Os converse surrados afundaram na neve, resultando num fugaz sorrisinho debaixo do cachecol violeta. Começara a nevar há poucos dias, cobrindo parcialmente os telhados e ruas, o nível não passava dos tornozelos; para o coreano, entretanto, era o suficiente para proporcionar um pouco de diversão. Flexionou os joelhos, pulando para frente com um risinho abafado quando os pés afundaram novamente — Tae-Oh amava a neve, embora a estação gélida não o apetecesse num todo. Casacos macios, chocolates quentes e sopas eram deliciosos; resfriados e ter de permanecer dentro da Okiya, não. Deu outro pulinho, pisando num montinho de neve que formara entre a rua e a calçada, mantendo o singelo sorriso. Foi quando levantou o rosto, as pupilas seguindo o pouco de neve que chutara ao vento, que notou os olhares tortos de algumas pessoas que arrumavam suas oferendas nas calçadas, colocando-as em altares e latões. Estavam na semana dos mortos, tradicionalmente uma época onde as ruas tornavam-se tensas, quietas — nem mesmo membros de gangue ou organizações ousavam bagunçar durante a semana. As superstições e/ou, pelo menos, o respeito pelos espíritos eram demasiados e sobrepunham o caos natural daquela cidade (para a maioria, ao menos). Era natural que, no mínimo, recebesse reprovações em olhares, gestos ou palavras — sua inocência, entretanto, era quase irrefreável quando deparava-se com coisas que amava, sua atenção sendo capturada facilmente. Acanhado, fez uma breve reverência para uma senhora noutra calçada, encolhendo-se dentro do casaco, encerrando o infantil divertimento. Cerrou as pálpebras, deixando, ao menos, os flocos tocarem-lhe o rosto corado; um suspiro escapou-lhe os lábios, a expressão angustiada tomando-lhe a feição novamente. Mas ele também, deixava sua prisão para cumprir seus costumes da data.
Com hesitação, olhou por cima dos ombros para a Okiya, subindo o cachecol para cobrir-lhe os lábios. Saíra escondido de Abe e a tia, sabendo que a primeira não permitiria sua saída; especialmente se soubesse a razão. “Suas” responsabilidades na Okiya estavam a sobrecarregar mas prometera a si próprio que não demoraria; voltaria na primeira hora da manhã, sem atrasos, independente de quem “fosse”, ele ou Yoichi (após a última punição, não ousava desobedecer). Esfregou uma palma contra a outra, respirando fundo ao que seguia seu rumo, passando por entre os clientes que adentravam a Okiya, esses nem sequer notando quem era. Nunca deixava de se surpreender em como tornava-se insignificante quando Tae-Oh, em comparação a Yoichi. Não que se importasse muito, honestamente, era somente curioso.
Andava com lentidão pelas ruas cada vez mais desertas conforme o crepúsculo se aproximava — o horário quando o véu entre os mundos ficava mais fino, possibilitando a entrada dos espíritos, ou as lendas diziam. Franziu as sobrancelhas, repetindo mentalmente que ainda faltava uma hora e meia para a hora mágica e consequentemente, o anoitecer — seu maior medo. Chegaria em meia hora em seu destino que, sendo numa região elevada da ilha, provavelmente estaria mais claro. Uma brisa bagunçou-lhe as madeixas acinzentadas, levando-o a parar no lugar. O coreano torceu o nariz, enfiando as mãos fundo nos bolsos do espesso casaco após levantar o capuz, encolhendo os ombros e tremendo por poucos minutos devido à sensibilidade ao clima. Contornou o bloqueio no fim da pista após os calafrios, chutando algumas pedrinhas no caminho ao que adentrava a floresta. O capuz com pelinhos nas bordas caía-lhe sobre os olhos, ocultando parcialmente a visão: mas não precisava de direções, aquele caminho estando guardado em seu coração.
A floresta Níngjìng estava silenciosa, desprovida mesmo dos cantos dos pássaros. A copa das árvores cobertas de neve (que eventualmente caíam sobre o capuz e ombros, levando-o a chacoalhar o corpo esguio como um cachorrinho para livrar-se do gelo). Escorregou e tropeçou algumas vezes por conta dos troncos, galhos e raízes que se emaranhavam no chão, contudo nada que o machucasse. A cada passo mais fundo dentro da floresta, subindo a montanha, o clima gelava mais, forçando-o a encolher-se dentro das vestes. Tirou dois hot packs da mochila, colocando-os dentro dos bolsos para aquecer as mãos descobertas (não encontrara as luvas em lugar algum!). Ao chegar no portão enferrujado, trancado com cadeado e corrente, os cantos dos lábios curvaram-se num singelo sorriso observando o letreiro carmim desbotado, a nostalgia tomando-o: 보물섬. Retirou a mochila das costas, jogando-a por cima do portão. Afastou-se em alguns passos, somente para conseguir impulso ao pular contra o metal, escalando e pulando para o outro lado. Demorou mais alguns minutinhos de caminhada, andando entre arbustos e grama alta até, finalmente, deparar-se com o abandoando parque de diversões.
Aquele parque nunca entrara em funcionamento, tendo sido abandonado antes de seu término. Mas desde pequeno frequentava-o com a mãe. A mulher levava-o para brincar nos poucos brinquedos que haviam, desprovidos de energia e quebrados. Xícaras gigantes, metade de uma montanha-russa, carrossel, cabines quebradas de uma roda gigante nunca construída, alguns outros brinquedos de carrinhos e espaçonaves, bonecos e outros enfeites. A maioria do ambiente fora tomado pelas árvores e mato, dando um clima fantasmagórico para o local; mas o Nam não tinha medo. Talvez fosse por conta das memórias da mãe que haviam transformado aquele parque num cantinho de segurança e paz para Tae-Oh, afastando qualquer male que o pudesse afetar. Aquele era seu refúgio secreto, sendo que, na infância visitava quase sempre após um ataque de fúria de seu pai, enquanto este deixava a casa com o irmão mais velho. Na atualidade, refugiava-se ali quando se sentia sufocado naquela cidade ou quando as mágoas eram demasiadas para aguentar sozinho. Tae-Oh segurou a respiração com o despertar das lembranças ruins, apertando as palmas das mãos dentro dos bolsos enquanto, mentalmente, repassava seus afazeres. Deixou o ar escapar dos lábios, o fôlego morno ‘dando rodopios’ naquele clima álgido. Abraçou o próprio corpo, continuando a caminhar por entre os brinquedos, mantendo em mente que o crepúsculo estava próximo.
Num dos cantos havia uma pequena cabine telefônica transformada num modesto templo pelo próprio. Fora necessário forçar a porta para abri-la estando, como qualquer outra coisa dali, velha e enferrujada. Devido às paredes de vidro, o interior não era tão mais quente, continuando a tremer com o frio; além que, havia uma rachadura no teto, fazendo com que entrasse neve ali. Com o pé, empurrou um pouco do gelo para o canto, longe do improvisado santuário antes de iniciar a celebração.
Retirou o incenso e o isqueiro da mochila, colocando o primeiro num potinho de madeira frente um altar de pedra com uma figura de Buda, ao lado de um totem de madeira onde havia uma pulseira de contas — uma lembrança que deixara ali há muito. Tae-Oh colocou-se de joelhos, juntando as mãos e fechando os olhos, rezando silenciosamente antes de acender o incenso. Esse era para o homem que matara noutro dia, Fan Guan; o gesto mais pela própria consciência que pelo falecido. Apesar dos pesares, não era um assassino e mesmo que não tivesse presenciado o momento que o infarto acontecera — o efeito do acônito era demorado, ajudando a disfarçar sua conexão com o caso, a morte arquivada como ataque cardíaco — sua mente (naturalmente conturbada e ansiosa) perturbara-se, rendendo-o pesadelos. Afinal, era a primeira vez que matava alguém.
Fora um favor para Taro e, de certo modo (para si, ao menos) o marco de sua entrada para a yakuza após anos de insistência por parte do melhor amigo; embora significasse pouco, afinal, receber ordens não era seu forte — mesmo que de Nakajima, quem respeitava imensamente. De qualquer modo, não se arrependia de seus atos. Durante a hora que passara com Fan Guan na Okiya, fingindo ser o exímio geiko, recebera repetitivas investidas nojentas e notara outras atitudes odiosas, aprendendo a natureza repugnante daquele chai. Devido a tal, inclusive, encontrara dificuldades em sua tarefa; mas conseguira obter as informações que o melhor amigo precisava, sucedendo em seu dever. Estranhamente, estava satisfeito com seus atos. Mesmo que, após o envenenamento, precisara dopar-se com os antipsicóticos devido as perturbações causadas pela ansiedade — uma atitude que se tornara comum nos últimos tempos. Encerrou suas orações, colocando uma simples oferenda de alguns pertences antigos (tecidos e outras porcarias que ganhara de presente de clientes em outros anos) dentro da tigelinha de barro, rezando uma última vez. Rezava para que o espírito encontrasse seu lugar no diyu e que não o perturbasse.
Em silêncio, o coreano retirou uma lanterna de papel da mochila e um lírio, colocando-os sobre a pedra juntamente de outro incenso, este dentro de um pote de ouro. “Boa noite, eomma.” Sussurrou com um mínimo sorriso ao acender o incenso. Não detinha conhecimento de onde a mãe fora enterrada (ele poderia procurar no cemitério, mas não sabia seu nome e tinha medo de ir ao departamento de polícia pedir pelas próprias informações e acabar detido) então, há alguns anos, montara aquele templo em homenagem à mulher; pensou que, talvez, ela gostaria de estar ali, naquele pedacinho que eles compartilhavam em segredo. Permaneceu em silêncio por alguns segundos, rezando antes de colocar algumas outras oferendas que trouxera (frutas e acessórios caros, assim como uma fotografia de Tomomi) dentro de um enorme prato de porcelana branca. Rezou uma vez mais e, então, sentou de pernas cruzadas no chão.
De bochechas avermelhadas e uma expressão incerta, chamou baixinho e dócil. “Eomma.” Gostava de proferir a palavra, a sensação de usá-la aquecendo o coração. Mal sequer lembrava de a usar na infância, as memórias da época sendo nubladas, assim, gostava de compensar. “Eomma, espero que você esteja descansando bem. Eu lembrei de trazer a foto do Tomomi que havia prometido! Queria trazê-lo mas fiquei com medo dele ficar com frio.” Apertava os nós dos dedos, olhando para a pulseirinha de contas com os olhos brilhando. Passou a língua entre os lábios, os umedecendo antes de continuar; conseguia sentir o coração acelerado, timidez e nervosismo tomando-lhe. Não era a primeira vez que conversava com a mãe, mas sempre temia dizer alguma coisa errada ou espantá-la. A lanterna continuava apagada, mas sabia que ela o ouviria. Ela tinha que ouvir. “Eomma… eu tenho novidades…! Aqui, irei mostrar.” Com os dedos trêmulos, o caçula puxou um livro da mochila, levantando-o na direção da lanterna. Acostumara-se a contar suas descobertas, angústias e outros para a mãe quando a visitava, o ato ajudando-o a acalmá-lo. “É um conto de fadas, “O Patinho Feio”. Eu o encontrei no chão próximo à uma casa abandonada. Eu… tive dificuldades… mas só no princípio! Porque está em mandarim, digo. E hm, eu sou lerdo para ler… de qualquer maneira! Aqui.” Folheou as primeiras páginas em branco, apontando com o dedo sobre a imagem do patinho chorando. “O patinho feio está triste porque ele não tem família! A mamãe dele o deixou porque ele era feio! E então,” virou outra página, apontando para uma figura do patinho sozinho, “Ele ficou muito triste porque estava sozinho e ninguém o queria…, mas a mamãe cines ouviu os chorinhos do patinho e o encontrou! E então, ele percebeu que ele não era feio!” Mudou para a outra página com os olhinhos piscando em excitação. “Ele era um cisne! E a mamãe cisne o havia perdido quando ainda era um ovinho!” Tae-Oh apontou para a página onde a família de cisnes estavam, um sorrisinho em seus lábios. “Então ele se reuniu com a família dele e não ficou mais sozinho!“ Meneou a cabeça positivamente, dando ênfase à própria afirmação sobre a alegria do conto. O caçula encarou a imagem da família de cisnes, permanecendo em silêncio por longos minutos enquanto absorvia cada detalhe daquela imagem. Encantara-se com as cores, a paleta de tons azuis e o desenho com traços leves. Entretanto, aos poucos, os detalhes da história pareciam martelar em sua cabeça; havia simpatizado com o conto que, sutilmente, servia-lhe como uma metáfora à própria situação.
Franziu o cenho, o sorriso em seus lábios desaparecendo. “Essa história me deixou um pouco triste...” Colocou o livro sobre as pernas cruzadas, apertando as bordas da página. “Às vezes me sinto tão sozinho... eu quero chorar também. Yoichi tem a Abe e as outras gueixas... e eu... hum,” Sorriu melancólico, esfregando o olho esquerdo com as costas da mão. “Eu sou o patinho feio daquele lugar.” Riu fracamente. “Mesmo que... eu tenha os hyungs Nakajima não é a mesma coisa.” Balançou a cabeça negativamente, suspirando. A voz tornava-se mais silenciosa e falha, cada palavra saindo de seus lábios com dificuldade e receio; eram seus sentimentos que estavam trancados em seu coração desde a pouca idade. “Honestamente… esses os últimos meses foram difíceis. Eu experienciei muitas coisas novas, a maioria ruins. Fiz coisas que não estou… orgulhoso e outras que me fizeram perceber quem eu sou.” Engoliu em seco, o polegar esfregando a tintura da página. “Sinto que não pertenço à lugar algum... e... hum, eu não tenho uma família que me ame. Digo... você me deixou, hyung nunca nem sequer… falou comigo alguma vez... e... bem…” Engoliu em seco, balançando a cabeça para os lados. “Eu não a culpo. Digo, agora que sou mais velho eu compreendo melhor o que acontecia. Mas… eu costumava pensar que você tinha me abandonado lá. Na verdade, as vezes eu ainda penso… não consigo evitar. Além de tudo… eu nem a conheço direito; você nunca me disse seu nome.” Os olhos castanhos brilharam ao marejar, o caçula bufando ao esfregar as pálpebras com as costas das mãos. “Taro hyung é como a mamãe cisne...! Eu acho... ele me acolheu e cuida de mim. Mas mesmo que ele o Daichi sejam muito legais comigo, eu ainda me sinto tão sozinho... e um pouco acanhado, também. Eles estão em outro nível e eu sou..." Deixou a frase morrer na garganta, encolhendo os ombros com um entristecido sorriso de canto. “Yoichi usa uma palavra difícil para me descrever... desditoso. Eu acho que combina comigo.” Fechou o livro em suas pernas, colocando-o ao lado da tigela de oferendas. Fechou os olhinhos, soltando uma série de espirros; esfregou o nariz com manga da jaqueta. “Acho que estou ficando um pouquinho doente.” Suspirou novamente, pendendo a cabeça para o lado. A menção da saúde frágil levando-o e a menção do outro o levando a recordar de outras preocupações.
“Abe-sama está ficando pior... não importa o remédio ou tratamento que ela faça, ela continua a tossir...” Juntou as sobrancelhas, abaixando o rosto para encarar o chão, “… Eu acho que Yoichi está com medo.” As palavras saíram num murmuro ressentido; mesmo que o outro não estivesse presente, temia-o. Sabia o quanto o geiko detestava que dirigisse a palavra sobre ele; Tae-Oh sentia, também, que a menção do nome de outrem atraia-o para o fundo de sua consciência. E temia a presença do outro num momento como aquele. Ele certamente não gostaria de saber que visitara a mãe, sendo o ato de manter contato/laços familiares uma prática banida na Okiya — e Yoichi abominava o descumprimento de regras. “Ele ficará muito solitário quando ela... bem,” engoliu em seco, sentindo-se entristecido com o pensamento — não por Abe, mas pela outra personalidade. Apesar das diferenças e desafeto mútuo, Tae-Oh conhecia a angústia de uma vida solitária e o desespero que a perda acometia; e não desejava tais emoções para o semelhante. “É… egoísta e bobo pensar assim, mas… espero que ele não fique muito chateado. Ele faz coisas ruins quando está chateado.” Sussurrou a última parte como se contasse um segredo, mordendo o lábio inferior ao que recordava sobre o último encontro deles. Estranhamente, contudo, Tae-Oh entendia o comportamento do semelhante. Às vezes, ele também, sentia-se irritado ou com medo o suficiente para querer machucar outros, para descontar sua angustia/fúria em alguém. Fazer outra pessoa sentir-se como ele ou encontrar um culpado para o estado de desespero constante em que se encontrava. Era o quê Yoichi fazia, arrastava-o para o fundo do poço para sentir-se melhor. Tae-Oh compreendia, em partes — mesmo que ainda o odiasse e reprovasse de suas ações, ele entendia.
Permaneceu em silêncio por alguns minutos, ponderando. “Eu... eu acho que estou cansado. É exaustivo viver assim...” As palavras deixaram os lábios com dificuldade, cuspindo-as para fora da garganta e a gagueira (normalmente ativada somente em momentos de pânico ou nervoso) aparecendo. “É difícil... sentir-se assim.” Passou as costas das mãos contra as pálpebras com força, respirando fundo para conter as lágrimas. “Mas eu tenho certeza que eu aguento. Eu sou durão.” Murmurou com um mínimo sorriso, querendo assegurar a mãe de que não precisava preocupar-se. “Já tenho vinte e um anos! Eu sei me cuidar.” Balançou a cabeça positivamente com ânimo, estufando o peito. Foi ao levantar a cabeça para encarar a pulseirinha novamente que notou; a lanterna estava acesa. Os olhinhos marejaram novamente e um sorriso se espalhou pelos lábios do Nam. “Uhm, obrigado por ouvir,” Fez uma reverência, colocando-se novamente de joelhos, se curvando o suficiente para as madeixas descoloridas tocarem o chão. Levantou-se após longos minutos, olhando, então, para o horizonte além das paredes de vidro. A claridade desaparecia aos poucos, o céu nublado pela neve tomando um gradiente de violeta e rosa com sutis lampejos alaranjados. A hora mágica. Respirou fundo, os dedos se apertando contra as coxas. “Eu prometo que vou ficar melhor.” Murmurou com convicção, lançando um sorrisinho para a pulseira de contas que, outrora, pertencera a mãe. A única lembrança física que possuía dela; não tinha fotos, roupas antigas ou qualquer outro. Era desprovido, até mesmo, das lembranças de seu rosto. Por isso, aquele era seu pertence mais valioso, deixado naquele local como um amuleto de proteção.
Rezou outra vez, curvando-se sobre o chão e permanecendo assim por longos minutos. Ao terminar com as tradições, colocou a mochila nas costas novamente, saindo daquele espaço após uma breve reverência.
Assim que deixou o “santuário”, uma brisa gélida o recebeu, bagunçando as madeixas e roupas, levando-o a espirrar. Com certa dificuldade, caminhou aos tropeços até o um dos brinquedos próximos, “fire brigade” — uma réplica de um caminhão de incêndio que o Nam colocara placas de metal nas janelas e uma tranca na porta para usá-lo como abrigo quando visitava. Precisou empurrar a porta enferrujada após destrancá-la, fechando-a novamente antes de deitar no chão entre os bancos, sobre o cobertor que havia ali; o qual o próprio trouxera outrora. Deixou a mochila num canto e prosseguiu a abraçar um dos muitos travesseiros cercando-lhe. Na mesma medida que acostumara-se a deitar na extravagância do quarto na Okiya, acostumara-se com o desconforto de chãos frios, colchões delgados ou qualquer outra superfície que servisse para dormir — desde a adolescência, quando fugia de sua prisão, encontrara conforto nos mais diversos lugares. Latas de lixo eram mais comuns nas últimas semanas, estando bêbado ou extasiado demais para se dar ao luxo de encontrar outro lugar; mesmo que nojento, valia a pena quando era Yoichi quem acordava na outra manhã (o desgosto do geiko rendendo-lhe um divertimento único).
Com as mãos trêmulas pelo frio, acendeu uma lamparina que havia sobre o banco de metal, iluminando o pequeno ambiente. As formas de estrelinhas cravadas na lamparina criavam formas decoradas nas paredes, extraindo um sorrisinho melancólico dos lábios do Nam. Com um suspiro, retirou do bolso da mochila um vidrinho de comprimidos — decidira, antes de deixar a Okiya, que não tomaria nenhum antipsicótico antes de visitar a mãe, não querendo estar intoxicado quando conversasse com ela: aquela não era a imagem que queria passar. Mas a noite se aproximava e ele não tinha escolha. Com um suspiro exasperado, enfiou os dois comprimidos na boca, guardando o vidro dentro da mochila novamente.
Cobriu o corpo até o queixo, se encolhendo naquele espacinho. Com um suspiro, encarou um ponto alto entre os metais que tampavam as janelas, onde havia um buraquinho que o permitia observar o lado de fora; a atenção sendo atraída pelo festival no céu. O barulho dos fogos de artifício, ligeiramente abafados ali, o assustavam – entretanto, as cores eram tão vívidas e bonitas que o Nam não conseguia desviar os olhos. Haviam tantos detalhes naquele mundo que o impressionavam, tanto que o pequeno Tae-Oh queria aprender e descobrir; mesmo que estivesse triste naquele momento, mesmo que as coisas estivessem difíceis, ele tinha que aguentar mais um pouco. Uma hora valeria a pena. E com esses pensamentos, sob um céu colorido, o coreano adormeceu.