Independência ou morte.
Eu não falo levianamente quando digo que realmente preferiria estar preso na jaula que eu construà do que em uma feita por outrem.
A minha liberdade sempre foi o aspecto mais importante da minha vida, ao ponto que não há sentido viver sem ela. Estar em insegurança financeira e alimentar é horrÃvel, mas estar isolado do mundo, das experiências e da vida cotidiana te afeta tão fatalmente quanto.
Ainda tenho um pouco de saúde, já estou com o nome limpo, tenho um teto sobre minha cabeça e comida na barriga, mas em nenhum sentido que importa, estou vivendo. Eu sobrevivo, os dias passam, nada muda.
Sinto, cada vez mais, a exclusão e isolamento. Não consigo socializar por não ter mais um repertório de experiência social. Nada mais tenho a compartilhar em uma conversa de elevador, de ponto de ônibus.
Tudo o que tenho é triste, melancólico e repetitivo. Tudo se esvazia a partir do momento que sai da minha boca. É bobo e superficial. Afinal, do que posso reclamar?
Houve intervenção, contas foram acertadas e decisões necessárias foram tomadas. Estou, agora, longe dos extremos e propriamente medicado. Mas viver no meio é terrivelmente entediante e solitário. Não há prazer em nada e nenhuma rua leva a lugar algum.
Não há nada que eu almeje e não me vejo mais no espelho. Não tenho mais uma música preferida, não quero mais saber o que vai acontecer em uma série. Não anseio por uma ida ao cinema, ao teatro ou ao lançamento de um novo celular.
Não quero ler sobre guerra e nem sobre paz, sobre economia ou polÃtica. Não quero saber do amor, não o sinto mais. Não quero ver casais e vidas perfeitas, não há nada afável nisso.
Por mais que a arte ainda me toque, eu não sei mais o que fazer com ela, não sei mais para onde quero levá-la.
A saudade virou uma constante que não se sacia em um abraço, um carinho, um beijo, ou uma mensagem. É uma saudade insaciável pois se refere a alguém que não existe mais. Alguém que já morreu tantas vezes e por tantos motivos que não volta mais. Nada mais se faz necessário.
A morte de fato aconteceu para as minhas ideias e para os meus ideais. Veja bem, o mundo não vai mudar, as pessoas também não, eu não vou conseguir ajudar ninguém e nada vai ficar bem. Não vou viajar o mundo, me casar, construir a casa dos sonhos ou ver a aurora boreal.
Não vou andar de trem, voar de avião, ver as cataratas. Nunca mais vou subir em uma bicicleta, ralar os joelhos, chorar pela dor, jurar um amor.
Já perdi o encanto de olhar para cima e admirar os prédios. E ninguém nunca vai me amar como um dia eu me amei.
"Nada importa" deveria ser libertador, mas se transformou na desesperança.
"Tudo importa" deveria ser acolhedor, agora é desespero.
E cada dia que passa, me vejo mais perto de entrar para o clube sem nem, ao menos, ser famoso. Sigo resistindo, sigo existindo.
- art.











