Díade
Vicente vivia a fazer versos:
se olhasse portas e sapatos
teria os olhos sempre imersos,
sonhando mundos e afetos.
Deixou o carro no estacionamento
e saiu a caminhar
dando volta ao pensamento.
Silfos, fadas e deusas.
Brumas…voluptuosidades,
Incandescências, perfumes, musas!
Subterrâneos mistérios e vastas magnitudes!
Não percebeu a placa de advertência,
nem a faixa de contenção!
Estava perdido em eloquência…
Quando Juca lhe chamou a atenção,
lá de cima; abertos pulmões:
- Ô tiu, cuidado, ói o chão!
Já estava feito o problemão:
Caiu no buraco da construção.
Não teve morte grega nem romântica,
somente alguma aglomeração.
Juca é que foi poeta
e teve uma tarde de descanso.
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Pelas leituras de Caio Fernando Abreu, medíocre, mas com amor.
"Carrega-me contigo, Pássaro-Poesia
quando cruzares o amanhã, a luz, o impossivel"
- Fragmento de Hilda Hilst. Amavisse.
Sinuca.
Bar fumaça de cigarros, muitos.
Ele no bar.
Ele é pequeno e frágil.
De longe parece que os olhos pequenos se fecham e comprimem ainda mais.
Ele olha e a vê (vê?).
Ela está olhando, mas baixa a cabeça.
Bem que poderia ele estar olhando para ela bem que poderia ele... Que a muito ela conhece sem ter dito nada sem ter imaginado o nome...
Ele nos bares pelas ruas pelos corredores do shopping entre os corredores de um supermercado. Ele o novo no prédio todos falando dele Marina dizendo que era excêntrico provavelmente drogado ou louco. Andava às vezes muito limpo às vezes muito sujo as luzes mudando de cor na janela que dava para a sala. O Marcelo dizendo que só podia ser viado, magro daquele jeito devia ter aids... Ou então era viciado só pode, não cumprimenta ninguém não, não, deve ser viado mesmo que outro dia ‘tava usando uma calça jeans coladinha como viado gosta e com camisa cor de rosa ainda por cima, sabe-se que bebe muito e recebe todo tipo de gente estranha, umas mulheres que parecem até putas só podem ser putas com aquelas roupas que não combinam óculos à noite... Isso é coisa de gente que tem algo a esconder... E como pagava o condomínio o aluguel em dia, ‘tava sempre trancado em casa ou então ficava fora dias e dias...
A porta dela dava de frente p’ra porta dele que não era toda de madeira mandou trocar por uma de vidro e depois ele pintou, pintou durante a noite talvez porque ninguém viu pintou uma cidade inteira com prédios e luzes e tudo o mais vista de cima e até uns “borrõezinhos pessoas”, o sindico permitiu é claro... Mas por que permitiria?... Os outros falavam, mas não sabiam de nada ela sabia um pouco mais, pois a porta dele olhava pra porta dela mudando o mundo a cidade que mudava de cor efeito das luzes que trocavam de cor contra a pintura da porta ela via... Vultos pessoas ela ouvia baixinho a música que escutavam lá dentro só que não escutava quando pessoas saiam ou entravam dava p’ra ver às vezes e só isso... Recebe todos os dias um homem... Será que o Marcelo tah certo será que ele é viado? Um homem moreno e bonito bem mais forte do que ele um dia estava com os olhos inchados...chorou? Por quê? Por quem?
Ela via e sentia... Sentia vontade de ser uma daquelas mulheres que entravam ali... Ali havia um mistério de vultos atrás de uma pintura de mundo com pessoas sem um rosto só os borrões, de borrões... Como as pessoas da cidade umas para as outras, as pessoas da cidade que ele pintou. Um dia falou pra sua amiga, a Cleci, que reprovou tal pensamento, imagina tu mulher com teu apartamento perfeito tua roupa sempre bem escolhida essa vida tu que tem tudo organizado que estuda e que trabalha... Tu tah é precisando sair mais agora que aquele fulaninho te deixou... Tu tah botando é coisa nessa cabeça... Vai pensar em um concurso melhor que eu ‘tava pensando a gente tem de melhorar de vida e tu aí xeretando a vida de um viado, perdido mesmo sei lah tem de tomar cuidado e depois amigar-se desse tipo de vizinho não era boa coisa vai saber não é? ...
E botava coisas na cabeça mesmo por que ele tinha uma voz bonita um dia ouviu a voz dele no corredor rindo como algo fazendo muito barulho e o síndico falando na reunião com os moradores, que ia falar com o morador do 210, que era difícil sujeitinho estranho que não se sabe de onde tem dinheiro paga sempre em dia e até ajuda quando o prédio precisa de reparo que nunca é mal educado mas que ele sabia escondia algo e a tal da Luna se intrometendo dizendo, não é flor que se cheire deve ser traficante o senhor tem que investigar que até dia desses uma pessoa saiu seminua di’lá, depois entrou de novo um horror isso olha as crianças, e ela prestando atenção sentindo enjôo quando a Luna falou pessoa seminua enfatizando aquele se-mi- NU-a, assim mesmo, que devem falar assim lah na igreja dela, porque o nome Luna nesse caso parecia que era mesmo um desperdício...
Na reunião do condomínio já tinha decidido, tomara aquela decisão agora sentia um nervosismo estranho porque e se ele não saísse para ir ao bar jogar sinuca de novo, ele sempre ia, mas se agora não fosse, agora que ela se arrumou colocou aquele vestido muito bonito que a Marina ajudou ela a comprar e a Duda ‘tava junto disse, você ficou um mulherão heyn mulher, e foi até engraçado ela usar os substantivos assim. Atrás da porta do lado de dentro de sua arrumação de luminárias tapetes quadros sofás e cortinas e uma cidade do outro lado e se olhasse da janela para baixo veria pessoas, mas com rosto, deixaria a cabeça descansando no vidro da janela para olhar a cidade com rostos já que não era muito alto (olharia?). Atrás da porta de seu apartamento do lado de dentro tudo muito arrumado e ela tremendo tremendo com a cabeça apoiada contra a porta quando de repetente o barulho da porta daquela outra cidade que não se movia nunca (e a cidade se movia?) em frente a sua porta até que ouviu alguma coisa no corredor, a cara metida já para o lado de fora.
(Espanto ou sono?) Ela o viu totalmente porque não baixou o rosto e olhou direto nos olhos que eram mesmo pequenos e ele riu e os olhos se fecharam um pouco mais e o rosto todo ele ficava menor quando sorria e ela não pode pensar em mais nada quando ele estendeu a mão para ela e disse que... Ele disse que ela estava só assim mesmo, você está só (ou era uma pergunta ela não sabia) e ela fez que sim que ela estava só e ele perguntou o nome dela e ela disse o nome muito baixo talvez ele não tenha escutado então e olhava para as mãos dele agora enquanto ele perguntou se ela queria entrar com ele e ela disse que sim baixinho também e ia entrando naquele apartamento que ela sempre chamou de casa, mas ele abriu a porta que olhava para a porta dela e ele riu riu porque ela tinha medo.
Colchão no chão.
Quase sem móvies.
Revistas, livros, filmes, vinis e um toca discos desses tipo uma vitrola mesmo.
Bebida, a geladeira preta com uma bailarina branca dançando na tintura de uma luz também muito branca, e um cinzeiro. Luzinhas natalinas de todas as cores se espalhavam aqui e ali e uma confusão de velas e cheiro de incenso e de mofo. Não falou muito, mas quando entregou a ela a garrafa de bebida pegou no pulso dela e encostou o nariz no nariz dela rindo muito com aqueles olhos que se fechavam quando ele ria ...
Mesa posta.
Chá e bolachinhas de supermercado, conversa.
Tu viu o que aconteceu com ela Marina? Bem que eu avisei eu disse que era marginal que não valia nada e agora ela anda que nem puta, me perdoe mas eu tenho até pena e eu sei que é horrível sentir pena. E a Marina sentindo também pena É eu sei que agora ela nem tem mais nada e não sei como tem dinheiro p’ra pagar o apartamento, deve estar se vendendo junto com o do 210 com certeza, e ninguém a ceita mais, quase não tem amigos que judiaria, Cleci.
Ainda tem mais guria, pois o Marcelo contou que viu ela seminua também um dia pelo corredor algum barulho rindo alto.
Marina com o coração na mão buscando uma explicação - Enlouqueceu Cleci, enlouqueceu, até pintou na porta um arco íris sobre a Redenção, coitada.
E Marina ainda arrematou: deve estar usando drogas.
Quero que me tome pela cintura
que me obrigue,
que me cole na tua carne.
Que teu suor escorra
por entre os caminhos de meu corpo.
Quero que me imponha teu cheiro.
A barba, esses pelos de tua cara
arranhando a minha cara.
Essa minha cara em febre.
Debruça-te sobre mim,
rocha, vale.
Desagua em mim
teu oceano infinito.
E da violência do teu querer,
afoga-me, deixa-me morrer...
Afoga-me...
O ventre oco
o coração oco,
sensação de coisa sem peso,
de falta.
O ventre querendo
a umidade da boca.
O ventre que expõe.
E uma boca que se abre.
A boca que expõe a língua.
A boca e o ventre;
mesa posta,
morangos e amoras,
frutos como carnes.
O ventre,
o coração e a boca.
Sem peso.
Há tanta gente escrevendo, que é como aquelas sessões em câmara de vereadores... O jeito é baixar a cabeça e sair de fininho, ou ficar calado até que se insinue uma pausa e ... De qualquer modo, eu cá fico no conformismo... Os que tem o que dizer e sabem como fazer, que o digam!
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E como é que se dá vida a todas essas pessoas dentro da minha cabeça? E não param nunca, como se movimentam, como sentem, como conversam entre si. Algumas de tão longe, outras de tão perto. Como é que se dá vida a elas?
Que.
Não existo para ser amada.
Não tive nenhuma escolha.
É o peso do meu corpo,
e do meu coração.
É meu passo que se arrasta no mundo
como a puxar vales escuros
onde ninguém habita.
Não existo para ser amada.
Não tive nenhuma escolha.
A primeira mão em meu corpo
cobriu-o de silêncio.
é meu repasto de dor cotidiana
como quem precisa saber
que não tem morada neste mundo.
Não creio no destino,
nem mesmo nas escolhas.
Creio no silêncio amargo,
no sorriso imposto e pesado
amarrotando o canto da boca.
Creio nos olhos que se derramam
salgados como o oceano corrosivo
a lamber com sal as ilhas vazias.
Olhos de vento manso.
Não creio no destino,
nem mesmo nas escolhas.
Creio no medo confuso e desconfiado,
no medo arfante no escuro,
como criança fugitiva.
Como criança escondida
A espiar a vida movente
que sorri do lado de fora.
Não nasci para ser amada
Não creio no destino
Mas sei esperar:
cintura presa,
costas curvas,
dando amor em silêncio.