cheia de amargura.
A Ășltima coisa que ele precisava era de Reaper para aborrecĂȘ-lo. Ele nĂŁo queria ver, nem falar com ninguĂ©m, muito menos com alguĂ©m tĂŁo egoĂsta e sem-noção como o deus.
â Ah, vocĂȘ estĂĄ vendo isso de novo? â Reaper suspirou, e Geno pĂŽde imaginĂĄ-lo revirando os olhos, enfadado. Seus glitches se agitarem com fĂșria, e ele se virou para o visitante com magia crepitando em suas mĂŁos.
â ISSO estĂĄ acontecendo de novo, Reaper! ELU estĂĄ matando todos de novo! Elu estĂĄ matando PAPYRUS de novo! E sabe o que EU estou fazendo? NADA! Eu nĂŁo posso fazer absolutamente NADA porque estou preso aqui!
â Ă por isso que vocĂȘ deveria parar de assistir o que estĂĄ acontecendo. NĂŁo Ă© mais responsabilidade sua, Geno. Isso sĂł estĂĄ te machucando mais e mais. Olha sĂł pra sua camisa e jaqueta, estĂĄ encharcada de sangue de novo â Reaper continuou com aquele tom desinteressado.
Geno nĂŁo olhou, mas agarrou o tecido encharcado que colava em seus ossos e fazia a dor pior. Ele merecia aquilo de toda forma.
â Quem se importa comigo?! Isso Ă© culpa minha! Eu deveria ter impedido aquelu humane! Eu tive a chance tantas vezes! Eu tentei tantas vezes! Mas eu deixei que escapasse, acreditando que elu faria a coisa certa! E lĂĄ estĂĄ elu machucando todos de novo!
Sua voz morreu em um soluço, e Geno se virou de volta para a tela, dessa vez se jogando pesadamente no chĂŁo e abraçando suas pernas para esconder o rosto nos joelhos. Seu choro irritava seus ouvidos. Que direito ele tinha de chorar? Ele tinha falhado com todos sendo um completo idiota irresponsĂĄvel. E agora sua famĂlia e seus amigos tinham que pagar pelo seu erro.
â Honestamente, nĂŁo hĂĄ um limite para o quĂŁo masoquista vocĂȘ consegue ser? â Ele ouviu Reaper ao seu lado e apertou suas mĂŁos sobre seus ombros, cravando as unhas no tecido jĂĄ puĂdo de tanto que ele fazia aquilo.
â V-vĂĄ embora, Reaper â ele pediu, a voz bem mais baixa e embargada. Sua fĂșria estava diminuindo, e uma nova onda de dor chegava. Ele tentou se preparar para ela.
â Eu nĂŁo vou te deixar sozinho nesse estado. E sabe por quĂȘ? â A mĂŁo de Reaper tocou a sua, tentando aliviar seu aperto, mas Geno lhe deu um tapa, tentando enxotĂĄ-lo. Ele odiava quando o deus fazia aquilo. Ele nĂŁo queria nada com ele agora. Por que Reaper nĂŁo conseguia entender?
â VocĂȘ tem que parar com isso, meu amor â Reaper suspirou cansado, insistindo em tocĂĄ-lo, e Geno explodiu mais uma vez.
â EU JĂ MANDEI VOCĂ IR EMBORA!
â E desde quando eu faço o que vocĂȘ diz? Agora jĂĄ chega disso â passando a mĂŁo sobre a tela congelada na cabeça de Papyrus caĂda na neve de Snowdin, o deus a desfez como se ela fosse uma mera ilusĂŁo.Â
Geno o encarou com o mais profundo ódio, pronto para pular em sua garganta, mas seus braços foram segurados com firmeza e, antes que ele invocasse um ataque mågico, ele foi surpreendido por um abraço.
â VocĂȘ tem que parar com isso tambĂ©m, meu amor. VocĂȘ sabe que eu nĂŁo vou te deixar, ainda mais nesse estado. Eu me importo com vocĂȘ, tanto que dĂłi te ver assim. Por favor, me deixe estar aqui com vocĂȘ.
Como dizer nĂŁo a Reaper quando ele usava aquela voz tĂŁo doce e falava palavras tĂŁo carinhosas? Geno nĂŁo conseguiu encontrar forças para afastĂĄ-lo, entretanto, seus braços apertaram o pescoço do deus com desespero, e ele escondeu seu choro no manto escuro. Afagando suas costas suavemente, sabendo o quanto seus ossos eram sensĂveis, Reaper o conduziu ao seu colo e tentou confortĂĄ-lo.
â Eu sinto muito pelo que vocĂȘ sofreu, meu amor. Mas nĂŁo foi culpa sua. VocĂȘ jamais culpou Papyrus por confiar naquele humano, nĂŁo Ă© justo que vocĂȘ se culpe tambĂ©m. VocĂȘ precisa parar de se castigar vendo essas coisas. Por favor.
As palavras soaram ternas ao pé do seu ouvido, e, por mais que quisesse negar, Geno pÎde sentir o quanto a morte se importava e o quanto estava sendo sincero. Ele apenas apertou mais o abraço e continuou a derramar suas lågrimas, sentindo a dor em seu peito escorrer com a amargura.
Levou muito tempo para que ele conseguisse se acalmar (nĂŁo que fosse possĂvel realmente medir o tempo ali, jĂĄ que ele nĂŁo tinha nenhum relĂłgio). Mas, mesmo se sentindo melhor, Geno estava exausto, e seus braços doĂam de tanto ter agarrado o deus.
â Desculpa â ele murmurou envergonhado do show que tinha dado.
Reaper esfregou seu crĂąnio contra o dele carinhosamente.
â VocĂȘ nĂŁo precisa se desculpar, Geninho. Eu estou aqui para vocĂȘ. Ă natural, jĂĄ que eu gosto de vocĂȘ.
Geno tornou a afundar o rosto em seu manto, encabulado por outras razÔes agora. E lå estava Reaper tentando arrancar mais uma confissão dele. Quantas vezes aquele deus metido queria ouvir o quanto era adorado? Mas, daquela vez, até que ele merecia. Geno realmente sentia como se toda a sua agonia tivesse sido removida de seu peito.
â TambĂ©m te amo, Reaper. Obrigado por ter ficado â talvez Reaper merecesse um pouco mais, entĂŁo Geno segurou seu rosto com carinho e beijou-o longamente.
Logo em seguida, ele voltou a esconder o rosto no manto escuro, vermelho de vergonha. Talvez ele tivesse exagerado um pouco. Não que Reaper não merecesse, mas o deus sequer tinha esboçado uma reação. Serå que era porque tinha muito sangue escapando por entre os dentes de Geno? Ele se esqueceu completamente de checar.
â Espera, sĂł isso? â A morte finalmente falou, parecendo incrĂ©dulo.
Antes que Geno pudesse reagir, ele foi deitado no chĂŁo, totalmente Ă mercĂȘ de Reaper sobre ele.
â O-o-o que vocĂȘ pensa q-que estĂĄ fazendo?! â Sua voz saiu esganiçada. Ele tentou se mover para longe, mas seus braços estavam presos pelas mĂŁos da morte, e seu quadril estava entre as pernas dele. Ele nĂŁo tinha como fugir.
â Com todo esse trabalho que vocĂȘ me deu, eu quero mais que um beijo, meu amor â Reaper colou suas bocas de novo e de novo, atĂ© que Geno parasse de se debater e se rendesse.Â
SĂł daquela vez, ele permitiria que Reaper o beijasse o quanto ele quisesse. Mas ele nĂŁo deixaria que se repetisse. NĂŁo seria nada bom deixĂĄ-lo mal-acostumado.
Esta fanfic foi inspirada em uma fanart de @covariate87. Chequem lĂĄ! VocĂȘs vĂŁo adorar!
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