[Flashback] Something about us | Vincent & Maureen | September 77
Havia perdido a noção do quanto havia bebido naquela noite. Tinha total consciência de que havia ultrapassado o limite, porque parecia que estava flutuando ao invés de estar andando, como se pisasse em nuvens. A música alta, as risadas e as conversas pareciam distantes demais e tudo era motivo para dar risadas, mas ainda assim, não abria mão de mais um gole. Não costumava apreciar o gosto de firewhiskey mas, já na metade da festa, sorvia uma dose atrás da outra como se fosse suco de abóbora.
Maureen Dowson estava embriagada antes mesmo das dez horas da noite.
Era primeiro de setembro, o primeiro dia de aula de seu último ano letivo na Escola de Magia e bruxaria de Hogwarts. Depois de matar as saudades da deliciosa comida dos elfos domésticos no banquete de boas vindas, os alunos de Hufflepuff haviam providenciado uma pequena comemoração no salão comunal. A proximidade das cozinhas permitira o contrabando de algo para petiscar e algum estudante teve a proeza de arranjar bebidas, algo pelo qual Maureen era imensamente grata. Eram raras as vezes em que se permitia chegar a aquele estado, quando o álcool parecia falar mais do que ela mesma, mas a nostalgia por estar iniciando seu último ano naquele lugar que se tornara seu lar por tanto tempo havia sido demais. Nunca mais embarcaria no Expresso Hogwarts com seus amigos novamente, ou assistiria a cerimônia de seleção antes do banquete. Nunca mais iria torcer fervorosamente por hufflepuff ao ponto de ficar rouca no dia seguinte, ou participaria das reuniões do Clube de Herbologia ou até conversaria sobre tudo e sobre nada enquanto andasse pelos corredores com Florence. Em alguns meses, deixaria aquelas paredes de pedra para trás e precisaria encarar a vida adulta. A ideia lhe pareceu extremamente assustadora e isso lhe pareceu motivo suficiente para beber.
“Obrigada.” Murmurou para um colega de casa depois de roubar sua dose de firewhiskey, sorvendo o líquido cor de âmbar em poucos segundos e devolvendo a ele o copo vazio e um sorriso simpático. Então tentou abrir espaço em meio aos estudantes que dançavam ao som da música animada, esforçando-se para não cambalear ou esbarrar em alguém enquanto esticava o pescoço na tentativa de procurar por Florence, que estava completamente sumida há aproximadamente meia hora. Próximo a saída do salão comunal, deduziu que a amiga provavelmente havia apagado em uma poltrona ou estava conversando com algum garoto, por isso decidiu que atender ao seu desejo por tortinhas de caramelo depois do horário de recolher era mais do que aceitável.
Os corredores estavam vazios e iluminados apenas pelas chamas encantadas que crepitavam em archotes de ferro. A garota de cabelos castanhos andava de forma decidida para o que parecia ser a cozinha, mas era bem provável que tivesse errado o caminho porque estava distraída demais assobiando a música de rock que estava tocando instantes antes de deixar o salão comunal. Chegou a fechar os olhos a cantarolar o refrão, fingindo tocar uma bateria imaginária enquanto avançava com passos vacilantes pelo corredor.
As vezes o destino funciona de uma forma engraçada porque, se tivesse deixado o salão comunal vinte minutos mais cedo, provavelmente teria esbarrado com um dos monitores de Ravenclaw que fazia uma ronda pelas masmorras e pelo térreo ao invés do rapaz de cabelos escuros que trajava o uniforme de slytherin e ostentava o distintivo de monitor preso ao peito que se aproximava naquele exato momento. Talvez o fato de que eram parentes e melhores amigos desde a infância não a safasse de um provável puxão de orelha, mas certamente evitaria que seu nome fosse apontado para algum professor, associado com bebedeiras e andanças pelo castelo fora do horário. No entanto, se pudesse escolher alguém para encontrar justo naquele estado, Vincent Rowle seria sua última escolha, especialmente depois da última conversa que tivera com Florence a respeito do primo e dos estranhos sentimentos que pareciam ter desabrochado nos últimos meses.
Firewhiskey e o responsável pela sensação de borboletas em seu estômago definitivamente não eram a melhor combinação do mundo.
"Vince?" Perguntou quando ele virou no corredor em que estava e foi iluminado pelas chamas do archote mais próximo. O sorriso foi involuntário, mas seus sentidos estavam anestesiados demais para que se lembrasse que estava bêbada na presença dele e que isso certamente não era uma boa ideia. "Wow, hang on. Are you seeing this? It's like the floor is moving." Exclamou, estendendo os braços para o alto e deixando-se estar no meio do corredor, pendendo para um lado e para o outro a medida em que seu equilíbrio ia embora junto com o que restava de sua dignidade, tudo ao som de entusiasmadas risadinhas. Ao menos Maureen provavelmente não se lembraria disso no dia seguinte.














