Todos temos de resistir para não ficarmos aprisionados numa memória simplificada que é o retrato que outros fizeram de nós.
Mia Couto

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Todos temos de resistir para não ficarmos aprisionados numa memória simplificada que é o retrato que outros fizeram de nós.
Mia Couto

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Os outros passam a escrita a limpo, Eu passo a escrita a sujo. Como os rios que se lavam em encardidas águas. Os outros tem caligrafia, eu tenho sotaque. O sotaque da terra.
Mia Couto
Vasco Gato
in Contra Mim Falo
“Demasiado tempo sofri e por muito tempo estive olhando para lugares distantes. Por demasiado tempo pertenci à solidão. Agora esqueci o silêncio. Tornei-me todo inteiro boca e estrondo de um rio que desce de elevadas rochas. Quero precipitar minhas palavras nos vales. A torrente de meu amor poderia muito bem se chocar com obstáculos intransponíveis! Como uma torrente não encontraria enfim o caminho do mar? Sem dúvida há um lago em mim, um lago solitário que basta a si mesmo; mas minha torrente de amor o arrasta consigo para a planície.”
Friedrich Nietzsche em “Assim Falava Zaratustra” (A Criança e o Espelho), p. 68
Fevereiro 9
Achei que te encontraria acordado quando a primeira estrela se apagasse no céu de fevereiro. Você sabe como sou e das manias que insisto em carregar. Eu, por outro lado, me pego tentando anunciar o seu nome depois de anos. Você pra mim já foi tantos feitiços, bichos e bruxos que não sei mais em que escama ou espada me aninhar. Já refiz a procissão do teu peito uma centena de vezes e ela ainda é o meu caminho das flores. Te conheci nas ruínas daquele pátio antigo e até hoje não entendo aquela cumplicidade entre você e o sol. Sim, te conheci como milionário de sonhos, te conheci como revelador de alecrins: desde os potes que coleciona no quintal até os fios de cabelo banhados de sete ervas. Você tem essa coisa que se pode chamar de êxtase pela natureza. É que você entende que este é o mundo onde as corujas acordam, onde as águas têm força e as montanhas são milhares de pedriscos subindo aos céus. Não posso piscar os olhos sem perder a sua descoberta. A cada dia você encontra novas formas de transformar o lixo e os restos das casas em concertos de música. Sua alma é a festa de quinze anos que não tive e posso apostar: quando você nasceu, foi uma era de confetes. Eu jamais poderia pedir maior alegria do que estar aqui e agora com você. Demorei quase 20 anos para te encontrar nessa vida. Desculpa pela delonga. Desculpa nenhum sinal de fumaça, nenhum vestígio. Tive de viver um tempo cinematográfico antes de cair no abismo da sua íris. Agora, não. Agora não estou mais em um filme. Quando teu lábio inferior roça minha pálpebra, é a vida que acontece, pura e simples. Você e o seu elixir que contaminam o ar. Agora é chegada a hora da sua passagem. É chegada a hora do teu cavalo de corrida. Estrala teus dedos, afivela tua linha da vida. Jamais te encontrei tão bonito quanto hoje. Mas isso não é mais segredo, pois a todos chegou a notícia do amor. Estou contigo quando vira a noite. Pois esse é o nono céu do mês em que a tua aura finalmente acende.
Mariane Cardoso.

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by David Kirscher
Um faraó de oito metros foi encontrado três mil anos depois
A todos é permitido o constante direito de ir embora. Em locais onde não se pode ir embora, aí é que tá, mora o maior dos desejos de ir. Atravessar você não foi fácil. Você é como uma cidade milenar que não se transpõe, que só se escava em direção à luz sob metros e metros de terra e silêncio. Assim pacificamente, tal qual o distraído que esquece o caminho de casa, não se pode sair de você. Assim gratuitamente, não se pode sair de você só pelo delírio dos pés que vão. É preciso um rombo gigantesco, é preciso o estrondo e o eco, é preciso esfregar as unhas na pedra e abrir na superfície rochosa o portal por onde o meu corpo se encolhe. Tudo isso porque fiz de você a minha casa. Em algum instante perdido no tempo eu deixei de passar e então passar exigiu-me uma força escandalosa. Porque plantei em você minha raiz e com minha célula tronco o seu batimento cardíaco se misturou. Como um sono, uma centelha de descanso para os ossos. Em você eu vivi o meu tempo magno, o tempo dos heróis adormecidos, a era dos reis de três mil anos deitados em hipnose. De modo que o corpo não possui a mesma consciência após o coma. Tem de marchar através de uma distância de areia movediça e espanto.
É que quando se faz alguém de casa, há de alimentar os bichos do quintal, resguardar a integridade do telhado, limpar regularmente o barulho da madrugada. De modo que sobra pouquíssimo tempo para o que não é a casa. É imprescindível, então, o bom uso desse tempo para que sua vida não se encolha novamente paredes adentro, como se faz por aí. É por isso que os rompimentos são abruptos. Dar adeus à casa está entre o abandono e a despedida, sabendo que de uma forma ou de outra haverá convulsões. A travessia de você foi beirando a margem desse abismo. Quando finalmente a cumpri, foi em mim que senti atravessar.
E o que atravessou em mim não tem nome, o nome se perdeu. Veio como uma procissão de ruas, como um exército todo vestido de dourado, veio como um enxame de insetos que olham nos olhos. O que atravessou em mim faz parte desse instante em que se perde o nome. Deve ser isso que se sente em mar aberto. Então é essa a sensação de estar na completa imensidão do nada, quando se perde a casa. As ondas levam os móveis, as paredes, os furos nas paredes, as luzes refletidas nas paredes. Assim, é mais um olho que perde a superfície de ler a luz no mundo. A única alternativa é olhar diretamente para a luz e isso dói. Um olho nunca é feito para se olhar diretamente dentro das coisas. É necessário um véu, uma película de olhar através e de só encostar na entrada do olho, sem adentrá-lo, pois a ele foi designada a missão de amar sem ser tocado. Por isso que, na perda das paredes, deve-se reformular o olho na intenção de ainda poder amar.
Acho que fiquei por muito tempo nessa condição de cegueira, antes de descobrir as mil formas da cidade lá fora, de sentir muitas peles e decifrar os tons de vozes. Tateia-se como se faz a um túnel repleto de escuridão. Vai em frente por sonambulismo, vai em frente pela incapacidade de ficar. Quando não se tem um lugar, é praticamente impossível aceitar a possibilidade de jamais ter um lugar: não, vive-se eternamente à procura de. A natureza de todas as buscas é a de recusar o que já se tem. Acontece que durante o intervalo de não encontrar, a gente sempre esbarra em milagres. É nesse tempo desgarrado que o som da alma ecoa. Descobrem uma nova espécie de borboleta na América do Sul, pessoas morrem, pessoas voltam do mundo dos mortos. As miudezas diárias, os atropelamentos, as fábricas de doces, o sorriso e o choro das crianças. É nesse tempo desgarrado que encontra-se uso para as bocas, as pernas e os soluços. Adentra-se no universo do prazer e do susto que só podem ser encontrados juntos porta afora. Acontece que a gente sempre se acostuma à realidade, não importa qual ela seja. E no caminho contrário até você trombei com os outros mistérios do amor.
Penso que a poesia me ajudou nisso de perceber o que se guarda além da minha janela. Penso que se não fosse por ela eu teria demorado mais tempo ouvindo o rio passar enquanto só era capaz de absorver o silêncio. Porque a poesia tem dessas de reeducar o corpo. Veja bem, o mundo é imutável, é apenas o corpo que vai se metamorfoseando pelo mundo. Me reconstruí unindo retalhos, refiz essa estrutura que me sustenta, encontrei um pouco de razão em quase todos com quem cruzei. Ninguém era mal pela maldade, assim como ninguém era bom só pela bondade. Afiei a ponta da lâmina disso que chamam de pessoa. Enfim agucei a pontaria dos dardos, mas todos se lembram de mim pela fisionomia. Só aqueles que me amaram verdadeiramente, eles já sabiam das dezenas de pessoas nas quais eu me transformaria, e ainda assim respeitaram o meu segredo.
Isso é bonito, a certeza de que ninguém está livre de se perder, nem a salvo dos dons com que se faz a rota. É bem provável que não se saiba para onde ir, mas todos sabemos quando. Há uma comoção geral nesse momento. Presta atenção aos pequenos sinais. Lá de dentro a gente entende que não existe sequer um cantinho da terra sem um pedaço nosso à espera de ser deglutido. A pessoa pensa esse aqui é o meu único lugar no mundo, essa é minha única chance de destino, e mesmo assim vai. Inevitavelmente vai, mesmo sem ter para onde ir.
Mariane C.
DUENDES DA MORTE
Ele me chama pelo nome
e eu não lembro nem a ponta do nome dele
aquela primeira letra que se agarra à língua
sabe? não há sinais, evaporou
não porque ele foi pequeno pra mim
tenho certeza que convivi durante anos com ele
em algum lugar de minha entre-vida
mas porque algumas memórias
simplesmente não atravessam
são como projéteis ultrapassando
essa linha invisível da atmosfera
todo cuidado é pouco pra não virar pó.
Não quero cair na armadilha de dizer
que tenho uma má memória
minha memória se desdobra
pelo tempo que está à frente
desde pequena jamais decorei uma receita
uma quantidade sequer de fermento para bolo
acho que meu olho brilha somente
pela descoberta das coisas que não sei.
Às vezes me faço esquecer da curvatura
na sobrancelha, no bigode chinês das pessoas
só para escorregar na surpresa
é lindo um rosto pela primeira vez:
descobrir a profundidade do escuro
entre os dentes do sorriso escancarado
cada semblante uma melodia chiclete
que ecoa por dias na minha cabeça.
No entanto esquecer um nome
é a coisa mais chula que posso fazer
é como perder os elementos da magia
aquilo que invoca o seu corpo
o que desvia teu olho na direção
da minha voz em qualquer estação
incluvise no meio do outono.
Perder o nome é quase perder o ser
por inteiro de uma forma fatal.
Se te encontro por exemplo do outro lado
eu jamais construirei tua ponte até mim
sem invocar a alquimia de chamá-lo.
Vamos continuar seguindo nossas vidas
como se nunca tivéssemos decorado
a cara um do outro, veja se pode.
Você deve achar um bobagem
que entre as ofensas do mundo
isso parece tão pouco, é tão pequeno
que podemos até seguir adiante
mas quero pedir desculpas
e mais do que tudo peço misericórdia
por mais esse nome que perdi dentro de mim
e que provavelmente não saberei recuperar.
Mariane Cardoso.
Ressonância
Ele tinha o som de cânion
Séculos depois de abrir-se
O som do lobo-guará dando voltas
Na terra solitária do cerrado
O som da concha do mar vazia
Que é isso mesmo que garante
A imensidão da concha – o vazio
Se existe uma coisa que tenho medo
É da falta desse silêncio
Mas ele tinha o som da noite
Esse homem será diferente
Foi o que me fez desmontar velas
Esse pensamento
Ele me ensinará a chorar
Esse homem quando a sua boca tiver
Muita calma e respirar
Dentro da minha
Quase como um suspiro
Dos deuses frágeis
Ele me ensinará a chorar
Feito as ondas gravitacionais
Que precisam sustentar
O globo terrestre na ponta
Da língua pois a sua língua
Estará descendo a escada
Das minhas costelas
Centímetro por centímetro
Colágeno por melanina
Todos os elementos do pó da estrela
Que fizeram o nosso suor
Esse homem vai fazer um buraco no
Meu coração do tamanho dessa
Espiral logarítmica de concha
Que reverbera o mar inteiro.
Mariane Cardoso.
A melhor época do Tumblr

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Sobrevivo de uma incerteza manca
e ranzinza
que cospe na minha cara de dia
que me põe para dormir a noite
enquanto sonho
sobrevivo de uma incerteza escorregadia
que a troco de qualquer sacrifício
desiste
entrega
repete que não nasceu pra acreditar
sobrevivo de uma incerteza quase pura
porque já foram tantas
dentro de mim
que desaprendi a voltar.
tuas palavras matam mais que guerras
eu andei pensando que o tempo não para mesmo nos ponteiros quase estáticos dos seus olhos quando eu sempre penso em correr de volta pra casa mas fugir é tão mais fácil e macio e cair é tão silencioso e simples
sim
ainda é dia e eu tenho segredos que sangram na ponta dos meus dedos e isso não é bonito mesmo que você sorria em tons vermelhos enquanto canta alguma letra estranha escorado no balcão da minha cozinha escorado bem nas frestas das minhas paredes e muros que estão prestes a ruir em algum ato seu
quando eu não tenho coragem de desabar sozinha e te levo isso é tão cruel, você diz mas permaneço calada enquanto estou perdida demais nas dobras das tuas pálpebras que te protegem a visão mas não me protegem de você
e me lançam em todo o seu mundo sem misericórdia ou piedade
eu quero dizer que isso sim é cruel isso sim
quero rir das suas paranóias e teorias da conspiração mas você é tão lindo enquanto pensa e planeja rotas de fuga pra gente se salvar depois
como se a gente tivesse mesmo alguma chance contra a tecnologia atual ou jogos políticos mesmo que você seja assim tão irreal
você diz que atravessaria meus olhos se o mundo não te escapasse pelos ecos de medo de não ter tempo mas eu quase te digo que você já está além do que eu vejo que você está a anos luz dentro de mim
você está
c.
Lisboa 2014
Eu vou embora e o céu continuará a ser bonito lá pelas quatro da tarde, os dias coloridos serão aproveitados no parque e o silêncio permanecerá acalentador. Foi quando me vi insuficiente aos meus próprios olhos e o mundo tornou-se nítido. A prosa continuará doída, ainda que com uma pitada de delicadeza porque os remendos não silenciam toda a vontade de ser, mesmo quando já não se é. Os dias correrão em passos lentos e depois largos e depois imensos até o calendário se tornar fosco e apagado. Já não me permito tantos rascunhos, é bem verdade. Tenho aprendido a aceitar o vazio em pequenas doses, talvez a realidade é que ele tenha me dominado.
B dia desses me disse sobre limites, penso ter encontrado o fim da linha. Me sinto numa história repetida com personagens distintos. Vejo-me como a protagonista que se encanta pelo impossível e termina ao pé do abismo, o corpo inerte, como aquela tragédia exagerada que Caio escreveu lá pelos quinze anos.
G.

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Fui arrumar a gaveta emperrada
aquela que você prometeu consertar
e nunca
e enfiando a mão bem fundo
como quem procura um tesouro perdido
ou uma bússola
achei a sua camisa de ficar em casa
socada tão longe
esquecida e misturada com as minhas regatas coloridas
e vestidos bordados
intrusa
desajustada
fora de contexto
então me vejo com o nariz afundado na manga riscada
de tinta
sugando os últimos requisitos do seu veneno
cheiro
porque eu jurei que já não fazia mais efeito
até lembrar que não.
Mas se você consegue abrir as janelas do quarto
Afastar os móveis velhos
Realizar faxinas aos sábados e comer frango assado aos domingos
Se você ainda pega os panfletos nas ruas por não conseguir ver aquela mão estendia ao vento
Se você não consegue se sentar nos bancos preferencias por sentir uma culpa extrema
Mas se você ainda corta as unhas do pé por achar um desperdício gastar com manicure
Se você sustenta algumas neuroses diárias e pensa em todo dia começar alguma aula tailandesa, uma fisioterapia barata, entrar em um grupo de apoio sem causa ou só comprar um sonho na padaria para ver se passa
Se você ainda lê os rótulos enquanto toma café, e não sabe identificar as tabelas nutricionais
Se você espera todo dia seu amor virar a fechadura, deixar os sapatos lá fora, bater de leve as sacolas na parede em desequilíbrio e depois joga-las na mesa para se afogar em seu abraço
Se você não se importa com o cheiro da rua preso no colarinho amassado, e as contas a serem pagas do lado de um vaso de margaridas, e a tv ao fundo anunciando mais uma tragédia
Mas se você nesse exato momento agradece a felicidade
Talvez você acredite no amor.