No, I'm not a player, I'm a puppeteer
task reward: o despertar dos poderes
tw: violência domestica, assedio, ptsd e vários pensamentos ruins.
Tentou ser discreta caminhando rapidamente para que ninguém percebesse que ela estava fugindo no meio de um casamento. Ela não era a noiva correndo com as saias brancas esvoaçantes, era apenas uma mulher fugindo dos fantasmas do seu passado. Já tinha sido uma noiva antes e podia afirmar com toda certeza que não foi uma boa experiência.
Entrou em um dos quartos reservados para os noivos se arrumarem. Não era muito grande, mas tinha uma porta que a permitia fechá-la e assim estaria segura.
Aquele templo era muito mais chique do que o lugar onde foi realizado o seu casamento sete anos atrás. Não se lembrava dos detalhes, pois seu cérebro fez questão de apagar a maioria das lembranças daquele dia miserável. Se lembrava de querer fugir, de odiar tudo e a todos, de querer chorar em posição fetal e pedindo à deusa para alguém salvá-la.
Ninguém a salvou. E isso resultou em mais memórias horríveis que seu cérebro não apagou.
Sentou na cadeira em frente à uma penteadeira que estava incrivelmente arrumada, havendo apenas uma xícara e um bule de chá usados, esquecidos enquanto o noivo ou noiva saiam correndo para aproveitar a festa glamurosa. A xícara até mesmo tinha um pouco do chá, mas foi abandonada depois de ser usada. Não era sempre assim?
Seu braço ardeu. Sempre ardia como uma lembrança constante de um episódio difícil de sua vida. Não ardia porque houve uma ferida aberta ou algum osso lesionado, não, aquela dor era puramente psicológica, desencadeadas por xícaras de porcelana.
Algo estranho para ser um gatilho, no entanto Ashla começou a ter essas reações à xícaras de porcelanas depois que seu marido enfiou um estilhaço do objeto em seu braço, logo abaixo da axila.
Nada justifica uma agressão daquelas, principalmente quando o motivo era tão bobo quanto uma bandeja derrubada, que fez a xícara quebrar e espalhar o chá quente pelo chão. Era parte de um conjunto de chá que foi passado de geração em geração na família Armstrong e ela teve a audácia de quebrar uma dessas peças inestimáveis.
Seu pai falaria que a pena foi leve para o nível do crime, mas ninguém ficou sabendo desse evento. E nem dos outros que ocorreram. Apenas os funcionários da casa, mas esses faziam vista grossa por medo e respeito ao patrão.
Foi tirada de seus devaneios com a porta abrindo. Por um segundo se perguntou como isso tinha acontecido se tinha certeza que havia trancado com a chave, mas quando ergueu os olhos e viu quem estava parado à porta percebeu que isso não importava mais.
Eles a tinham encontrado.
Seus fantasmas do passado, que marcaram presença no casamento.
O segundo filho do Coronel Armstrong.
Conseguiu se esconder de Thane, o primogênito com a ajuda de Sylas, mas ali estava o seu segundo maior pesadelo..
Ainda lembrava quando conheceu aquele enteado em especial. Lorcan era quase quinze anos mais velho que Ashla, e assim que colocou seus olhos na mulher havia um lampejo de crueldade que a fez pedir à deusa que nunca ficasse sozinha em sua presença. Ele era uma daquelas pessoas que toda mulher tinha medo, ainda mais quando notavam o modo como seus olhos passavam por seus corpos, de forma lenta e lasciva, assim como fez com Ash.
Um segundo depois só havia desinteresse da sua parte, a tratando como uma servente, um nada. Afinal, logo ela não estaria mais naquela casa, se o histórico do pai dizia alguma coisa.
Mas naquele momento, num quarto relativamente pequeno dentro do templo, havia apenas raiva em seu olhar.
Ashla achava que pagaria por seus crimes, mas por algum motivo achava que acertaria as contas quando morresse, quando enfrentasse o julgamento de Erianhood. Quase odiou que encontraria seu fim nas mãos de Lorcan. Parecia errado, patético e agonizante pois tinha certeza que ele a mataria do pior jeito possível. Pois além de raiva, tinha um desejo de vingança em seu olhar.
— Então foi aqui que você se escondeu? - disse ele, abrindo um sorriso cheio de dentes, como se quisesse mostrar as presas perigosas que não tinha — Você achou mesmo que conseguiria fugir de mim a noite toda? Mesmo com aquele pirralho como cão de guarda? Ele pode ter enganado Thane, mas não a mim.
Sylas cumpriu o que prometeu e ajudou a protegê-la, mas eles não sabiam que havia outro filho do Coronel na festa.
— Não vai falar nada? — falava enquanto entrava e fechava a porta atrás de si. O som da tranca ecoou nos ouvidos de Ashla como o sinal do fim dos tempos.
— Não acho que nada que eu possa falar vá te impedir, não é? — tentou segurar a língua, mas odiava demais aquele imbecil que se achava homem.
— Não vai fazer nada, não é? Igual o que fez com meu pai. — mostrou os dentes de novo, mas era tão patético que quase fez Ashla relaxar. Quase. Se perguntou se tinha ouvido direito ou Lorcan foi tão enganado como os outros. — Você vai ficar com essa cara de confusa? Eu sei o que você fez!
— O que eu fiz? — perguntou com cautela. Era melhor perguntar do que se entregar imediatamente e piorar a situação.
— O que você fez? Você não fez nada para salvar meu pai! O deixou morrer por aquela doença! Você poderia ter curado aquela pobre alma, mas não, você simplesmente o deixou definhar por meses.
— Perdão?
Não conseguiu segurar a pergunta, estava tão confusa. Se preparou para uma acusação de assassinato e não de negligência. Bom, pelo menos isso significava que era muito boa no manejo de venenos para ninguém desconfiar que a doença misteriosa de seu marido era na verdade causada por ela.
Ashla queria dar risada. Uma gargalhada tão grande que provavelmente os convidados ouviriam mesmo com todo o barulho que estava no templo. Ela queria gritar, chamá-lo de todos os xingamentos possíveis sem se importar com as consequências.
Mas não fez nada disso.
Tinha que se segurar, engolir todas as verdades que queria jogar na cara daqueles idiotas, crias de um dos homens que mais machucou Ashla. Em vez disso, enfiou as unhas na própria mão.
Era pequena quando desenvolveu aquele hábito, de se machucar para não machucar os outros, para não explodir e devastar tudo ao redor. A mãe brincava, quando Ashla era pequena, que ela tinha vindo com garras de tão afiadas eram suas unhas. Não era uma brincadeira que a agradava, pelo contrário, trouxe muitas inseguranças e a obrigou a ter um cuidado extremo com suas unhas, sempre às mantendo aparadas. Mesmo assim, ocasionalmente acabava se cortando, manchando de sangue suas mangas e vestes que usava na enfermaria.
— Vai negar? Sua vadiazinha! Você é imprestável, nem deveria estar lecionando no Instituto, espera só, vou eu falar com os responsáveis e você será demitida em dois segundos.
A raiva aumentou com aquela ameaça descabida, afinal como ele ousava destruir uma das únicas coisas boas que aconteceu na vida dela?
Sentiu sua mão machucada formigar. Seu coração disparou como se ela tivesse sido atingida por vários raios de uma vez. Porém a respiração estava calma, como se o coração e o pulmão não estivessem em sincronia. E então explodiu.
Em um acesso de raiva, pegou a mesma xícara que foi um gatilho para memórias dolorosas e a jogou, não apenas para acertar Lorcan, mas também para aliviar aquele sentimento em seu corpo.
Mas não foi apenas a porcelana que atravessou o pequeno quarto, atingindo a parede atrás da cabeça do homem; mas também as lâminas mais estranhas que Ashla já viu. Eram três no total, vermelhas quase bordô, fincadas na parede enquanto os pedaços da xícara caíram no chão. Uma gota de sangue escorria da orelha esquerda de Lorcan, onde uma das lâminas o acertou.
Ashla olhou para as próprias mãos e viu que não havia nenhum sangue restante do machucado feito pelas unhas. Juntou os pontos e percebeu que as lâminas que apareceram quase como mágica eram na verdade sangue.
Que ela controlou para virarem armas.
Testou com aquela gota que caia da orelha de Lorcan e ela veio direto para sua mão, ainda no estado líquido, diferente das lâminas.
Ashla começou a rir.
— Você que fez isso? — perguntou Lorcan, mostrando que seu cérebro servia para alguma coisa. — Você é uma aberração como os outros.
— Sim, eu sou. Finalmente.
Hemocinese: habilidade em manipular sangue de si mesmo ou dos outros, interna ou externamente. Pode criar hematomas, ferimentos, acelerar ou diminuir frequência cardíaca, como também controlar fora do corpo, podendo mudar o estado do sangue ( líquido para sólido, por exemplo). Quando bem treinado, é capaz de manipular as funções motoras da vítima, transformando em fantoches sem poder de escolha. Inspirações: Marie (gen v), os sangradores (Grishaverse) e Dobradores de Sangue (ATLA).


















