*Resenha #1, COM SPOLIERS*
Título original: Dom Casmurro.
Literatura brasileira: Realismo.
Bentinho (Bento Santiago): é o narrador-personagem dessa história, Bento Santiago, membro da elite carioca do século XIX, é o grande responsável por nos contar sua vida; através de reminiscências totalmente parciais, que marcaram sua infância, adolescência e juventude.
Capitu (Capitolina): é a personagem “amorosa” dessa história, Capitolina, mulher de origem pobre, é a grande responsável por nos revelar despropositadamente; o íntimo apaixonado, sentimental e ciumento de Bentinho.
Escobar: é o personagem “amigo” dessa história, Escobar, colega seminarista de origem não tão rica, é o grande responsável por nos revelar despropositadamente; a face amiga, carente e egoísta de Bentinho.
Dona Sancha: é a personagem esposa de Escobar, Sancha, desempenha o papel de melhor amiga de Capitu, isto é, já que ambas foram amigas durante o colegial na adolescência.
Dona Glória: é a personagem matriarca da família Santiago, mãe de Bentinho, mulher muito religiosa e muito amável com o filho. Quer que o garoto seja padre por causa de uma promessa que fez.
José Dias: é o personagem agregado que vive de favores na casa da família Santiago, agregadíssimo, desempenha o papel de agradar os proprietários da casa com o uso excessivo de superlativos. É o grande responsável pelo ponta pé inicial da história: uma denúncia.
Tio Cosme: é o personagem viúvo e advogado, irmão de Dona Glória, que vive na casa da família Santiago. É brincalhão e ama jogar gamão.
Prima Justina: é a personagem viúva, prima de Dona Glória, que vive na casa da família Santiago. É sincera e não tem papas na língua.
Pedro Albuquerque de Santiago: é o personagem pai de Bentinho, faleceu quando o filho ainda era muito pequeno. No entanto, deixou riquezas para a família.
Senhor Pádua e Dona Fortunata: são os personagens pais de Capitu, que viam no possível casamento da filha com Bentinho: uma oportunidade de ascensão social.
Ezequiel: é o personagem filho de Capitu, sobre qual o narrador sustenta até o último capítulo forte dúvidas quanto à paternidade do menino, pois o garoto tinha grande semelhança física com Escobar.
Citação (página 7): “Se só me faltassem os outros, vá um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mais falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo”
Você está à procura daquele livro clássico misterioso, extremamente detalhista e com uma narrativa nada confiável? Então, venha comigo, pois o seu momento chegou!
O romance inicia-se em uma situação curiosa, na qual, um jovem escritor tenta ler alguns dos seus versos para Bento Santiago em uma viagem de trem, mas acaba fazendo-o dormir ao passar das estrofes, feito isto, o aspirante a poeta zanga-se com o nosso narrador, e o nomeia de Dom Casmurro, que significa alguém teimoso, ranzinza e até fechado em si mesmo. Achando graça do acontecido, Bento Santiago, aos seus 54 anos, resolve compartilhar para nós -caros leitores- a história de sua vida, para assim não só evidenciar o que está por de trás do amargurado “Dom casmurro”, mas principalmente para atar as duas pontas de sua vida: restaurando na velhice a adolescência.
Voltando ao tempo, somos apresentados à infância de Bentinho, quando ele vivia com a família num casarão da rua de matacavalos. E, é justamente nesta parte, que ocorre o primeiro fato importante: a denúncia de José Dias, nesta parte, Bentinho escuta uma conversa entre o agregado e sua mãe, no entanto, não se trata apenas de um simples diálogo. Dona Glória desde sempre pretendeu mandar Bentinho para o seminário, pois havia perdido o primeiro filho, então caso o segundo viesse a nascer “varão” seria padre. José Dias durante aquela conversa relembrou a promessa, e mais do que isso, alertou a mãe de que o filho nutria uma amizade extremamente afetuosa com a garota: Capitu, filha do vizinho Pádua.
Bentinho aos 15 anos, fica impactado e furioso com a denúncia, e logo tenta compreender se realmente gosta da vizinha, sendo influenciado pela situação que ouviu atrás da porta e por memórias afetuosas infantis, o nosso narrador expõe a situação para Capitu e confessa o seu suposto amor. A menina ouve tudo com atenção e não gosta da ideia de estar separada do menino. Os dias vão se passando e o “jovem casal” arquiteta e realiza planos para quebrar a promessa, no entanto, nenhum deles concretizam-se. O garoto não tem escolha, é obrigado a ir para o seminário, mas, antes de partir, assegura com um beijo em Capitu: a promessa de que voltará e se casará com ela.
No seminário, Bentinho conhece Ezequiel de Souza Escobar, que se torna seu melhor amigo, ou seja, ambos nutrem relações de confiança ao longo da estória e alguns segredos são selados entre eles. Em uma visita a sua família mais especificamente para um jantar, Bentinho leva Escobar e Capitu o conhece.
Enquanto Bentinho fortalece sua amizade com o amigo no seminário, e, estuda latim com todo o vigor. Capitu estreita relações com Dona Glória, que passa a ver com bons olhos a relação do filho com a vizinha. Apaixonado demais e procurando uma resolução certeira e objetiva para a saída do seminário, Bentinho chega a querer consultar o papa, entretanto, Escobar encontra uma solução simples para o terrível impasse da vida de Bentinho. A solução foi: ao invés de Bentinho continuar no seminário exercendo uma carreira sem a vocação necessária, era mais fácil substituí-lo por um órfão escravo, já que, a promessa não exigia que fosse especificamente Bentinho à cumpri-la, sendo assim, o novo garoto é mandado ao seminário e Bentinho fica “livre” da promissão.
Bentinho vai estudar Direito no Largo de São Francisco, em São Paulo. Quando conclui os estudos, torna-se o Doutor Bento de Albuquerque Santiago; independente financeiramente e com uma liberdade amorosa, que sempre sonhou. Ocorre então o casamento tão esperado entre Bento e Capitu. Escobar, por outro lado, casara-se com Sancha. Capitu e Bentinho formam um casal perfeito, no estilo “duo afinadíssimo”, que deixa todos impressionados. Eles gostam disso; aproveitam o prestígio social que desfrutam.
Essa felicidade, entretanto, começa a ser ameaçada com a demora do casal em ter um filho. Escobar e Sancha não encontram a mesma dificuldade: têm uma bela menina, a que colocam o nome de Capitolina. Depois, de alguns anos, Capitu finalmente tem um filho, e o casal pode retribuir a homenagem que Escobar e Sancha lhe haviam prestado: o filho é batizado com o nome de Ezequiel.
Com o passar dos anos, os casais começam a conviver intensamente em jantares, reuniões e idas e vindas na casa um dos outros. Bento vê aos longos dos dias da infância do filho, uma semelhança terrível entre o pequeno Ezequiel e seu melhor amigo. Escobar, que, numa de suas aventuras na praia - o personagem era excelente nadador-, morre afogado.
O tempo continua passando, e Bento continua enxergando no filho a figura do falecido amigo e fica convencido de que fora traído pela mulher. Resolve suicidar-se bebendo uma xícara de café envenenado. Quando Ezequiel entra em seu escritório, decide matar a criança, mas desiste no último momento. Diz ao garoto, então, que não é seu pai. Capitu, escuta tudo e lamenta-se pelo ciúme de Bentinho, que segundo ela, fora despertado pela casualidade da semelhança.
Após inúmera discussões, o casal decide separar-se. Arruma-se uma viagem para a Suíça com o intuito de encobrir a situação, que levantaria muita polêmica. O protagonista retorna sozinho para o Brasil e se torna, pouco a pouco, o amargo Dom casmurro, enquanto sua esposa e suposto filho vive a vida no exterior.
Depois de alguns anos, Capitu morre no exterior e Ezequiel durante a sua juventude, tenta reatar as relações com Bento, mas a semelhança externa entre Escobar e Ezequiel faz com que Bento Santiago o rejeite novamente. O destino de Ezequiel é infeliz: ele morre de febre tifoide durante uma pesquisa arqueológica em Jerusalém.
Com um final extremamente triste e nostálgico, o narrador tenta nos convencer de que o livro é uma tentativa de recuperar o sentido de sua vida, mas nas entrelinhas pode-se observar a necessidade do mesmo de provar-se como o indivíduo “coberto de razão” da história, que lemos. A casa do Engenho Novo em que ele reside é uma cópia exata da sua casa antiga de matacavalos, apesar do mesmo, dizer que não se lembra de absolutamente nada de como ela era.
Por fim, o narrador parece menosprezar toda a história que viveu, desejando que a terra acima dos corpos dos supostos “amantes” sejam leves. Convence-se também de que o melhor a fazer após ter narrado tudo para nós, é escrever outra obra, agora, sobre “a história dos subúrbios”; isto porquê ele não se sente completo depois de ter sua história de vida lida por nós. Ele sabe que é assombrado por fantasmas do passado, e que escrever é uma boa forma de tentar lutar contra eles, apesar deles nunca irem embora, não completamente.