Mirlos (Según el lugar) • Molothrus bonariensis • Santiago • Chile
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Mirlos (Según el lugar) • Molothrus bonariensis • Santiago • Chile
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Zanate macho. Chapultepec, Ciudad de México Aleatoria
O Ciclo Quebrado
O vento de São Miguel não trouxe apenas folhas secas naquele ano; trouxe o presságio. Soprava com a frieza dos ossos expostos, uivando através das frestas do velho lagar, uma construção de basalto negro que parecia mais uma ferida aberta na paisagem do que um refúgio. O edifício, maciço e silencioso, tinha emergido da própria terra húmida e escura da região, as suas pedras suando um frio perpétuo, indiferente ao passar das estações.
Dentro daquela cripta de granito, onde o musgo verde-negro se agarrava às paredes como uma pele doente, Zé passava as suas tardes. Não remendava redes, pois o mar era agora uma memória distante e hostil, uma fronteira cinzenta que engolia os que se atreviam a desafiá-la. Ele remendava fragmentos de uma existência desfeita, sob a luz mortiça que entrava por uma janela estreita, mais uma seteira concebida para a defesa do que uma abertura para o mundo. A conversa que ecoava naquele espaço de eco sombrio não era de saudade, mas de um terror contido que a comunidade local partilhava em murmúrios, como uma doença vergonhosa: a ausência. Faltavam os tordos.
Maria, a sua companheira de uma vida marcada pela resignação e pelo trabalho árduo, tinha os olhos postos no rectângulo de céu cor de chumbo que a janela oferecia. A sua face, uma máscara de rugas profundas talhadas pelo tempo e pela preocupação, estava virada para o alto, como se esperasse uma revelação que nunca chegava, apenas a confirmação do inevitável. "Lá vão elas, Zé," a sua voz um murmúrio rouco que mal quebrava o silêncio opressivo do lagar. "As andorinhas. Nem na África as encontram, dizem os antigos. Vão para as terras que hão de vir... ou talvez para onde a escuridão dorme e espera."
O Zé, curvado sobre a bigorna fria, uma peça de metal maciço onde outrora se temperavam as lâminas e agora jaziam apenas ferramentas enferrujadas e quebradas, levantou a cabeça. O seu sorriso não era enrugado; era uma fissura na sua expressão pétrea, um tique nervoso de quem lida com o inexplicável, com os limiares do visível e do invisível. Ele recordava-se das palavras antigas, não como uma lengalenga reconfortante, mas como uma profecia sombria, um diálogo espectral entre os vivos e os que já não o eram, um guião de um drama que se repetia com cada ciclo migratório.
"Se se cruzassem no caminho," começou ele, ajeitando uns óculos de aros de metal que amplificavam o brilho febril e ansioso dos seus olhos, "os tordos perguntavam-lhes, num idioma que só os desesperados entendem, aquele que se fala nos momentos finais: 'Donde vindes, loucos? Que fostes muitos e vindes poucos?'" A pausa que se seguiu não era dramática, calculada para efeito; era um abismo, um momento de silêncio que pesava toneladas. "Por causa da caça, Maria. Mas não a caça dos homens. A caça de outra coisa qualquer que espreita nos limiares do invisível, que se alimenta do que fica para trás."
Maria estremeceu, não com uma risada, a memória de tal som parecia pertencer a outra vida, mas com um espasmo, um arrepio que lhe percorreu a espinha como uma aranha gelada. O chilrear das aves era uma memória longínqua, substituída pelo crocitar distante e mórbido dos corvos que se juntavam nas árvores desfolhadas da encosta, observando a aldeia com uma paciência sinistra. "E as andorinhas, Zé? Que respondiam as danadas, as ligeiras, as que escapavam?"
"Elas? Orgulhosas na sua ignorância, na sua pressa de fugir do que a terra se torna no inverno," respondeu o Zé, o seu tom de voz a assumir uma modulação gutural, como se a própria terra, a terra morta e faminta, falasse através dele. "'Donde vindes, utas? Que fostes poucas e vindes muitas?'" Ele não piscou o olho; fixou o olhar no vazio que a janela oferecia, naquele pedaço de céu onde as andorinhas já não dançavam. "Porque cá em Portugal, minha amiga, no nosso verão, criaram os filhos. Multiplicaram-se... alimentaram a terra com a sua presença e partiram, antes que 'isso' acordasse, antes que a fome ancestral se fizesse sentir."
Aquelas palavras não eram apenas uma lengalenga; eram a essência do ciclo da vida e da morte que viam passar, um ciclo que se tinha tornado perigosamente desequilibrado nos últimos anos. O Zé olhou para a Maria, cujos cabelos brancos tinham o tom da geada no cemitério da aldeia, um cemitério que crescia a cada estação. Eles próprios já não eram os muitos que tinham sido na juventude, cheios de vida e de esperança, mas a sua família, os "muitos" que tinham criado, eram agora apenas nomes gravados na pedra fria da igreja, vítimas da maleita, da febre que vinha com as marés negras, do silêncio que se instalava após a partida das andorinhas. Eram a sua resposta silenciosa ao inverno que se aproximava, um inverno que parecia eterno, um reino de escuridão e ausência.
O dia seguinte não trouxe o primeiro tordo, o anunciador do regresso, o portador de esperança. Trouxe a névoa. Uma névoa espessa, leitosa, que se arrastava pelo chão como uma mortalha a deslizar sobre campas, escondendo os caminhos, os campos e as poucas almas que ousavam sair dos seus esconderijos. Era a névoa que vinha sempre antes do inominável, o véu que separava o mundo racional do mundo dos pesadelos.
Zé e Maria não sorriram um para o outro. Olharam-se com o entendimento silencioso de dois prisioneiros à espera da execução final, a aceitação gravada em cada linha do seu rosto. O ciclo estava quebrado, irremediavelmente. As aves já não ensinavam a lição da vida e da morte; ensinavam a lição do medo e da ausência perpétua. O mistério não estava em para onde iam, mas no que vinha preencher o vazio deixado para trás, no que espreitava do outro lado da névoa. A caça começava agora.
A noite caiu cedo, um manto de veludo negro que engoliu a pouca luz do dia antes do tempo, como uma fera faminta que devora a sua presa. O lagar, com a sua estrutura de fortaleza, as suas paredes de dois palmos de espessura, era o único refúgio contra o frio cortante que se infiltrava em cada junta da argamassa, um frio que não vinha do ar, mas da própria terra, das profundezas do solo que parecia exalar um hálito gelado e pútrido. Zé acendeu a lareira, a única fonte de calor e luz, e o brilho alaranjado projectou sombras grotescas que dançavam nas paredes, imitando as figuras de uma dança macabra, os espectros das almas perdidas que a terra reclamava.
Maria enrolou-se num xaile de lã grossa, a sua respiração formando pequenas nuvens de vapor no ar gelado, como se cada expiração levasse consigo um pedaço da sua vida, da sua esperança. "A névoa não levanta, Zé. É diferente desta vez. Sente-se na pele, nos ossos. Não é a névoa do mar."
"Sim," concordou ele, os seus olhos fixos nas chamas trémulas, como se pudessem ler o futuro no fogo, um futuro escrito em brasas e cinzas. "É a névoa que eles trazem. O véu que usam para se moverem entre os mundos, para caçar sem serem vistos."
"Eles?" A palavra saiu dos lábios de Maria como um suspiro de terror, uma confirmação de medos inomináveis que habitavam a sua mente desde criança, contos da carochinha que se tornavam realidade.
Zé hesitou. A superstição era a linguagem daquela terra amaldiçoada, passada de geração em geração, misturada com o catolicismo severo e a herança pagã que nunca tinha sido verdadeiramente erradicada. "Os que ficam quando os outros partem. As utas. Aquilo que se alimenta da ausência, do vazio deixado para trás pelas almas que migram, sejam elas aves ou gente da nossa gente."
A história das aves era uma metáfora, eles sabiam, um conto para crianças que escondia uma verdade aterradora. A migração não era apenas um fenómeno natural; era a fronteira entre o mundo dos vivos e o mundo que existia nas sombras, o purgatório da terra que exigia o seu tributo. As andorinhas, com a sua rapidez e leveza, escapavam, voavam para lá do véu, para a luz. Os tordos, mais pesados, mais ligados à terra, regressavam, traziam a vida de volta. Mas este ano, o regresso atrasara-se, e o vazio permanecia, um convite aberto à escuridão.
Um bater surdo e rítmico começou na porta de carvalho maciço. Bum-bum. Bum-bum. Bum-bum. O som era lento, medido, como um coração que bate ao ritmo da morte iminente.
Maria sufocou um grito, a mão na boca, os olhos arregalados de pavor. "Quem é, Zé? A esta hora? Ninguém, em sã consciência, sai de casa com esta névoa, com este frio que mata."
Zé pegou na espingarda de caça, uma relíquia antiga que não disparava há décadas, mais um símbolo de protecção do que uma arma eficaz contra o que quer que estivesse do outro lado. "Não sei," a sua voz tensa, rouca de medo. "Mas não é humano."
O bater parou tão subitamente como começou, deixando um silêncio absoluto no seu rasto, um silêncio tão profundo que se podia ouvir o tilintar dos nervos do casal, o sangue a correr nas suas veias como um rio caudaloso e apressado. Então, uma voz. Não uma voz humana, com a sua inflexão e calor, mas um som que lembrava o roçar de asas secas, de folhas mortas arrastadas pelo vento num cemitério abandonado.
"Donde vindes, loucos. Que fostes muitos e vindes poucos?"
A frase gélida, destituída de qualquer emoção, era a citação dos tordos, mas proferida com a cadência das criaturas que habitam o limiar, aquelas que não conhecem a vida, apenas a existência.
Maria levantou-se, o seu rosto pálido como a névoa lá fora, os lábios a tremer. "Zé... eles sabem a história. Eles usam as palavras. Não é o Manuel, nem o Joaquim. Não é gente nossa."
Zé recuou, a espingarda a tremer-lhe nas mãos, a inutilidade da arma evidente perante o invisível. "Fica para trás, Maria. Fica atrás de mim."
A maçaneta de ferro forjado na porta torceu-se lentamente, com uma força que nenhuma mão humana possuía. A porta rangeu, abrindo-se para revelar não uma pessoa, mas uma massa indistinta de névoa e escuridão, com duas luzes pálidas e frias a brilhar no centro, como os olhos de uma criatura abissal que tivesse emergido das profundezas do oceano ou do inferno.
A criatura avançou para dentro do lagar, e com ela entrou o frio do exterior, um frio absoluto e antinatural, extinguindo as chamas da lareira num silvo de vapor e fumo, mergulhando o espaço na escuridão total, apenas quebrada pelos olhos fantasmagóricos da coisa que se movia em direcção a eles.
"Fostes muitos e vindes poucos?" sibilou a voz de asa seca, agora mais próxima, mais íntima, uma presença opressiva que lhes roubava o ar dos pulmões.
Zé sentiu a presença da coisa, um peso opressivo que lhe esmagava o peito, paralisando-o de medo. A história das aves não era um conto, era um aviso, uma parábola sobre o perigo do vazio, da ausência. O vazio deixado pela ausência das andorinhas e o atraso dos tordos tinha sido preenchido por algo antigo e faminto, algo que caçava não com redes ou armas de fogo, mas com o medo e a solidão, com a certeza da morte. A terra tinha fome, e a migração tinha falhado em saciá-la.
O que se seguiu foi uma dança de horrores no escuro. Gritos que foram rapidamente abafados, sons de luta desigual, o cheiro a mofo e a terra molhada a intensificar-se, misturado com um odor metálico e doentio que se agarrava à garganta e aos sentidos.
Quando a luz do dia seguinte finalmente conseguiu penetrar a névoa que começava a dissipar-se, o lagar estava silencioso. A porta estava aberta, balançando suavemente ao vento frio. A lareira estava apagada, e não havia sinais de Zé ou Maria.
No centro da sala, onde a bigorna de ferro forjado se erguia como um monumento à labuta humana, jaziam duas penas. Não eram penas comuns, caídas ao acaso. Eram as únicas pistas, os únicos vestígios da passagem da entidade, ou a sua despedida final. Uma era escura e húmida, como a terra do cemitério recém-cavado, pesada com a melancolia e o negrume da noite. A outra, por contraste, era clara e frágil, como um osso polido pelo tempo e pela dor, um testemunho silencioso da fragilidade da vida humana. Eram as duas faces da moeda, a dualidade da existência e da ausência.
Lá dentro, o frio da noite anterior permanecia, impregnando cada pedra, cada sombra. A lareira, a fonte de vida e calor, era agora uma boca aberta e vazia, cheia de cinzas frias e a promessa de um inverno sem fim. Não havia sinais de Zé ou Maria; nem um farrapo de roupa, nem uma mancha de sangue, apenas a desordem subtil de uma luta que não deixou marcas visíveis, mas uma ausência palpável.
A história das aves, aquela lengalenga antiga sobre tordos e andorinhas, sobre idas e vindas, sobre vida e morte, tinha-se tornado a realidade crua e gótica de Zé e Maria. Eles eram agora parte integrante do folclore sombrio da terra, mais duas almas perdidas no ciclo infindável e aterrador da migração e do esquecimento, um ciclo que a terra exigia que fosse completado, de uma forma ou de outra.
Lá fora, no céu que lentamente se libertava do jugo da neblina, nem um tordo regressava do sul, nem uma andorinha cortava o ar com a sua velocidade. Apenas o silêncio e a névoa, que prometiam regressar com a próxima migração, quando a terra estivesse novamente vazia, à espera de ser preenchida pela ausência, pelo inominável que espreitava nos limiares, que se alimentava do esquecimento e do medo. A caça tinha terminado naquela noite, mas a fome da terra permanecia insaciável, à espera da próxima estação, da próxima ausência, do próximo tributo de almas. O ciclo tinha sido quebrado, mas a escuridão encontrara uma nova forma de o perpetuar, e a história de Zé e Maria era agora o novo aviso sussurrado ao vento, uma lenda sombria sobre o perigo de ficar para trás quando a chamada da migração se fazia ouvir.
Tordos… Me vienen a visitar #aves #avesdeluruguay #tordos #labrujulahostel #lapaloma #uruguay (en La Brujula Hostel) https://www.instagram.com/p/CVBdeKjJGhE/?utm_medium=tumblr

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Plaza Sarmiento con fétido olor. La Culpa es de los tordos El olor es fuerte y seguramente será peor con la llegada del calor.