Posso ouvir a chuva, apesar da música alta nos meus fones de ouvido abafarem boa parte do som. E continuo a olhar para o prédio do outro lado da rua. Gosto de imaginar que quaisquer movimentos que eu faça mudam o mundo do lado de lá, como o maestro em uma sinfonia muito mais particular.
E por aqui a música continua a me tocar, e toca a todos do outro lado da rua. Uma trilha sonora para uma patética noite chuvosa. Se você acreditava que eu estava descansando a cabeça nos braços enquanto olho fixamente a janela do andar 10 do prédio azul do outro lado da rua, acertou. Era, de fato, uma noite entediante.
Me peguei pensando em Hitchcock, e o quanto daria para que algo interessante acontecesse naquela janela, naquele singelo quadro de luz amarela. Como um quadro de Da Vinci, a cada minuto ela ganhava vida. As sombras do lado lá da janela se fundiam, como o embaraço dos fones que se escoravam no meu punho envergado e se repousavam sobre a mesa. As sombras lutavam? Ou seria minha imaginação?
Em um movimento repentino, ambos sumiram pela borda inferior da janela. A luz amarela se tornava vermelha, escura, podre, marcada pelo Ãnfimo terror que agora me assolava.
Recuperei a postura e me estiquei para observar se as sombras retornavam a contornar a janela do apartamento. Parei a música, tirei os fones e bolei milhões de teorias. Meus pensamentos convergiam na passagem das gotas de chuva pelos meus olhos, enquanto o vento se encarregava de molhar meus cabelos, uma representação mais que real das teorias que desprendiam da minha mente.
E por mais alguns minutos esperei, absorvido pelas gotas de chuva de pensamentos, pelos trovões revoltos, que tornavam branca a luz amarela do apartamento. Foi então que adormeci de janela aberta, absorvendo toda a chuva que clarearia os sonhos absurdos daquela noite.
Um irmão sempre foi o que faltou para mim, sempre fui muito sozinho. Então os sonhos com a vinda de um irmão eram mais que comuns, eram rotineiros.
Sonhei com o tal irmão de novo, mas desta vez eu o via do outro lado da rua, escorado na janela onde as sombras lutadoras haviam travado a sua, suposta, última luta. E ele me contava do assassinato que havia presenciado, enquanto limpava o sangue na camiseta, que nunca cessava, já que o mesmo pingava do alto da sua testa como uma torneira semiaberta.
Era como olhar em um espelho, talvez um mais escuro ou sujo. Era um quadro imperfeito de uma obra imperfeita, um eu muito mais feio. E assim sempre fora, era desolador me ver em um sonho, como se réplicas de mim se multiplicassem em um mundo fora deste, um mundo muito mais... errado.
Segundo meu irmão, o casal discutia sobre uma traição, de forma calorosa. A mulher havia engravidado, mesmo quando o casal não tinha relações sexuais há mais de 3 meses. E a mulher insistia que o homem havia enlouquecido e que faziam sexo todas as noites, há mais de 6 semanas. E ele me contava que um segundo homem idêntico ao outro adentrou o quarto, assassinando os outros dois.
E foi assim que, como se um filme terminasse de repente, que acordei na manhã seguinte.
Tentei me recompor do estranho sonho e da mesa encharcada que molhava meus braços e todo meu rosto. Apanhei o relógio e observei que estava super atrasado para o trabalho. Peguei minha toalha, me sequei de prontidão, vesti a camisa e a calça, peguei minha mala e fui rapidamente fechar a janela. Como um reflexo de canto de olho, observei algo estranho ao me deparar com o exterior da janela. Meus pés falharam e cai em cima da mesa encharcada mais uma vez, molhando toda a camisa azul que acabara de vestir. Mas não houve tempo para se queixar, não havia como pensar em nada além do que havia acabado de ver. NÃO HAVIA MAIS PRÉDIO DO OUTRO LADO DA RUA.
Tentava entender o que estava acontecendo, me recordar da noite anterior. Lembrava da chuva, da música, dos fones, das sombras, da luz, do sonho. Não era possÃvel.
Decidi ligar para alguém. Mas para quem? Quem iria acreditar?
Resolvi não ligar, mas precisava perguntar para alguém sobre o prédio do outro lado da rua. Corri para o interfone e disquei a portaria. Perguntei ao porteiro se ele conhecia alguém que morava no prédio do outro lado da rua (tive que improvisar alguma coisa). Ele riu e disse que nunca existiu prédio algum do outro lado da rua.
Larguei o interfone ainda em linha e me sentei no chão da cozinha, com as mãos a esconder os pensamentos que, quaisquer que passassem, poderiam ver de longe emergindo da minha cabeça.
Decidi limpar meu rosto para me acalmar. Foi então que tomei o segundo susto do dia, meu rosto não era mais o mesmo. ERA O ROSTO DO MEU IRMÃO.
Mas como? Que espécie de sonho era este? Me estapeava enquanto me repetia estas mesmas perguntas, cada vez mais perto do chão, como se pedisse perdão pelos pecados em um confessionário, aos pés da única resposta possÃvel para minha loucura.
E os tapas se tornaram socos, até que eu desmaiasse.
Eu? Já nem sei mais quem eu era...
O reflexo pela janela no sonho era mais calmo e sorridente que este que eu via agora. Mais real, mais tangÃvel, menos amedrontador.
E eu era o reflexo e o monstro sob a luz amarela.