“ ✠ ┆ — lisander encarou os olhos de mania, aquele monstro que trazia mal presságio, e muito relutou contra a sua essência, chegando a puxar as espadas duplas que quando em sua forma passiva, eram apenas correntes onde os pingentes se enroscavam para fechar o colar, mas antes que pudesse desferir qualquer ataque contra a personificação, se sentiu mal, caindo num abismo gelado e escuro, incapaz, impotente... não houve batalha, sequer chegou a dar um passo do local onde estava antes de cair de vez nas profundezas de sua mente, um lugar obscuro que ele raramente visitava, as lembranças lá guardadas eram deveras doloridas para que ele pudesse pensar um dia mexer nelas.
“ ✠ ┆ — estava de volta a nova roma, uma nova roma vazia e silenciosa, não havia lares ou crianças correndo pela avenida principal. havia apenas ele e um acampamento fantasmagórico. sorrateiro, com sua lança na mão, lisander caminhava em busca do perigo. sabia que havia perigo, se lembrava de mania, do rosto amedrontador dela, e ela estava lá, em algum lugar, ele só não sabia onde. podia sentir a sua presença. era quase como se soubesse que aquilo que vivenciava era fruto de alguma artimanha dela. era como se enxergasse na estrutura daquele... sonho? não parecia como os sonhos comuns, que não tinha nenhuma consciência deles. lembrava-se vagamente de estar na fogueira, compartilhando bons momentos com seus amigos e de repente... aquela presença demoníaca invadiu o espaço seguro que era o acampamento de semideuses. tinha que se livrar daquela ilusão, ajudar aos outros...
“ ✠ ┆ — mas se um dia lisander achou que aquilo tudo era uma ilusão, se esqueceu no momento em que ouviu a voz dela. “lisander! meu amor... estou aqui!” onde? ele olhou para os lados em busca da voz de hérmia, sua mãe. a semideusa filha de belona que lhe dedicou sua vida. não tinha nenhuma obrigação para com ele, podia tê-lo dado aos seus superiores e nada mais, porém tomou para si a responsabilidade de cuidar do bebê encontrado na porta do acampamento júpiter, mesmo sem saber naquele momento se era ele um semideus ou não. e o fez bem. e era culpa dele se ela não estava ali. “estou aqui, bobinho, bem atrás de você!” a voz dela soou perto. calorosa. ele sentia tanto a sua falta. ele se virou para ela, um sorriso largo de saudade estampado em seu rosto. a felicidade tomando forma em suas expressões. felicidade essa que durou tão pouco quanto a certeza de que estava sonhando.
“ ✠ ┆ — ele não sabia como tinha acontecido, mas quando se virou, sua lança atravessou a barriga de hérmia. porque estava com sua lança? havia prometido nunca mais usá-la. havia destruído todas as armas envenenadas que um dia construiu. finalmente tinha uma segunda chance de tê-la viva e a matou novamente. “não! por favor! não!” ele suplicou, largando a lança para tomá-la em seus braços. assistia o sangue escorrer pelos lábios da mulher, o desespero e a dor em seus olhos. ela estava morrendo e não havia nada que ele pudesse fazer para salvá-la. o veneno era mortal. ele mesmo o havia criado. “por favor! não! me desculpa! eu não quis... mãe... por favor...” as lágrimas quentes molhavam seu rosto, as mãos de hérmia se agarravam em seu braço como quem queria agarrar a própria vida e impedi-la de deixar o seu corpo. antes de seu último suspiro, ela encarou seus olhos “é tudo culpa sua!” ouviu a voz da mulher pela última vez antes que pudesse sentir seu corpo gélido desfalecer em seus braços. a culpa é sua... a culpa é sua... a voz continuou a dizer, somada as vozes dos companheiros de acampamento que só agora chegava, soando em sua cabeça enquanto ele chorava sobre o corpo morto de sua mãe.
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Podia mentir e fingir que não ligava o quanto quisesse, mas a verdade era que Jet nunca se sentiu feliz e confortável estudando naquele colégio.
Nunca entendeu o porquê, mas todos os seus colegas sempre o olhavam com certo medo, principalmente aqueles que tinham coragem de encarar os olhos do filho de Nyx. E não obviamente não ia ser de outra maneira quando voltou para lá em seus pesadelos.
O dia ensolarado, típico tailandês, obrigava Jet a usar o shorts azul do uniforme, e a camisa de manga curta que ele tanto odiava também. Kritsanapong tinha a mochila pesando em seus ombros e conhecia aquele lugar como a palma de sua mão, entretanto por algum motivo, as coisas pareciam diferentes do que se lembrava. O sol em sua pele parecia queimar um pouco mais do que faria normalmente, os corredores pareciam muitas vezes mais extensos, Jet iria sentir isso na pele quando finalmente adentrasse o colégio.
Os alunos sorridentes, conversando animadamente entre si ficaram em silêncio absoluto assim que o rapaz colocou o primeiro pé dentro da escola. Os vários pares de olhos em si o deixava desconfortável, mas ele se obrigou a dar alguns passos a frente. O que estava fazendo? Procurando a sala de aula? Nem o própria sabia.
Ouviu um fungar de choro ao seu lado direito e se virou para entender o que acontecia, vendo uma garota chorar intensamente, o que só aumentou quando Jet colocou os olhos nela. A menina era abraçada por um rapaz muito mais alto e forte do que Jet era, mas ele parecia tremer de medo de alguém tão... Inofensivo quanto era Kritsanapong.
E continuou assim; Cada pessoa tinha uma reação diferente diante do rapaz de olhos negros, mas todas tinham algo em comum: carregavam consigo pavor. Alguns gritavam, outros pareciam prontos para atacar, outros choravam, se escondiam, ficavam paralisados. E Jet não conseguia entender o motivo de tudo isso, e a cada passo se sentia pior. Sentia-se mal, culpado, perdido.
No final do corredor, estava seu melhor amigo. O único amigo que teve durante os anos de escola, para ser sincero. Por uma fração de segundo, sentiu alívio ao vê-lo, porque sabia que ele não tinha medo de si, sabia que ele o amava e o apoiava.
Mero engano.
Os olhos do amigo se arregalaram como se estivesse vendo um fantasma, e ele gritava “Não chega perto de mim” desesperadamente, dando passos para trás quando Jet tentava se aproximar. Ele parecia ignorar todo o clamor de Jet para que o reconhecesse, para que soubesse que nunca lhe causaria nenhum mal. Era inútil, ninguém lhe dava ouvidos.
Quando virou-se para trás todos os alunos por quem passou seguravam armas pontiagudas viradas para si. Essas iam desde tesouras, vidros quebrados e chegaram até mesmo em espadas e lanças. Todos pareciam bravos, mas ainda assim, assustados. Porém, Jet estava muito mais assustado do que eles agora.
Os alunos investiam em sua direção e Jet não teve nenhuma outra escolha a não ser correr. A dificuldade para isso era tão grande quanto como de alguém que tenta correr quando está na água, mas o fez, achando abrigo em uma sala vazia, que por algum motivo não tinha nenhuma luz. Kritsanapong nunca foi alguém que tinha medo do escuro, mas agora estava começando a se sentir enjoado.
Até que finalmente teve uma fonte de luz, mas não a que ele queria. O chão começou a pegar fogo, depois as carteiras, as paredes, e a chama vinha em sua direção. Ele tentou escapar, mas as portas não existiam mais, tampouco janelas. Era só ele naquele cubículo e o fogo que consumia cada pedacinho, não demorando para chegar nele.
E aquilo doía como o inferno. Sentia o calor insuportável, sentia as queimaduras em sua pele. Gritava de dor, tentava se livrar, fugir, fazer qualquer coisa para aquilo parar, mas não conseguia. Olhava para o próprio corpo queimando, e dor era insuportável demais até para descrever. A fumaça entrava em seus pulmões, fazendo-o sufocar e ter dificuldade para respirar. Tossia, e a garganta parecia pegar fogo junto com o lado externo de seu corpo. Lágrimas corriam pelo rosto sujo de fuligem.
Mas Jet nunca queimava até a morte. Não, ele agonizava e agonizava. Mas o sofrimento nunca tinha fim.
A verdade é que Rebecca não gostava de beber, mas estava o fazendo para ficar mais leve, talvez um pouco mais animada do que os últimos dias. Ela conversava com seus amigos no centro do Acampamento enquanto jogava o líquido amargo do copo em suas mãos direto no fundo da sua garganta, evitando qualquer contato com a sua língua.
Tudo parecia bem, não teria grandes preocupações por aquela noite até... Bom, até a figura fantasmagórica se pôr à sua frente. Rebecca pôde sentir um arrepio até o fim da sua espinha seguido com uma sensação de frio horripilante vindo do fundo das suas entranhas. Aquele rosto era indescritível, o olhar que jamais poderia ser descrito como humano, o tipo que não teria hesitação alguma em repartir a sua alma de uma maneira irreparável. E foi olhando para aqueles olhos que Rebecca desmaiou, ou ao menos pensar que desmaiou. Parecia que estava chegando cada vez mais perto dos olhos daquela criatura, até adentra-los completamente e se encontrar presa em outra realidade.
Na sua frente estava sua avó. Sua queria avó, com as vestes prestas, os cabelos castanhos soltos sobre seus ombros e exalando aquele cheiro de baunilha característico, enchendo o coração da mulher de esperança por um breve momento. Foi só ao tentar se aproximar que teve uma terrível surpresa, a voz antes tão doce da sua avó agora tornou-se grave e alta, um tom que jamais ouvira antes em sua vida.
- Não chegue perto de mim. Você... Eu achava que eu podia confiar em você. Eu morri, e você é a culpada. Você foi incapaz de me curar. - Apontou Miranda, com o dedo no rosto da morena que em um segundo se sentiu tão frágil que caiu por seus joelhos, sem força para sustentar o próprio corpo.
- Vó, eu posso te salvar agora, eu... eu tô trabalhando em um novo experimento, eu posso te curar, entendeu? eu... - Sua fala foi cortada por uma risada irônica, como se tudo o que fora dito não passasse de uma grande mentira.
- Você não pode fazer nada. Eu te odeio, Rebecca. Você me deixou morrer, e nada mais me pode trazes dos mortos, nem sequer sua pesquisa. Para quê você sequer começou essa pesquisa? Eu já estou morta, não tem nada que você possa fazer quanto a isso, pare de mentir para si mesma. -
Aquela palavras atingiram seu coração como uma facada, despedaçaram qualquer coisa boa que existisse dentro da morena, que agora chorava aos prantos com as mãos sobre o peito, talvez tentando juntar os pedaços do que lhe sobrou ali
- Nem sequer seus Deuses podem me fazer voltar, não é mesmo? - Continuou, dessa vez andando em círculos em volta da mais nova que encarava o chão, com vergonha demais para encontrar os olhos esverdeados da sua avó
- Adeus, Rebecca. -
Ao ouvir essas últimas palavras Rebecca levantou-se rápido demais, mas quando se virou a silhueta da sua avó já havia desaparecido, quase como se nunca tivesse ali. Em uma tentativa desesperada, tentou agarrar o vazio na sua frente enquanto ainda via a sombra da mulher, mas acabou enchendo suas mãos com algo diferente.
As imagens foram aos poucos voltando aos seus olhos, assim como os detalhes foram aos poucos se mostrando à sua frente. Rebecca percebera que agarrava um punhado de folhas em suas mãos, aparentemente havia desmaiado, e sua cabeça pesava toneladas quando voltou a si. Se sentou ali mesmo, encostando-se em uma das árvores do local. Algumas pessoas em sua volta estavam voltando a ganhas a consciência, mas foi difícil acompanhar, pois seus olhos se fechavam lentamente mais uma vez.
A última lembrança que tem daquela noite foi de quando viu alguém correndo em sua direção e apanhando sua cabeça antes que caísse novamente sobre a pedra que a machucada, e logo após notou a mão ensanguentada da pessoa à sua frente que tentava desesperadamente estancar o sangramento, mas Rebecca não ficou acordada o suficiente para saber como aquilo acabou.
Em um momento, Mitra ria e flertava com um dos professores ao redor da fogueira. No outro, a alegria havia morrido com a aparição de Mania.
Com um sobressalto, a semideusa se levantou. A primeira coisa que gritara foi seu instinto de defesa, mas antes que pudesse conjurar um feitiço de proteção, a daegron capturara toda a sua atenção. Aqueles olhos negros, a pele ebúrnea como neve e o sorriso doentio... Céus, ela se lembraria daquele sorriso durante anos! A visão quase fê-la vomitar.
E mais rápido do que podia imaginar, não estava mais no Acampamento. Por um instante, só havia a escuridão: medo, desespero, gritos por toda a parte... Alguém faça isso parar, pensou consigo mesma, mas aquilo não estava ao alcance de ninguém. Nem de um mortal, nem de algum deus.
Imagens se formaram. Mitra não conhecia o lugar onde tinha sido levada, mas lembrava-se dele pelas fotos de seu pai. Era Bangladesh, a terra de origem que nunca conhecera, com suas ruas lotadas, prédios amontoados e pessoas com vestimentas coloridas. Não havia alegria naquelas cores. Seu corpo tinha se transformado no de uma garotinha novamente e Leela estava a sua frente, repreendendo-a por qualquer bobagem que tivesse feito sem querer. “Garota burra”, ela vociferava em Bengali. “Nenhum homem vai querer se casar com você!” Eu não quero me casar, Mitra pensou em responder... Porém, aquela era uma criança e não ela de verdade, e para a Mitra criança, só restava chorar. “Se você pensa que vai ficar nessa casa por muito tempo e que seu pai vai te proteger, está enganada. Você vai se casar com o primeiro velho rico que encontrarmos e terá muitos filhos... E aí será responsabilidade dele.”
E como se a fala de Leela fosse real, a imagem mudara. Desta vez, Mitra estava em seu corpo atual.
Estava numa mesquita. As paredes eram brancas, ornamentadas, com luzes espalhadas e um belo tapete embaixo de seus pés. Estava sentada com um lindo sari dourado envolvendo seu corpo e as mãos pintadas de henna em desenhos, chamados de mehndi. Era uma cerimônia, Mitra percebeu. E ao olhar para frente e ver sentado, do outro lado da mesquita, um homem velho em vestes festivas, ela conseguiu compreender.
Era o seu casamento.
Lágrimas começaram a correr pelo seu rosto. Não, por favor, tudo menos isso. Clamava para a própria Afrodite que não se casasse a força, que tudo aquilo acabasse... Mas nenhum pedido adiantaria. Havia inúmeros convidados: seu pai estava sentado junto com seus irmãos, próximo ao seu “noivo”, e Leela a observava mais de perto. Brotara um sorriso satisfeito em seu rosto. Provavelmente, ela agradecia por finalmente se livrar de Mitra, a filha que na verdade não era dela.
O mawlana, a autoridade religiosa daquele casamento, se aproximou. Primeiro, ele virou-se na direção do velho. Não, não, não, não quero que isso aconteça, não quero me casar.
“Você aceita essa mulher como sua esposa?”
Por mais que Mitra rezasse, não havia como a resposta do homem ser diferente.
“Qobul”, ele respondeu. Eu aceito. Mitra engoliu em seco, com as bochechas já encharcadas pelas lágrimas. O mawlana agora a encarava, sério.
“Você aceita esse homem como seu marido?”
Um longo silêncio de expectativa pairou pelos convidados. Mitra não responderia: ao invés disso, seu choro tornou-se ainda mais incontrolável. Soluçava pela perda de sua liberdade, pelo futuro que jamais teria, pelo seu verdadeiro eu que morria dentro de si.
“Você aceita?” O mawlana voltou a perguntar. De repente, parecia furioso. Todos os convidados pareciam. Encaravam-na como se fosse suja, como se estivesse tomando uma decisão errada. E a face de todos no salão começou a desfigurar-se. Transformavam-se em horríveis monstros, com a pele roxa e milhares de dentes afiados. Vinham em sua direção.
Antes que um deles pudesse tocá-la, Mitra acordou. Estava no chalé de Afrodite, ensopada de suor. Era só um pesadelo. Quem havia a trazido ali? Não sabia... Mas a ideia de que continuava livre ajudava a aquecer seu coração. Pelo menos por enquanto.
Qual seria o maior medo de um filho de Melinoe? Ele não poderia falar sobre seus irmãos, mas o maior medo de Kiernan era quase a ironia perfeita.
No começo era quase como todos os seus sonhos, estava de volta a Grécia, nos tempos que todos os deuses eram venerados e adorados, era uma festa, mas não uma festa qualquer, estavam cultuando os deuses da colheita, havia sido boa aquele ano, mas algo estava diferente e demorou a perceber que era porque ele estava intangível.
Não se desesperou naquele momento, estava acostumado, viveu assim por longos anos, contudo o que viu lhe pegou em cheio, era Mia, com outro homem e eles pareciam íntimos demais, confortáveis demais, como se ele nunca tivesse existido na vida da outra semideusa e lhe doeu como nunca.
Então tudo ficou escuro novamente, ele estava sozinho, nada além da solidão lhe acompanhavam naquele momento, porém pessoas estranhas e conhecidas começaram a passar por ele, todos os rostos distorcidos, vivendo suas vidas sem nem se importar com ele, nem mesmo lembrando de sua existência,.. Foi ai que o panico começou.
Ele foi esquecido, todos que um dia foram importantes para o semideus esqueceram de si e no momento que se tocou disso os momentos que aconteceram com os outros depois de se esquecerem dele passaram a ser mais felizes, observou a vida longa do pai, Hermione num casamento feliz com filhos e ficou em silencio observando tudo até concluir: Sua existência era inútil para todos, era melhor ele ter morrido de uma vez.
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Festa era o tipo de coisa certa que poderia levantar o ânimo de qualquer um, principalmente de Barbara. A filha de Poseidon era do tipo que acreditava que uma reunião para passar o tempo, curtir e beber alguma coisa podia ajudar em qualquer situação, inclusive naquela que se encontravam agora. Sabia que era como tampar o sol com a peneira, afinal, quando a festa acabasse, o problema estaria lá para resolverem. Ainda assim, estava animada. Ajudava em tudo que podia e estava tão animada para pegar seu violão e cantar em volta da fogueira com os filhos de Apolo que mal podia esperar por aquele momento e foi exatamente assim que se passou a noite, entre brincadeiras e cantigas, ela quase podia esquecer de tudo que fosse ruim. Quase. Estava naquela vida a muito tempo para conseguir se desligar de tudo com tanta facilidade e pela sua experiência, qualquer coisa podia dar errado a qualquer momento.
O sol já despontava no horizonte quando de fato aconteceu. Barbara estava na praia, observando as ondas calmas e o sol gelado. Vazio... Não podia sentir nem seu pai, nem seu protetor, Apolo. Aquela sensação de solidão que assolava a semideusa só viria a ficar maior. Mania. Aqueles olhos... aquele sorriso sombrio... Barbara se viu caindo pela eternidade dentro de si própria, afundando num mar gelado e negro que a sufocava mas não a matava. Ela preferia ter morrido ali. Quando finalmente alcançou o chão no fundo daquele mar, se viu caída na entrada do acampamento e era apenas uma menina, tão nova como quando chegou ali, com apenas dez anos, perdida, sem saber o que a esperava... Ela passou pelo arco e desceu a colina verde em direção ao acampamento... vazio. Onde estavam todos?
Nada... Barbara abria a porta de cada chalé, mesmo que não pudesse de fato fazê-lo. Não se importava. Tinha que achá-los. A sua família... Para onde tinham ido a sua família? Mas não havia família, não havia ninguém. As pessoas nos campos de morango, na Casa Grande e na Enfermaria... todos tinham ido embora e ela estava sozinha. Foi quando o viu, em sua antiga forma, o homem que morava na frente de sua casa e lhe ensinou música para preencher o vazio de seu peito. Apolo... Ela correu, gritando por ele, mas ele sequer parecia se importar, continuava caminhando para a praia sem nem olhar para trás. Barbara finalmente o alcançou, segurando-o pelo braço e obrigando-o a se virar para ela. “ ------ O que aconteceu? Onde estão todos?”, ela questionou, a expressão aflita em seu rosto demonstrava seu desespero. “ ------ Foram embora...”, ele lhe respondeu, tão frio que Barbara sentiu medo. O homem se soltou de suas mãos e voltou a andar, a semideusa o acompanhou, precisava de respostas. “ ------ Como assim foram embora? Porque? Onde você vai?” ela continuava a questionar “ ------ Embora...” “------ Não pode ir embora! Não pode me deixar aqui sozinha, por favor...” “ ------ Você sempre esteve sozinha.” . Não houve tempo para resposta, o deus ascendeu ao céu em sua forma pura e levou com ele toda a luz. Estava escuro e frio agora, o mar revolto e gelado batia contra seus pés com fúria, como se estivesse zangado com ela e uma névoa negra avançava por sobre as ondas. Barbara não podia se mexer, não conseguia, a névoa a engoliu, a deixando cega no escuro. Cega e sozinha...
Jeongjong jurou que nunca mais pisaria naquela casa. O lugar que só podia ser associado com dor, física e emocional, nunca pôde ser considerado um lar. JJ nunca se sentiu segura ali. Nunca se sentiu amada. E, ah. Como necessitava de ser amada.
Por oito anos, vivia no Acampamento Meio-Sangue, e não tinha plano nenhum de voltar para aquele lugar frio. Não, foi expulsa de lá. JJ se lembrava muito bem.
Entretanto, de repente, viu-se parada na sala de estar. Em oito anos, nada pareceu mudar. Os móveis no mesmo lugar. A mesma mancha na parede. O mesmo cheiro de bebida alcoólica e cigarro e o mesmo disco do David Bowie tocando na vitrola que sempre pareceu antiquada para a coreana. Tudo em seu devido lugar, como se JJ nunca tivesse saído de lá. As luzes estavam apagadas, e se não fosse o corpo da filha de íris brilhando levemente - habilidade que adquiriu após anos treinando -, seria um breu total.
Confusa e assustada, a Lee deu um passo a frente. Os olhinhos agora negros por causa do medo se encham de lágrimas. Ela podia se ver sendo jogada contra a mesa, literalmente. Podia ouvir o tapa no rosto que recebeu. Podia sentir os cortes causados por aquela garrafa quebrada contra seu corpo.
As cenas passavam diante de seus olhos de forma dolorida. A voz de Jeongjong não podia ser ouvida. Ela não conseguia gritar. O corpo, igualmente imóvel, tremia de frio, tremia de pavor. O estômago parecia revirar. As lágrimas que caiam sem esforço de seus olhos rolavam pelas bochechas da semideusa, fazendo cócegas suaves e melancólicas, porém, nem para limpá-las Jeongjong tinha forças.
“Eu disse para nunca mais voltar.” A voz tão conhecida veio de trás de si, causando arrepios e mais vontade de chorar e de sair correndo dali o mais rápido que podia. Todavia, tudo o que conseguiu fazer foi se virar em direção do som.
O pai estava perto. Mais perto do que a garota achava confortável. Ela sabia que era ele, mas sua imagem parecia um pouco destorcida. Os olhos estavam inteiramente pretos - não igual os dela, que apenas as íris tomaram tal coloração; Não, os dele não tinha nada além de escuridão, assemelhando-se a um buraco negro que Jeongjong não podia parar de encarar. E ela não enxergava vida naqueles olhos. Não enxergava compaixão. Não enxergava humanidade, empatia. Não enxergava amor.
Mas quanto a isso, JJ nunca enxergou.
“Eu disse para nunca mais voltar, Jeongjong.” Repetiu, mais forte e grave, parecendo um trovão. JJ não era fã de tempestades, mas depois delas vinha o arco-íris. Pelo menos, era a essa esperança que sempre tentou se agarrar.
“D-desculpa.” Ouviu a própria voz dizer. Fraca, falha, assustada.
A risada que recebeu em resposta foi cínica e alta, vibrando por todo o corpo esguio de JJ. Ela sentia como se fosse vomitar a qualquer momento, tamanho mal estar que sentia.
“Você é nojento, Jeongjong. Não tem direito de estar aqui de novo.”
O som do tapa veio antes do que o formigamento na lateral do rosto. Mesmo que já tivesse recebido vários desses, a mão do pai era sempre pesada e dolorida. Parecia até mais agora. Depois, a queimadura em seu braço se fez presente, proveniente do cigarro aceso encostando contra sua pele.
O ato era dolorido fisicamente, e nas lembranças de JJ, que desde pequena sofreu com essa violência e sempre que via o pai com um cigarro na boca, já se escondia, temendo o que podia vir. E como quando criança, sentia-se pequena e indefesa. Como se todos os anos no Acampamento fossem em vão; Não podia se defender. E exatamente como quando criança e se encontrava tão amedrontada como naquele momento, sentia as calças ficarem quentes, e o líquido descendo por suas pernas era desagradável e fedia. Agora além de medo, sentia vergonha também.
“Você ainda mija nas calças, Jeongjong? Patético.” O homem esbravejou, segurando o pescoço da filha, a levantando do chão. “Eu deveria te matar agora.”
As pernas balançavam freneticamente, e as mãos tentavam se livrar dos dedos que apertavam seu pescoço cada vez mais. Jeongjong sentia o o ar se perder de seus pulmões, e por mais que tentasse puxar, era inútil. JJ sempre, sempre teve medo de morrer, principalmente pelas mãos do pai, mas esse era o destino que se encontrava agora, inevitável. O corpo que antes se balançava em busca de livramento de repente ficou imóvel. A visão turva se apagou. JJ perdeu totalmente a consciência e foi jogada no chão.
Porém, sentiu o baque do corpo contra o piso duro e gelado. O breu agora era eminente, uma vez que o corpo não possuía mais brilho, mesmo que tentasse. Estava frio, escuro, solitário.
Então JJ gritou. Gritou com toda a voz que tinha. Gritou pela mãe, gritou por AJ, gritou por Seraphine, mas ninguém apareceu. É claro que não. Estava sozinha, no mundo inferior, e ninguém poderia lhe salvar agora.
Se nem o próprio progenitor seria capaz de amá-la, por que outra pessoa seria?
E assim ficou o resto da noite. Tremendo de frio, e escutando o próprio choro, sentindo-se sufocar pelas mãos que não estavam mais em torno de sua garganta, mas nunca antes pareceram tão reais.
não importava que tivesse o arco preparado para atacar, não importava que tivesse tido centenas de anos de preparação em combate. estava sozinha com ela e seu vazio que parecia estender-se por todo o vácuo.
por um momento, até mesmo pensou que pudesse sentir-se confortável com o vazio, seu colega antigo, logo após perder-se nos olhos frios que a encaravam, imitando-a a luz da lua e das estrelas a quem tanto adorava. entretanto mesmo este tornou-se sufocante, apertando-lhe o peito, roubando-lhe o ar, roubando-lhe, até memso, a força de suas pernas que antes lhe mantinham em pé.
os joelhos foram de encontro ao chão e ma-ri chorava pois sabia o que viveria a seguir.
baixou os olhos da escuridão e encarou seu colo, ciente do que encontraria, do que temia. a visão de seu pai de olhos abertos, sem reação alguma aos seus chamados, aos seus chacoalhos, não importava o quão forte balançasse o corpo. ━━ lady ártemis… ━━ pediu por conforto. não queria viver aquilo de novo. sem resposta, gritou ao que mantinha os olhos fechados.
a corajosa caçadora de ártemis, no momento, encontrava-se com tanto medo que mal controlava seu próprio corpo. how ironic.
quando os abriu, lá estava. seu amante… o único… e por mais familiar que fosse a cena, havia algo de diferente. um som retumbava no vácuo eterno da escuridão, chamando-lhe. havia vento lhe rondando naquela planície vazia e estava tão frio.
quando pouco enxergava devido as lágrimas, limpou o rosto com as mãos trêmulas sujas de sangue… pode, então, exergar algo arrastando os corpos para longe de si. ━━ não! ━━ gritou em desespero e esticou-se para segurá-los, ciente de que não suportaria a dor de perdê-los de novo. ━━ não! ━━ tornou a clamar a tempo de ouvir unhas arrastando no chão arenoso que lhe sercava.
é hora de descobrir, dongbang ma-ri… a voz grave soou em um coreano tão antigo que duvidou que pudesse entender. desejou perguntar descobrir o quê? mais que tudo, mas não havia forças para fazer soar a pergunta, então permaneceu ali, fragilizada, esperando por ártemis por tanto tempo.