⚠️ Devido a uma falha técnica no agendamento da plataforma, a publicação original da parte 02 foi corrompida e removida antes do envio previsto. Por estar ausente monitorando outros projetos, o erro sistêmico só foi detectado após o alerta de @driftty, a quem agradeço novamente o aviso. Embora o contratempo tenha gerado um atraso involuntário de quase três dias na cronologia planejada, o conteúdo integral permaneceu preservado em "backup" físico. O incidente, contudo, permitiu uma revisão no esboço do texto. Algumas correções que assim como anteriormente, passo a comentar no final.
A seção a seguir está dividida em dois tópicos: (1) Caça aos monstros (poder + medo + boatos), concentrando uma carga analítica estrutural mais pesada, e (2) Há verdade nos olhos de quem vê (subjetividade/observações/'teoria em andamento'), uma leitura mais fluida e direta, servindo indiretamente como uma 'documentação' do processo prático.
- Aos que acompanham minhas teorias e especulações, agradeço tanto pela paciência na espera quanto pelo tempo investido na leitura.
(Citações/menções ao conteudo de @freakcircusofhorrors/ @nekoboydreams)
Caça aos "monstros"
Origem/poder
O preconceito ou viés intergrupal (favoritismo ao "nós" + desumanização hostilizada aos "outros") não surge do 'nada'. A princípio vem de raízes evolutivas como mecanismo de sobrevivência: ancestrais de caçadores-coletores categorizavam "nós vs outros" a fim de evitar ameaças reais como: transmissão de doenças, competição/roubo de recursos e violência de outros grupos. Ao decorrer do tempo, e com a formação de sociedades maiores, estados centralizados e hierarquias; esse mecanismo "adoeceu", transformando-se em segregação e perseguição sistêmicas.
"Um povo sem rédea, com mente de homens, mais sentimento de cães". - A maldição de Agede, texto sumério (c. 4000 anos atrás).
Inicialmente a coexistência exigia um pacto de neutralidade. O ser humano tolera o desconhecido até que o mesmo se torne uma "ameaça" à sua soberania (seja na cadeia alimentar ou seu senso de controle).
"O estranho não é algo que externo, mas algo que estava dentro de nós e foi projetado para fora" - Sigmund Freud, "Das Unheimliche" (O Estranho), 1919.
Diante de uma ameaça real ou imaginada, o "outro" é 'desumanizado', animalizado, 'monstrualizado', tornando-se alvo de tudo aquilo que o sujeito coletivo 'precisa' expulsar para preservar a ilusão de controle e poder.
Seguindo a premissa de que a sociedade retratada no TFC constitui uma alegoria de nossa própria sociedade, é possível abrir margem para imaginar que em determinado momento algum humano tenha presenciado (ou não), algum 'monstro' devorando um humano.
Origem do medo
O medo, além de 'arma de autopreservação', com o tempo pode se tornar algo prejudicial/perigoso; especialmente quando utilizado como cortina de fumaça psicológica e social. No seminário X - A Angústia (1962-1963), Lacan afirma que a angústia surge quando o sujeito se confronta com o desejo do 'outro' de forma não mediada ou quando o real irrompe. A angústia não é o medo de algo completo, mas sinal de algo que escapa ao controle simbólico, o 'monstro' que não cabe na narrativa social.
"Um povo bestial, sem fé, sem lei, sem rei… mais brutos que os próprios brutos animais" (inspirado/baseado em: Padre Manuel da Nóbrega, Diálogo sobre a conversão do gentio (c. 1556-1557) e Pero Vaz de Caminha, Carta a El-Rei D. Manuel (Carta do Achamento do Brasil, 1500).
Trata-se de um deslocamento e racionalização. O medo real (angústia diante de algo perigoso) é deslocado para justificar pulsões agressivas que já existiam (Thanatos; pulsão de morte). Então o preconceito surge como formação reativa: "Em vez de reconhecer minha própria violência ou fragilidade, eu a atribuo ao 'outro'."
O medo, assim como na vida real, em TFC a sociedade 'civilizada' o utiliza para manter a "paz" sem "sujar as mãos", onde se cria uma economia moral invertida: os mais 'fracos' que sentem medo se colocam automaticamente como vítima, mesmo quando é o agressor.
Difamação, dor, ´aceitação` e "metamorfose".
Há a tendência de 'justificar', mesmo quando antecedido por um perigo real, como algum animal considerado perigoso, ex: cobra peçonhenta, onde se utiliza como álibi a eliminação desnecessária e desumanizadora dos "montros". Os boatos surgem precisamente como elaboração defensiva dessa 'defesa'. Diante da angústia provocada pelo Real (Lacan: o 'excesso de realidade') sobre 'humanos' tomados de fúria; onde aquilo que escapa à ordem simbólica ameaça a estabilidade imaginária do grupo; a sociedade tem a tendência de não suportar o silêncio ou a incerteza, surgindo então a 'necessidade' de preencher o vazio com narrativas que reduzam o 'outro' a uma redução imaginária, onde os 'monstros' , além de alvos de repulsa ao 'real', são reduzidos a imagens controláveis e condenáveis (estereótipos, lentes , "freak shows").
Como mencionado, é possível que em algum momento anterior "humanos" tenham sido devorados por "monstros"; afinal não estamos tratando 'monstros' e 'humanos' como bem e mal absoluto (mesmo que o 'mal' tenda sistemicamente a pender para um lado). Imagino que antes da caça dissimulada e do preconceito estrutural, foram os boatos que potencializaram o ódio e a imagem distorcida em relação aos´´mostros´´, servindo como um 'catalisador'; algo como: "Ouvi dizer que eles comem carne humana para ficarem mais fortes"; "e se eles fizerem isso, o que será de nós? O que eles farão a seguir?". Boatos que servem de preconceito para desumanizar um dado existente; desumanizam ignorando suas culturas e disparidades morfológicas.
Segue-se então esse 'tratamento' se espalhando como um vírus, onde os indivíduos que buscavam compartilhar a tentativa de sobreviver e experimentar a normalidade do cotidiano ordinário; seus próprios crescimentos pessoais, tentando, mediante a indiferença existencial do universo, encontrar seus próprios sentidos; começaram aos poucos a ser difamados, censurados e caçados, submetendo-se de forma silenciosa e estrutural a meros rótulos: monstros.
A noite sem lua foi apenas um dos cruéis vislumbres onde a urgência de sobrevivência superou a moralidade. Foi a concretização literal e metafórica dos boatos: uma "aceitação" e transformação forçada, onde deixaram parte do que eram para trás, se tornando enfim o que os fariam serem 'aceitos':( monstros) "humanos".
Há verdade nos olhos de quem vê
Ao analisar a progressão narrativa, os comentários antigos e o AMA de The Freak Circus, observa-se que a história segue, sim, uma estrutura linear delineada por começo (origem), meio (causa) e fim (consequências). Tal configuração não anula, contudo, a coexistência de interpretações diversas. Um detalhe relevante a se ressaltar é que a obra sugere uma íntima conexão com estruturas teatrais, literárias e metafóricas, operando sob uma narrativa de dupla lente e alegorias multicamadas. Essa característica valida e enriquece oscilações interpretativas.
Por outro lado, essa mesma profundidade pode impulsionar uma busca exacerbada por um veredito absoluto, conceito aplicado principalmente aos personagens. Nota-se a tentativa constante de reduzi-los a papéis rígidos, visando eleger um 'vilão' (aquele que orquestra) e um 'mocinho' (a vítima definitiva). Essa polarização binarista, se exagerada, torna-se uma premissa analítica equivocada.
Columbina e Jester se aplicam bem a esse viés. A interpretação comum costuma atribuir a eles nuances rígidas, rotulando por exeplo, Jester como um narrador não confiável ´absoluto`. Sob essa ótica, assume-se que tudo o que contesta seu relato carece de verdade. Utiliza-se como álibi o AMA oficial, no qual Columbina, ao ser questionada se algo em Harlequin e Pirrot a "incomodava", comenta que não.
O que estabelece um contraponto direto ao incômodo evidenciado na performance do Jester.
Tratando-se de uma performance teatral dentro da obra, não se deve ignorar a densa camada de subnarrativas que surge ao considerar as premissas no contexto citado no início. Incluindo a própria performance do Harlequin. Considerando que:
e que os registros "sobreviventes" sofreram possivelmente apenas headcanons triviais com o tempo, Antes:
Atualmente:
(vale resaltar que, gostar de algo não significa ter como favorito, por isso o "talvez").
Logo, a história original contém a "verdade", porém sob a ótica estrita do mesmo. É provável que, com exceção de interpretações subjetivas e nuances coreografadas, Jester tenha revelado meias verdades in vez de uma mentira deliberada. Columbina, embora idealizada como o anjo metafórico, traz um detalhe crucial: sua boca pode verbalizar conformidade enquanto seu coração reprime o incômodo, a fim de se preservar e preservar o outro. Esse raciocínio abre duas leituras válidas por polissemia. Na superfície, ela o aceitava sem ressalvas. No subcontexto, a passividade representa o próprio incômodo reprimido, seja por medo, por um afeto excessivo que beirava o "autossacrifício" ou por uma dinâmica disfuncional já enraizada/normalizada.
Nesse prisma, a verdade absoluta se torna uma ilusão em uma narrativa focada em culpa e obsessão. Diante disso, Columbina "perde" o papel de benevolência intocada.
A seguir uma frase que, ao meu ver, se traduziria sob a ótica de Jester
"Seu desejo por segundas chances, ignorando a impossibilidade evidente de se converter a "hostilidade" através do afeto, prova que sua (teimosia) "persistencia" foi maior que a cautela de seu coração. No fim, sua compaixão não salvou ninguém."
Seguindo a perspectiva de que a obra opera sob as engrenagens do efeito Rashomon, cada indivíduo editou o registro factual. Filtraram o ocorrido através de suas próprias dores para evitar a desfragmentação psíquica diante das "manchas" do passado.
Assim, mesmo com las futuras revelações das perspectivas do Doutor e do Pierrot sobre a noite sem lua, o mosaico permanecerá em aberto. Entregará o "esqueleto" dos fatos, mas nunca a versão definitiva.
Extra: Tem sido interessante de interpretar essa "dualidade" que parece tão recorrente; um exemplo: Harlequin sentir evidentemente inveja de Pierrot, por ele ter/ser tudo o que almejava (mesmo que Pierrot não percebendo o quão "precioso" realmente é), ao mesmo tempo que se preocupa profundamente com ele. Toda essa dualidade interna, todo esse caos, é fascinante.
Correções/edições: Aproveitei o inconveniente e removi um tópico redundante, o qual, porém, pode ser revisitado no futuro. Inclusive houve uma edição na parte 01 a fim de evitar confusões, somada a outra alteração que já havia sido realizada anteriormente, ocasionada por um erro de digitação:
Outras modificações realizadas no primeiro bloco cobrem elementos adicionais que deixei passar na revisão anterior, antes:
agora:












