O dia em que tudo acabou não parecia um dia propício para fins.
Foi em uma segunda-feira, a semana insistia em me puxar para sua dança esmagadora e algo em mim recusava. Naquele dia acordei em um susto, coração disparado, olhei para a casa vazia, você já não estava mais lá, tudo parecia a precipitação de algo inevitável, mas eu precisava insistir até que me esgotassem as forças, parecia o certo a se fazer, parecia algo que minha mãe faria, e que a mãe da minha mãe também. Uma geração seguida de outra de mulheres que depositaram (quase) tudo em nome do amor.
Eu tentava manter alguma ordem enquanto caminhava dentro daquele lugar que mais parecia um cemitério. Nossa casa, não tão mais nossa assim. Eu achei que se continuasse ali, escolhendo pertencer a um lugar que você rejeitou, você fosse voltar. E de certo você voltou, mas apenas quando eu já não estava mais lá.
Apesar do desejo de permanecer, no meio do meu peito existia algo que insistia em doer, era como uma rachadura que de tanto latejar virou uma incerteza, era uma incerteza pequena mas que desafiava a ordem das coisas, que negava o sacrifício de que tanto ouvi minha mãe falar na infância, ela crescia em momentos como este, e se expandia quando você não me dava nada além de sua ausência.
Essa incerteza foi a única coisa que me sobrou quando naquela manhã, sem nenhum aviso prévio você decidiu que era uma boa hora para pegar todas as suas coisas e me deixar para trás, partida ao meio.
Junto de todas as promessas e palavras que você costumava dizer, letra-por-letra, junto de toda a esperança que você tinha depositado em mim no dia anterior; meu corpo não sabia mais como manter o equilíbrio. Eu cai, e não sabia se um dia seria capaz de levantar novamente.
Algumas coisas parecem irreparáveis, nunca algo pareceu tão irreparável quanto o meu coração depois que te vi indo embora sem olhar pra trás. Não é como se olhar para trás fosse servir de algo, mas eu tive inveja da sua certeza; mais tarde naquele dia, quando eu fui embora, olhei para trás milhares de vezes.