Unblessed - Chapter V “The black-hair woman”
A mulher se lançou contra Nekala, tapando sua boca.
“Pare de gritar!” - Disse, segurando a garota que se debatia. - “Por favor Nekala!”
Nekala mordeu a mão da mulher e se desvencilhou dos braços dela.
“Como você sabe o meu nome? Quem é você? Por que você apareceu de repente? Rebeca e eu estávamos aqui, como…?”
Essa vadia estava aqui?, K.Y. pensou.
“Acalme-se, Nekala”
“RESPONDA”
K.Y. balançou a cabeça e usou a janela como apoio para seu corpo.
Nekala estava assustada. Como ela não havia visto essa mulher? Como Rebeca não havia visto?
“Quem é você?”
“Ela está observando, Nekala, e saberá se eu fizer algo errado. Ela virá logo e, confie em mim, você quer que ela venha”
“Ela quem?”
“Você não está segura aqui. Precisa ir embora agora. Para fora do país, para outro continente, ela pode te alcançar pela Europa toda.”
“ME RESPONDA QUEM É VOCÊ!”
Nekala piscou com força, e quando abriu os olhos, ela havia sumido.
“Que merda…”
Ela se jogou na cama.
Estou louca?, ela pensou, obcecada pelos ideais da fotografia e acabo vendo coisas? Como… aquela foto minha e… ouvindo coisas também.
Não, não estou louca.
Com certeza havia algo errado ali, mas Nekala não queria saber o que era. Ela queria apenas continuar seu curso, não queria se envolver em assuntos que não poderia compreender.
Ela se levantou e foi até a foto do pôr-do-sol, agora no chão.
“Até que foi uma bela foto” - Disse, contemplando-a.
Nekala passou a mão em seu bolso e pegou a foto dos quadros de Ariel. Pegou a foto do pôr-do-sol e colocou as duas lado a lado, decidindo qual das fotos apresentaria.
No momento essa seria a única preocupação de Nekala.
***
“Não vou conseguir!” - F. entrou na sala de K., ofegando.
K. mal olhou para ele.
“Sua voz está diferente” - K. comentou, ignorando o comentário anterior de F.
Ele baixou o capuz, e K. percebeu surpresa que F. era uma mulher.
“Esqueceu-se de nossas regras, senhorita?” - K. perguntou e F. negou com a cabeça.
“Nunca tire o capuz” - F. disse, levantando novamente o seu.
“Como conseguiu fingir por tanto tempo?” - Riu. - “Embora sempre achei que fosse gay”
“Somos dois F., Majestade. Eu e meu irmão. Minha Rainha nunca notaria.”
“Então quem se comprometeu comigo?”
“Nós dois, Majestade.”
K. a ignorou.
“Majestade, não vou conseguir”
“Não vai conseguir o quê, exatamente?” - K. tentava controlar o impulso de derrubar aquela garota no chão e torcer seu pescoço.
“Ela é muito bonita, Majestade. E intimidadora também”
“Levarei isso como um elogio, obrigada”
“Por favor, Majestade”
K. levantou-se de supetão e lançou um olhar de ódio para F.
“Você acabou de violar uma regra, quer violar outra? Ou melhor, quer violar seu juramento? Você ao menos se lembra dele?” - Disparou, a língua e o olhar afiados como sempre.
F. se encolheu.
“Nunca a trairei, ó Minha Rainha, ou pagarei com a vida. Servir-te-hei por toda a eternidade…” - F. não completou.
“... Ou morrerei tentando” - K. completou o juramento como se fosse um mantra, uma canção que há muito tempo ouvira e decorara. . - “Ou você faz, ou você morre. De novo”
A risada de K. foi como um tapa na cara de F. Como ela se atrevia a rir dessa desgraça? Da morte de F.?
Ela se perguntava como conseguira se apaixonar por tal monstro, mas não negava o amor que sentia por K.
“Sinto muito, Minha Rainha”
“Não sente não, apenas sente medo de morrer” - Disse K. Por um instante, ela parecia vulnerável. Parecia chateada por F. não “sentir muito” realmente, parecia quase humana. Mas a impressão sumiu tão rápido quanto veio. - “Retire-se, tenho mais o que fazer. E nunca, jamais, pense em me trair.”
F. engoliu em seco e saiu.
Três minutos depois, K. se levantou.
Ela caminhou pelos corredores da Wemgan, percorrendo o caminho perfeitamente familiar das masmorras, onde sua irmãzinha se encontrava.
Levava consigo um copo pequeno de café, apenas para agrada-la. Mas fantasmas não bebem café.
“Querida Kath” - Disse K. num afeto fingido quando adentrou a cela de K.Y.
K.Y. não respondeu. Nem se deu ao trabalho de olhar para K. Mordeu os lábios de raiva. Como ela podia fazer essas coisas com a própria irmã, sem nem sentir remorso?
“Oh, querida” - K. se ajoelhou, como se tivesse lido os pensamentos de K.Y. - “Deus sabe o quanto me dói fazer isso com você”
“Não fale em algo que você não acredita! Você só acredita em si mesma” - K.Y. rebateu. K. não se abalou.
“Se você fosse mais obediente… e inteligente, você não estaria aqui. Eu não precisaria fazer tudo isso”
“Mas você faz só por diversão”
“Tem razão. Não me dói nada fazer isso com você, nem um milímetro do meu ser se arrepende” - Ela se levantou e pegou no queixo de K.Y. com força, as unhas fazendo pequenos cortes na bochecha dela. - “Não aprendeu, Kathryn, após todos esses séculos, que não se deve me desobedecer?”
“Vou salvá-la, Katherine. Vou salvá-la de você” - Kathryn disse entredentes.
Katherine soltou o rosto da irmã e se virou.
“Morra tentando”
Houve um barulho. Pareciam correntes tentando se soltar da parede.
“Ela é especial, Katherine!” - Kathryn gritou.
“Como todas as outras 19 eram, querida. E elas acabaram mortas, graças a sua intervenção.”
“Dessa vez é diferente. Você pode sentir daqui o poder que irradia dela. A aura dela é muito poderosa, você não vai toma-la facilmente”
“Que seja” - Katherine deixou a cela de Kathryn.
Ela estava cansada. Cansada da intervenção da irmã em todos os seus planos, e o único arrependimento que tinha era ter incluído Kathryn em seus planos. Ela estragaria tudo mais uma vez e Katherine iria ter que esperar mais uma década e meia para sua próxima Herdeira vir ao mundo, e mais 18 anos para tomá-la. Bom, esse era o tempo previsto, mas claro que algumas vieram mais cedo, se não ela não teria alcançado 19 garotas.
Dessa vez, ela iria conseguir. Iria usufruir de todos os seus recursos, mas Nekala Hawthorn seria dela.
Kathryn estava perdendo as esperanças.
Como ela poderia salvar Nekala, se todos os seus esforços sempre acabavam com Kathryn machucada em sua cela?
O que ela poderia fazer para evitar o destino terrível da garota?
Ou será que deveria desistir?
Não. Não desistiria.
Mas Katherine não tiraria mais Kathryn da cela. Ela tinha que dar um jeito de sair de lá e proteger a garota.
“Você é a Nekala, né?” - A garota que estava com Travis no refeitório parou na frente de Nekala.
Já havia anoitecido, deveria ser umas 8:30 da noite, e Nekala estava no pátio, sentada num banquinho que permitia uma vista incrível dos campos atrás da Wemgan. Mas ela não estava se concentrando na vista, ela se concentrava na foto do pôr-do-sol e o que aconteceu em seu quarto, com a garota do quadro.
“Sim, eu sou” - Nekala respondeu simplesmente. Não se recordava do nome da garota.
“Eu não sei o que aconteceu entre você e Travis, mas que fique bem claro…”
“Não aconteceu nada. Não quero Travis”
“Quer sim. Todas querem Travis.” - Lucy respondeu. - “Olha só para você. Tão sem sal. Tão feia e desproporcional. Olhe esses seios, essas pernas gordas…”
“Isso se chama excesso de academia e ter corpo, querida. Não ser um palito.” - Disse, virando-se para olhar para Lucy. - “Tenho mais coisas a me preocupar do que com Travis, nem conheço ele. Você pode me dar licença, por favor?”
“Você vai me…” - Lucy não completou a frase. Seu rosto se abriu em um sorriso, e Nekala percebeu que ela olhava para sua direita, de onde vinha alguém.
“Neka, Lucy, algum problema?” - Nekala ouviu a voz de Travis.
Era rouca, mas não era muito grave. Era linda a voz de Travis, e lhe causou arrepios.
“Estamos com algum problema, Lucy?” - Perguntou Nekala, mas foi ignorada.
“Travis, docinho, eu estava apenas…”
“Me insultando?” - Nekala completou e ganhou um olhar feio de Lucy como resposta.
“... Conversando com Nekala”
“OK, você pode me dar licença, Lucy? Tenho algo a falar com Nekala”
Nekala quase sorriu ao ver o olhar de raiva e constrangimento que atravessou o rosto dela.
Lucy se aproximou de Travis e deu um beijo longo em sua boca, segurando seus punhos com força enquanto ele tentava se desviar.
Quando ela foi embora, Nekala revirou os olhos.
“Nenhuma mulher de respeito beija um homem a força” - Ela suspirou, voltando sua atenção para a foto.
“Mas homens beijam mulheres a força, eles podem” - Travis riu.
“Só no seu mundo” - Nekala respondeu. - “O que você queria falar comigo?”
“Nada, mas eu vi que a Lucy estava te incomodando” - Ele sorriu e Nekala revirou os olhos. - “O que foi, Neka?”
“Não preciso de um protetor”
“Não fiz isso pra te proteger” - Respondeu, olhando para os campos. - “Mas sei que Lucy pode muito bem incomodar alguém quando quer”
“Certo, desculpe” - Ela suspirou, sem dar muita atenção. Ao notar o olhar de Travis sobre ela, percebeu que não tinha como escapar da conversa, e não queria ser grossa e mandá-lo embora como fez com Lucy, ela simplesmente… não podia fazer isso. Então, guardou a foto no bolso e cruzou as pernas, inclinando-se para frente. - “OK. Qual é a da Lucy com você?”
Ele deu um meio sorriso, sentando-se ao lado dela.
“Lucy e eu namorávamos quando saímos do colégio e viemos para cá. Não queríamos nos separar. Com o tempo, percebi como Lucy era: todas as garotas que se aproximavam de mim eram sem sal, falsas, ridículas, etc. E ela sempre ia incomodar as garotas. Ela já incomodou a Rebeca, mas a Rebeca revidou.” - Ele riu. - “Ela começou a me fazer sentir sufocado, então eu terminava mesmo gostando dela, e ela nunca aceitou”
“Mas com o tempo o sentimento morre com tanto sufoco…” - Nekala disse, olhando para ele.
“Sim. E então terminei com ela definitivamente ontem, e ela acha que é sua culpa.” - Travis terminou, mas viu Nekala um pouco distante. - “Neka, você tá preocupada com alguma coisa. O que foi?”
Nekala olhou para ele.
Se contasse, provavelmente seria chamada de louca, ele riria da cara dela e a deixaria ali, e embora ela quisesse ficar sozinha, ao mesmo tempo não queria.
Então, resolveu mentir.
“Com a aula prática de Fotografia” - Falou, tirando a foto do pôr-do-sol do bolso. - “Não sei se está boa o suficiente”
Travis tirou a foto da mão dela delicadamente e observou-a, prestando atenção aos mínimos detalhes.
“Nekala, seu talento é incrível” - Ele disse. - “Não entendo de fotografia, mas sei que você capturou um lindo momento”
“Que gay” - Ela tirou a foto dele e a guardou.
“Preconceituosa” - Travis passou a mão no cabelo e mandou um beijinho para ela.
Nekala revirou os olhos e olhou para a frente, dando de cara com Rebeca.
Rebeca lançou um sorrisinho maldoso para Nekala e virou-se para Travis, tomando ele pela mão.
“Desculpe, flor, mas tenho um assunto urgente para resolver com Travis” - Ela disse e arrastou Travis consigo.
Nekala se levantou e guardou a foto no bolso. Resolveu que iria para o dormitório descansar.
Mas e se a mulher estiver lá?, perguntou-se.
Não, é improvável. Com certeza eu que imaginei ela.
De qualquer forma, Nekala tinha ficado curiosa com o que ela havia dito. “Ela virá atrás de você, e você não quer que ela venha.”, essa frase ficou martelando em sua cabeça. Ela quem? Que perigo que Nekala estava correndo?
Ela pensou em procura-la, chamá-la várias vezes em algum lugar vazio ou em seu próprio dormitório, mas logo desistiu dessa ideia. Não iria se envolver nisso, mesmo que a garota fosse real - e Nekala tinha certeza que não era. Se fosse, seria apenas um… fantasma? Uma assombração? Como seria possível a garota do quadro “A Família Real” estivesse em seu dormitório?
Se bem que, quando Nekala passou em frente àquele quadro e examinou a garota que era exatamente parecida com ela, percebeu que haviam diferenças entre a mulher que estava em seu dormitório e a garota do quadro. O olhar da tal garota era mais maldoso, e a expressão era esnobe. A mulher parecia ser simples, bondosa e gentil. Quem seria ela? O que seria ela?
Nekala não sabia e, embora sua curiosidade fosse grande, tinha certeza de que se procurasse saber, haveriam consequências, e ela não queria ter de lidar com isso.
Ela estava parada na lanchonete, compra do um lanche quando olhou para o lado e viu, ao longe, Fabian a observando.
Nekala levantou para acenar, mas a reação dele deixou Nekala surpresa.
O rosto de Fabian ficou branco, o medo cruzou sua face e ele se virou e correu.
Nekala não pensou no que fazer. Ela pegou seu lanche e foi atrás dele.
Ela conseguia ver a camiseta azul clara dele se misturando num mar de universitários góticos, geeks, CDF’s, líderes de torcida e jogadores de futebol. Enquanto corria, mordia seu lanche.
Posso até passar mal por correr comendo, mas de fome eu não morro., ela pensou consigo e riu. Foi o suficiente para perder Fabian de vista.
“Ele foi em direção ao prédio da administração” - Uma voz sussurrou em seu ouvido, e Nekala viu pelo canto do olho a mulher que estava em seu dormitório.
Nekala se virou, mas ela havia sumido.
“Apresse-se” - A voz disse novamente, e ela correu em direção ao prédio da administração.
Nekala queria saber o porquê da reação de Fabian. Alguém que ele tinha medo estava atrás dela? Ou ele estava a observando e não queria que ela soubesse?
Fosse qual fosse o motivo, Nekala queria saber. Não havia motivos para Fabian ter fugido dela, visto que Nekala havia tentado ser simpática com ele na noite anterior. Mas ele estava afastado do grupo… entretanto, Travis o apresentou, então ele deveria fazer parte.
Ele estava tão distante…Estava drogado?, pensou. Como Ariel?
“Fabian” - Nekala disse quando o alcançou. - “Por que está fugindo?”
Ele se virou, ofegando.
“Eu…”









