”Finalmente, hoje de manhã, encontrei o Diabo. Na verdade, ele me encontrou. Eu estava acordando e quase tive um piripaco com o Tinhoso sentado na beira da minha cama. Ele parecia desanimado e estava folheando um livro meu da Flannery O’Connor. Olhou pra mim, assim sem muita empolgação.
- Pensei em fazer um café, mas não sei mexer nessas coisas elétricas. Tá acordado?
- Ora, como não! Puta que pariu! Respondi para ele, ainda em choque.
- Vi seu post no Facebook falando que me procurava. Bem, cheguei!
- Tô vendo! Respondi, tentando manter a calma e tentando lembrar o Pai Nosso (vejo que aquelas aulas de catecismo que matei fazem falta).
- Então? Fala aí!
- Bem, sabe como é eu tô ferrado. Ferrado no amor, ferrado no dinheiro, ferrado com a Net. Sabe, minha vida fodeu geral!
- Sei, que clichê!
- Não é só eu. Quase todos meu amigos tão fodidos, o povo do cinema tá doido pra vender a alma e ganhar uns trocos a mais para pelo menos ter o pacote HBO em casa. O pessoal estava procurando você em todo lugar. Mas ninguém sabe o teu e-mail, teu celular, tua encruzilhada preferida.
- Saquei. Tu tá querendo fazer aquele rolo com sua alma e a dos seus amigos.
- Sim. Só isso. Respondi, me recostando no travesseiro.
- Quer dinheiro? Quer que eu traga seu amor em quinze dias?
- Sim! Sim! Você pode?
- Não vai rolar. Falou pra mim, o Coisa Ruim, com uma cara de tristeza.
- Por que, cara?
- Porque tudo mudou. Olha pra mim! Antes vestia Armani, agora me contento com esse terninho da Renner. As coisas tão fodidas pra mim também.
- Caralho, como assim?
- Nada é mais como antes. Tem gente na terra que me superou. Saca, isso não é uma crônica crítica do Gregório Duvivier. Não é um filme do João Moreira Salles. Não é punheta humanista do GreenPeace ou da LBV. Isso é real. Tem gente com mais recursos que eu por aí. A fila andou. Fazer o que?
- Mas você é o Rei do Inferno. Você é o cara! Tentei animar o pobre diabo.
- Bons tempos que eu era o cara. Era massa ajudar a compor “Sociedade Alternativa” com o Raul e o Paulo ou “Strawberry Fields Forever” com os Beatles ou dar dicas de comportamento para o Charles Manson ou ajudar o Kubitschek e o Niemeyer a erguer Brasília. Falou isso, o Cramulhão, com os olhos marejados olhando para o vazio.
- Então não rola mais nada?!? Porra não tenho mais o que perder! Só tenho esse resto de alma e quero desapegar dela. Apelei já sem paciência pro demo arregão.
- Já ouviu falar do site Enjoei? Vende ela lá! Não tô mais pegando alma nenhuma, mesmo essas almas pouca bosta do pessoal do cinema. Gastei quase tudo com o Lars Von Trier e o Fernando Meirelles. Tô esgotado, mano.
- Nossa. Estava espantado com a deprê do Demo.
- Cê tem um rivotril aí?
Passei um rivotril que estava na cartela do lado da cama. Vi o capeta colocar o comprimido debaixo da longa língua bifurcada. Ele ficou em silêncio por uns instantes e, finalmente, olhou de novo para mim.
- Saca amor?
- Amor?
- Sim. Amor. Pegada. Cheirinho no cangote. Filme com pipoca. Rala e rola.
- Sei.
- Faz falta, véio.
- Mas, você é o Rei. E as putas do inferno?
- Tudo caída, mano. Só sobrou bagulho. Hoje qualquer vagaba gostosa se salva fazendo caridade pra Unicef. Tá foda. Falou isso com os lábios negros tremendo.
- Então, não vai rolar pacto nenhum? É isso?
- Lamento, Edu. Mas, vou te ficar devendo. Tem um cigarro aí o meu acabou, você viu pra quanto foi o preço do Marlboro?!?
Passei um cigarro que o tinhoso acendeu com o dedo. O Demo ficou ali parado, na beira da cama, fumando. Tive pena do Canhoto. Até pensei em oferecer a alma da minha vizinha filha da puta que tem aqueles cachorros barulhentos, mas desisti. Finalmente, o Diabo terminou o cigarro e engoliu a bituca, daí olhou, novamente, para mim.
- Edu, posso te pedir um favor?
- Sim... Sim... pode. Eu estva surpreso com isso, tinha que aceitar. Fazer o que?
- Me empresta dez real?
Peguei o dinheiro da carteira que estava na minha calça caída de lado. Passei a grana pro Diabo.
- Valeu, brother. Fico te devendo uma. Vou nessa!
O Capiroto se levantou deu um tchau com as garras e saiu do quarto batendo os cascos. Mas, antes soltou uma bufa que fedia enxofre, só de sacanagem.”
Edu Reginato