E ele disse vem ser minha, com os olhos de quem já não comia à mais de cem dias, eu sem jeito, mas com todo desejo disse que iria, com a mesma ânsia daqueles cem dias, à quem os cem, já não podia ficar sem nem mais um dia. Ironia.
Deitada, nua e esguia, preguiça batia com força na coluna, que pendia, cada vez mais ao formato que meu corpo preenchia naquele volume que compreendia meu colchão e a coberta, eis que me liga Roberta, “anda vadia, sacode essa poeira, porque hoje é dia”. Intimidade é realmente outro nível de troca de carícias. Apesar do desacato, fato abstrato que no tato dos braços é na verdade afago. Levantei, me troquei, porque algo me dizia que essa noite prometia. Intuição.
Mulher quando anima é uma grande confusão, é tanta energia que ninguém toma uma decisão. Roberta na malícia, já tinha tudo mapeado e ainda chamou mais duas amigas, a pequena Clara e gata da Alícia. Para deixar o clima ainda mais quente na saída: limão, sal e uma dose de tequila, seguindo a profecia. Na porta do evento a movimentação era grande, evento “cult”, clima elegante. Do lado dentro nem tão atraente, música boa e um público decadente, estilo festa do clubinho, cada um no seu circulozinho. Não consigo entender, vem para a pista para não se envolver, melhor fazer “reuniãozinha” no AP, ao invés de vir para a rua fazer fotinha de blogueirinha cliché. Segue o baile, que o quarteto fantástico está para o crime, apesar que essa festa está mais brochante que calcinha bege e cueca de time. O bom sempre chega pelo fim e até que enfim, ali no canto perto da janela, sujeito estiloso, vamos tentar ver se rola uma conversa. Rolou, pena que a festa acabou. Sorte.
Quarteto desarrumado, quarteto arrumado, cada uma para o seu lado. Festa ruim com final encantado, nem o mais otimista definiria esse resultado. Carinho daqui, carinho dali, já que ficarei sozinha essa noite, porque não chama-lo para vir. E ele veio, jeitão meio rude e com certo receio, talvez fosse uma forma de suavizar seu desejo. A sintonia encaixou, a vontade era tanta que não cabia esperar o elevador. Dois andares, duas escadas, duas feras e uma batalha: beijos, mordidas, suor sem pudor, linha tênue que divide ódio e amor. Clímax.
A procura pela chave era como uma espécie tortura: procura, procura, beija, procura, procura, beija e morde, procura, procura, beija e puxa, procura, procura, beija e deixa e beija, beija, beija e beija e chega, chave. Um corpo, um vulcão em erupção, lavas hormonais escorrendo pelo ar, parede e chão, uma explosão de excitação, clima quente como o Rio no verão. Parou, me olhou, despiu-se sorrindo, deitou na cama e disse completamente decidido: Vem ser minha. Nirvana.