Starting with the left foot || Sol & Blake
@myled
Já fazia quase um ano que Sol morava em Nova Iorque, a cidade era dinâmica comparada a vida pacata que vivia, mas aos poucos ela conseguiu se adaptar. Enviava dinheiro todos os meses para a mãe através de alguns conhecidos e tentava ao máximo não deixar rastros para que seu avô a encontrasse. Aquele era só mais um dia de trabalho qualquer, uma recepção de luxo em uma premiação gastronômica, ela não sabia muito sobre o evento e também não procurou saber, o quanto menos chamasse atenção para si, melhor. Se manteve focada em servir os clientes, já que aquele era um dos bicos que tinha em buffet.
Próximo ao fim da noite, os organizadores do evento ficaram tensos, a agitação na cozinha era grande, o pianista estava preso no trânsito e não chegaria a tempo. “A Sol toca piano!” Lisa comentou em alto e bom som, enquanto a coreana se encolhia e tentava fugir dali o mais rápido que podia, adorava Lisa e era grata por ter uma amiga tão boa em um país estranho, mas definitivamente Lisa era impulsiva demais e sempre a colocava em situações complicadas. Cabeças viraram em sua direção, Sol queria que um buraco se abrisse pra ela se enfiar dentro, o chefe dos organizadores do evento a olhou em dúvida, mas com certa esperança. Após algumas insistências, a morena foi convencida de forma relutante a tocar.
Um vestido vermelho surgiu sabe-se lá de onde, e logo seu cabelo e face eram arrumados, quando subiu ao palco, ainda queria se esconder e rezava para que não vazasse fotos suas na mídia e que ninguém da Coréia a reconhecesse. Suspirou frustrada e sentou-se no banco do piano, uma fina cortina branca a escondia da plateia. Sol não conhecia muitas músicas ocidentais, então foi acordado que ela tocaria uma sul coreana, ela poderia cantar, mas não o faria, só o piano era suficiente. Pediu para que seu nome não fosse revelado ou anunciado e assim foi feito, disseram para o público apenas que haveria uma apresentação especial naquela noite.
Respirando profundamente seus dedos tocaram delicadamente as teclas do piano, iniciando uma doce melodia, conforme a música avançava e encorpava, a cortina era suspensa de modo a revelar aos poucos quem tocava o instrumento. Sol não olhou para a plateia em nenhum momento, concentrou-se em sua música, mantendo os olhos fechados e um pequeno sorriso nos lábios, imersa no mundo particular que a música lhe proporcionava. Ao final da apresentação, levantou-se fazendo uma reverência para o público, mantendo a cabeça levemente abaixada.
Sol não permaneceu no evento por muito tempo, após a apresentação, era mais seguro ir direto para casa. Na segunda-feira, por volta das 9h da manhã um pedido foi feito no café em que trabalhava, o motoboy ainda não havia chegado e por isso seu chefe pediu que ela fizesse a entrega de seis cafés e uma caixa de donut’s no restaurante Stella’s, que ficava a uma quadra dali. Nova Iorque era uma cidade que chovia bastante, apesar de não estar chovendo naquele horário, haviam enormes poças na rua e Sol seguia seu caminho com rapidez e cuidado, o que não resolveu muito, quando virava a esquina que dava na entrada do restaurante um carro passou lhe molhando completamente. Xingou baixinho e coreano, olhando para seu reflexo molhado na porta do estabelecimento. Bufou chateada em saber ao certo o que fazer, não poderia entrar ali do jeito que estava e voltar no café para se trocar e pegar outro pedido só atrasaria a entrega. Por fim, resolveu que faria a entrega pelos fundos do estabelecimento, contornou o restaurante e quando já estava na porta dos fundos, a mesma foi aberta, batendo em cheio em seu rosto, fazendo-a se desequilibrar no degrau e cair, derramando todo o café.
“Definitivamente hoje não é meu dia!”. Murmurou com um careta de dor, a mão erguida em frente ao nariz e um olhar furioso sendo direcionado para o culpado daquilo.











