Afinal, é possÃvel existir uma performance sonora?
Quando pensamos que uma música pode ser um gatilho para as coisas mais óbvias como clipes musicais, performances ao vivo ou trilha sonoras, como também para as menos óbvias como filmes, fanfictions e até mesmo em obras de arte é quase impossÃvel não pensar que as músicas em si - escutas e não vistas - não apresentem uma parcela de "culpa" na coisa da perfomatização.
Pegarei como exemplo a música "Kay Fora" da pernambucana Catarina Dee Jah, primeira faixa do álbum Mulher Cromaqui.
Kay Fora - Catarina
A música tem uma pegada bem tecno brega experimental e se utiliza de vários recursos e ferramentas para dar efeitos extraordinários na composição ousada da artista, assumidamente, feminista e experimentalista.
O mais interessante de "Kay Fora" talvez seja a quantidade enorme de elementos em apenas uma música. Essa não é um novidade dentro do cenário fonográfico, mas Catarina consegue fazer isso de forma a transformar o produto sonoro em tão performático como ela mesma. Combinando um sintetizador, para criar o efeito tecno, e o auto tune para modificar a própria voz e fazer um backing vocal sarcástico - que lembra um pouco a representação do auter ego representado por diabinhos em desenhos ou filmes - a cantora ambienta o clima do brega moderno da mulher libertária ("Você foi e me deixou/Magoou meu coração/ E agora quer voltar, mas eu não quero mais não") muito diferente dos bregas clássicos, onde era cantada a "dor de cabeça do corno". A música constrói uma clareza coreográfica própria para músicas com vÃdeo clipes, então, por que não investir no óbvio?
Porque a música fala - ou canta - e performatiza por si só. Todos os elementos necessários da performance (impacto, passagem de uma mensagem, dinamismo) estão caracterizados em 3:16 e estão contidos ali. Buscando a explicação na ideia de que não necessariamente toda performance precisa ser realizada ao vivo, mas basta exibir um corpo performático, não seria possÃvel pensar que a construção musical possibilita a performance de uma canção? A junção de sua construção melódica e sua letra parecem ser o necessário para a montagem de uma ideia de performatividade, a exposição de um lado artÃstico.
Música é uma expressão artÃstica e a performance está contida dentro da manifestação artÃstica. Não vejo porque ambas não possam seguir pelo mesmo caminho, mesmo sem uma execução ao vivo, propriamente dita.
*post por: Beatriz Medeiros ( torestheads )











