Sabe aquelas crises existênciais que vem e vão?
Sim, eu terminei o ensino médio. Não, eu não passei na faculdade. Não, não pensei em ir pra uma faculdade paga. Não pensei em cursinho. Mas quando eu entreguei currículo percebi que pensei em trabalhar sim, mas até agora nada de ser chamada, afinal não eu ainda não tenho experiência alguma.
Com 4 anos eu entrei na escola. Disse "pode ir mãe" e entrei. Nem mesmo sabia direito no que estava entrando, mas até que tudo ficou bem. Gostava de brincar de misturas doidas, e quando pensava na pergunta, bom... Seria cientista.
Com 6 já em outra escola, amizades novas, sonhos novos, brincadeiras novas, perguntas novas, mas sempre tem aquela né? Então quem sabe, os bichinhos são tão fofos... Seria veterinária.
Com mais ou menos 9 anos outra escola. Aí surgiram as preocupações. Numa pesquisa eu descobri que pra ser veterinária as vezes você tem que ver bichinhos sofrendo e as vezes não consegue salva-los. E eu vi também que nem todo mundo estava no mesmo "padrão", mas se elas brincavam de boneca eu também queria uma, tudo bem eram só umas bonecas. E quanto a aquela pergunta? Tinha uma cantora por aí que eu amava e que tinha cabelo colorido, cantava umas músicas de rock então quem sabe eu não fosse ter uma banda um dia? Usava blusas de caveira então e queria pintar o cabelo, mas por dentro sonhava ser espiã ou atriz.
Com 12 anos, segundo uma lei você já é pré-adolescente. Mas qual a diferença então? É descobriremos sozinhas que nenhuma, só algumas preocupações a mais, um bom exemplo sendo o sangue parcelado, todo mês uma prestação. Além disso outra escola, onde todo mundo tinha casas maiores, celulares melhores e onde eu entrava nisso? Não sei, talvez nos planos doidos pra me encaixar e render umas risadas por aí, mas não na tua frente... Ah a pergunta... Sabe eu gostava de escrever e de ler, mas livros não dão dinheiro fácil assim, então pode ser jornalista. Ou design, sempre gostei de desenhar, mas descobri depois que envolvia matemática... Puts você não é boa em matemática e pelo visto, nem em desenhar.
Com 16 anos, a vida se estabilizou, pintei o cabelo sem ter banda, tentei dizer que gostava de teatro uma vez, uma você não tem muito talento e não é fácil assim então logo descartei (mas não deixava de sonhar, a noite no inconsciente óbvio), li livros e escrevi coisas sem querer dinheiro, adotei um gatinho de rua, tive várias paixões por aí, festas legais e notas boas na escola. Todos os sonhos contados e enfileirados na prateleira junto às expectativas pro ano que vem. Seria o seu ano. Afinal, finalmente a pergunta... De novo. Certa vez eu vi uma pessoa triste sair feliz e não entendi. Pesquisei sobre um negócio que chamavam "psicologia", acabei até fazendo trabalhos sobre ondas cerebrais. Os conselhos que dava as "amigas" costumavam funcionar... Que profissão linda, é isso que serei, psicóloga.
Mas então... Passaram se já os 17 e você nem viu, talvez você não possa ser você mesma ou amar quem você quer amar, quem você no fundo ainda ama mesmo negando. Talvez você não possa contar sempre com quem pensou que poderia contar. Talvez aquele amor fez até um favor quando partiu de volta pra cidade dela afinal você poderia assumir isso? Te fazia feliz e bem sim, mas quem te banca não parece prezar por isso agora. E apesar de todos os momentos bons, o cansaço vinha, a sensação de ser insuficiente. Agora os 18 batem a porta. Os sonhos continuam na prateleira. Todos empoeirados.
Junto com o tempo vem de manso a bagunça. Tudo parece cair da prateleira em cima de você, mas quando vê é tarde de mais pra concertar. Quebrou. O que você vai fazer? O que eu vou fazer?
De alguém, em algum lugar bem fundo...