Comediantes Não Choram
Por: Daniel M. B. Nascimento
Mas um show bem sucedido, mais um déposito gordo na minha conta, mais um uma noite “bem sucedida”, o bar era o estilo estadunidense, um grande balcão feito de um grande pedaço de madeira, que parecia ser carvalho, ou talvez só de outra árvore comum que eu não reconhecia, em forma de meia lua, atrás dele havia um homem branco de cabelo arrumado que se vestia como um penguim, apesar de não estar no meu melhor dia eu dei um meio sorriso com a piada arcaica, abri uma caixinha com cigarros, no total haviam cinco, e acendi um, com uma longa dragada, me virei ao barmen um velho conhecido meu, e ele já sabia o que eu queria apenas pelo meu olhar cansado, ele prontamente pegou uma garrafa de Jack Daniels e um copo e deixou ao meu lado, dei outra longa dragada e enchi o copo, um homem moreno vestido da cabeça aos pés de roupas pretas entra no estabelecimento que até agora estva relativamente calmo, a chuva lá fora havia piorado e o homem estava encharcado, e realmente pensei que ele poderia ser perigoso, mas assim que abaixou o capuz ele na verdade tinha uma face jovial e animada, então desarmei e dei de ombros para as preocupações, eu dei um largo sorriso que escondi por de trás do copo cheio até a metade (Meio cheio ou meio vazio ?) com a ironia da situação, ele me olhou de relance bem rápido e depois me olhou com mais atenção. “Merda mais um fã chato pra encher meu saco” draguei meu cigarro e soltei a fumaça pelo nariz como se representasse a minha frustação em ter que falar com ele.
-Eu não creio, será que meus olhos me enganam ?!
Ele disse de forma espalhafatossa e até exagerada, parecia que ele estava tirando sarro da minha cara, no entanto, a atitude dele soava genuina. Eu olhei para ele de relance, dei um sorriso um pouco incomodado e tentei disfarçar um pouco, pórem acabamos chamando atenção, com o jeito exagerado dele, ele parecia ser tão exagerado que me lembrava um personagem de desenho animado.
-Não pode ser. Alejandro Sasamoto ? Cara eu sou seu maior fã (“Todo mundo fala isso” eu pensei já revirando meus olhos e sentindo o cansaço de ter de falar com ele me abater), sério adoro seu trabalho, então o que faz por aqui ?
-Ah, o de sempre, me apresentando, ganhando um dinheirinho pra colocar comida na mesa, o de sempre.
Eu tentava soar animado e até pensei em uma piada para contar ali para tentar aliviar um pouco a tensão e disfarçar meu clima de cansaço, entretanto, tava de saco cheio e decidi só não agir como um babaca, apesar do olhar dele me deixar descofortavel, dei outra tragada no meu cigarro, soltei a fumaça devagar.
-Legal, então como você esta ? Não acompanho seu trabalho faz um tempo.
-Não mudou muito, conto piadas, faço gracinhas, a galera ri, eu ganho meu dinheiro e volto pra casa…
Quando notei que ia teminar a frase com um “...feliz.” eu interrompi e dei um gole no meu copo, o liquido desceu ardendo, mas, ainda sim era bom, dei a suguei a toxinas do tabaco enquanto tentava me deixar levar dali, a fumaça descia secando minha língua e garganta, descia até o meus pulmões e então eu a cuspia fora.
-Nossa me lembro o quanto gostava de seus primeiros shows, eles eram geniais.
Eu olhei um pouco confuso para o homem, sempre me considerei infantil e novato demais quando lembra daquela época, não gostava de pensar o quão ingenuo eu era.
-Sério ? Não gosto muito de lembrar dessa época.
-Tá de brincadeira ? Foi a sua era de ouro, cada piada não era sem sentido ou só para arrancar risadas, era maior que isso, cada uma carregava uma crítica sarcástica, me lembro da sua imitação de Michel Temer, você se vestiu todo de vampiro.
Ele caiu na gargalhada, aquilo me trouxe boas lembranças, eu sorri ao lembrar daquele show, tinha tido uma bilheteria bem fraca e a maior parte das pessoas acabaram não entendendo as piadas, pórem foi muito divertido, apaguei o cigarro e acendi outro.
-O que aconteceu com você ? Desde então sua piadas, me deculpa dizer, estão tão chatas e vazias, ainda engraçadas mas só servem pra fazer as pessoas rirem, não tem nada de subjetivo. Agora suas piadas se resumem a zoar o sotaque das pessoas.
Isso eu não podia negar, na quele dia eu estava mesmo fazendo esse tipo de piada, acho que gastei mais da metade do meu tempo de palco falando da diferença do sotaque paulista e o sotaque goiano, tanto decepcionante o ponto em que eu cheguei sabendo que eu poderia fazer uma piada muito melhor.
-Eu parei de fazer piadas críticas por que não é isso que as pessoas querem ouvir, elas não gostam de pensar muito nessas coisa ou então não conseguem entender, eu não ganhava muito, no entanto, agora, mesmo eu não falando o que eu gostaria de falar eu tenho dinheiro sobrando, viajo muito, tenho uma bela casa, um belo carro acabou compensamndo tudo isso.
-E você se sente bem com isso tudo ?
A pergunta dele veio derepente, como se fosse algo que ele apenas estava esperando parar dizer e com apenas aquela frase ele me fez pensar muito, eu fazia o que eu amava, entretanto não fazia como eu queria, era um paradoxo estranho.
-Sabe tem uma piada que eu conheço que é mais ou menos desse jeito, dois ladrões invadiram um cemitéri,o então lá dentro eles começaram a distribuir as carcaças roubadas entre eles, os dois foram falando:
-Duas pra mim, duas pra você, duas pra mim, duas pra você...
Eles então encheram dois sacos e jogaram do outro lado do muro, aonde vinha passando um bêbado e ele então escutou os ladrões falando “Duas pra mim, duas pra você...” e saio correndo deseperado, e no desespero dele, o bêbado deu de cara com o segurança, e o segurança perguntou:
-Porque você está correndo no cemitério ?
E o bêbado disse:
-Deus e o Diabo estão dividindo as Almas.
O segurança achou aquilo meio estranho e resolveu averiguar, e então o bêbado levou ele até o lugar aonde tinha escutado as vozes, chegando lá eles começaram a escutar os ladrões “Duas pra mim, duas pra você, duas pra mim duas pra você” ai eles pararam e disseram:
-Agora acabou vamos pegar aqueles dois lá fora.
O segurança que tinha caido na historia do bêbado pensa que eles dois são as ultimas almas que não foram distribuidas e em seguida começam a correr.
Eu e o moço estranho, começamos a rir, e eu então digo pouco tempo após a risada dele parar, olhando para o meu cigarro apagando lentamente na minha mão e então sugo novament o veneno até o final, solto uma fumaça grosa e preta, que consome toda o meu folego e prontamente pego outro na caixinha, que ainda possuia mais três.
-Essa piada é muito mais complexa do que parece, imagine que a sociedade é o bêbado, eu o segurança e os ladrões como uma oportunidade, eu me deixei ser enganado por essa sociedade que adora piadas Ready Made, fáceis de engolir, eu poderia ter insistido e adquirido um público melhor como você, iria demorar e seria dificíl, pórem eu sinto que eu conseguiria (Pegue meu isquero acendi meu cigaro deu uma longa dragada e continuei), mas, como o guarda eu me assustei, me deixei levar pelo papo do bêbado e perdi essa oportunidade. As vezes eu me pego pensando o que poderia acontecer se o segurança tivesse tido coragem e olhado quem realmente estava fazendo aquilo, quem sabe ele poderia aparecer no jornal local, ( Consumi mais uma vez o tabaco do cigarro e gesticulei com a minha mão como se uma grande notícia estivesse sendo apresentada) “Héroi dos tumulos guarda nossos entes queridos no pós morte”, quem sabe ele ganhace um aumento ou uma promoção, mas é tarde agora é muito tarde para ele mudar, por que não tem mais volta, ele perdeu a oportunidade e...agora ele vai sempre ficar do mesmo jeito que eu estou.
Abaixei a cabeça, tomei um gole da minha bebida enchi o copo novamente, dei uma longa dragada no meu cigarro e então esperei alguma reação do “Meu Maior Fã”, ele parecia refletir sobre o que eu havia acabado de dizer, durante todo o meu monologo, ele me olhou pacientemente, sem me atrapalhar ou tirar os olhos de mim, ele não parecia me julgar negativamente e até parecia disposta a ouvir essas novas ideias, então ele começou com a voz baixa:
-Pois é, pois é…Mas será que passou mesmo ?
-Como ?
A pergunta dele me parecia sem sentido, e um pouco curioso para saber a resposta, disse, confirmando a pergunta:
-Sim, passou como eu disse.
-Tá, mas vamos dizer (Ele se virou totalmente em minha direção pondo um dos cotovelos no balcão), que na noite seguinte acontecece o mesmo, o bêbado passa e escuta a conversa dos ladrões, e diz a mesma mentira para o segurança, no entanto e se dessa vez o guarda tomar coragem e ver o que está atrás do muro ?
Parecia uma pergunta maluca e que estrapolava um pouco os limites da própria lógica, entretanto parecia uma próposta interresante, então decidi refletir um pouco nela.
-Então ai daria tudo certo mas aonde quer chegar nisso ?
Ele se virou pediu uma cerveja que logo foi servida, deu um gole e encarando a mesa disse:
-Eu não acredito nessa baboseira de oportunidades únicas, que você tem que ficar como um estatua esperando que então os ventos da sorte soprem a favor de você.
Ele deu outro gole, e eu apaguei meu cigarro enquanto ouvia com atenção o que ele falava.
-Eu acho que a nós fazemos nossa própria sorte, nossas próprias oportunidades, não existe essa merda de chance única na vida, isso é coisa do bêbado, o negocio é você nunca desistir daquilo que te faz bem, daquilo que você gosta. Você não pode culpar o destino por ele não ter te dado outra chance e que agora isso não tem volta, isso você pós na sua própria cabeça, e é você que tem que tirar.
Ele deu outro longo gole e se calou, ficamos um tempo sem nos falar, nosso silencio só era interrompido pelas outras pessoas ali e o som que tocava um jazz suave muito belo, aquelas palavras eram duras, eu não queria aceitar mas eram a verdade, lágrimas começaram a descer pelo meu rosto bem devagar, o moço estranho me olho então, olhei de volta para ele, eu estava sério, entretanto meu desejo de dar um sorriso, era maior do que parecer um comediante sério, que nunca ri das próprias piadas, eu me sentia como um escravo liberto, ele sorriu de volta para mim vendo o efeito da mensagem dele, ele deu um último e grande gole terminando a cerveja dele, ele pagou o barmen e vestindo o casaco molhado ele disse.
-Acho melhor voltar pra casa, já está tarde.
-E acho que eu tambeḿ já vou indo.
Paguei o barmen pelo que bebi, e acompanhei o jovial homem até o carro dele, em silencio fomos andando, quando chegamos, apertamos nossas mãos e nos despedimos como velhos amigos, até que finalmente fiz a pergunta que eu deveria ter feito a muito tempo:
-Qual o seu nome mesmo ?
Ele sorriu, ele entendia que não perguntei sobre o nome dele, antes por maldade e respondeu com um meio sorriso.
-Daniel, espero que possamos nos ver de novo, Alejandro você tem boas piadas.
Ele deu um sorriso completo e entrou dentro do carro enquanto se despedia, ligou o motor e foi embora, minha mão desceu até os meus cigarros como por uma vontade sobre humana, e de forma automatica me preparei para acende-lo, ai eu me lembrei do que aquele cara estranho me disse, as palavras dele pareciam brotar em minha mente, derepente sem necessariamente um pensamento anterior para guia-las para a luz da minha noção da sua existencia, “Você não pode culpar o destino por ele não ter te dado outra chance e que agora isso não tem volta, isso você pós na sua própria cabeça, e é você que tem que tirar.” Joguei o cigaro no chão e pisei encima dele com vontade, peguei o resto da caxinha e joguei no lixo, enquanto andava na rua parcialmente iluminada, que agora parecia bem mais esperançosa do que antes, a chuva havia parado apesar do céu se manter escuro, parecia uma noite bem melhor do que antes, “acho que já esta na hora de tirar essa ideia de bêbado da minha cabeça.”



















