Quinta-feira. Férias. Nove da manhã.
JoĂŁo Pedro e JĂșlia andavam de mĂŁos dadas e trocavam beijinhos enquanto caminhavamos atĂ© o supermercado perto da minha casa. Eu revirei os olhos e ri, ainda era meio estranho enxergar os dois como casal. SĂł uma coisinha que tinha acontecido enquanto eu estava perdida no turbilhĂŁo "OlĂvia e Lucas", meus dois melhores amigos tinham improvavelmente se apaixonado e eu nĂŁo tinha percebido nada, em frangalhos com as suas açÔes impensadas. A ponta da minha trança fazia cĂłcegas no meio das minhas costas.
NĂłs estĂĄvamos vindo da praia, passamos no meu prĂ©dio para tomar um banho e trocar de roupa e agora querĂamos milkshakes. Eu me sentia leve como o barulho que as minhas sandĂĄlias faziam soltas nos meus pĂ©s. O sol estava muito forte nesse dia e tinha aquela sensação esquisita de quem sabia que estava queimado, mas nĂŁo parecia um pimentĂŁo. Pisquei atrĂĄs dos Ăłculos escuros assim que entramos no supermercado perto da minha casa.
- Sabem o que eu vou fazer? - JĂșllia disse, olhando para frente. - Eu vou comprar um pacote gigantesco de Doritos, uma coca-cola e queijo chedar. Vem, amor.
- Ei, e o dinheiro pros milkshakes de vocĂȘ? - Arqueei uma sobrancelha.
- VocĂȘ tĂĄ se sentindo com esses Ăłculos, nĂ©? - JP zombou.
- Toma aqui e para de ser chata.
- Ui, cada um paga o seu, é? Não se fazem mais homens como antigamente. - Balancei a cabeça.
- A culpa nĂŁo Ă© da JĂșlia se ela tem um namorado falido. Vem, vamos pegar as suas porcarias. - JoĂŁo saiu rebocando-a.
Fiquei na fila da lanchonete por pouco tempo, pedi os trĂȘs ovomaltines grandes e esperei encostada no balcĂŁo. Foi quando te vi. Eu mordia a ponta do meu dedĂŁo e travei com a boca aberta. VocĂȘ nĂŁo me viu. Respirei fundo. Estar perto de vocĂȘ, no mesmo ambiente, podia me deixar nervosa, mas nĂŁo me abalava mais. NĂŁo que os sentimentos tivessem morrido, se fosse isso teriamos continuado amigos, mas jĂĄ havia se passado tempo o suficiente para que nĂłs soubessemos como lidar um com o outro.
Era sĂł o meu coração acelerado no peito que me traĂa a cada segundo.
VocĂȘ me viu no mesmo instante que vi JP e JĂșlia voltando. Rezei para que eles andassem rĂĄpido. VocĂȘ tambĂ©m usava Ăłculos escuros e parecia com sono, foi engraçado quando tirou eles do rosto surpreso. VocĂȘ engasgou e sorriu. Eu sorri de volta. VocĂȘ foi embora.
A questĂŁo toda sobre nĂłs dois, Lucas, Ă© que amar nunca seria suficiente. Se vocĂȘ acredita em almas gĂȘmeas, podemos dizer que definitivamente nĂŁo somos um do outro. O tanto que eu espero de alguĂ©m que fique comigo a vida toda, vocĂȘ nunca poderia me dar. A liberdade que vocĂȘ sempre roubou de todos, eu nĂŁo te deixaria levar, eu te conheço demais. Talvez tenha sido a verdade nua e crua com que nos mostramos um ao outro que nos fez apaixonar. Eu nunca agi para vocĂȘ gostar de mim. E vocĂȘ nunca agiu para me fazer gostar de vocĂȘ.
Obrigada por me fazer amar vocĂȘ sem nenhuma amarra.
Obrigada por nunca ter mentido sobre quem vocĂȘ era.
Nosso amor nĂŁo Ă© para essa vida, mas obrigada por ter me mostrado ele.
Obrigada, Lucas.
Eu amo vocĂȘ, de verdade.
Terça. Recuperação final. Quatro da tarde.
Fica porque eu sei viver sem vocĂȘ. Eu sĂł nĂŁo quero.
Eu estava pĂ©ssimo. Meu cabelo grudava no meu rosto como se eu nĂŁo tomasse banho a meses, a blusa da farda parecia pesar uma tonelada e eu sĂł queria hibernar atĂ© minha prĂłxima prova no dia seguinte. Nada que me impedisse de atravessar uns quarteirĂ”es atrĂĄs de um mercado com sorveteria. O sol machucou meus olhos e as lĂąmpadas fluorescentes nĂŁo eram muito melhores, estava frio dentro do supermercado e lembrei de vocĂȘ. Dos seus casacos exageradamente grandes e pele muito branca.
Fica porque preciso dessa tua acidez.
Terminei com a Fernanda. Seis meses de namoro em 15 minutos. Ela nĂŁo chorou, ainda bem. NĂŁo contei do nosso beijo, mas imaginei que ela soubesse de alguma forma. Me importava com a Nanda, o suficiente para nĂŁo prendĂȘ-la num relacionamento de mĂŁo Ășnica. A garota nĂŁo era meu estepe. Tenho quase certeza que essa realização foi influĂȘncia sua. Pedi o maior milkshake possĂvel.
Fica porque sou apaixonado por vocĂȘ, OlĂvia. Por vocĂȘ inteira.
Eu tinha esses pensamentos. O tempo todo, sem aviso. Eu estava me concentrando em algo e aĂ vocĂȘ surgia. VocĂȘ e todas as coisas que nĂŁo te disse. VocĂȘ e sua avalanche de acusaçÔes, verdades, seu ritmo rĂĄpido demais pra mim, o jeito dos seus lĂĄbios sempre que vocĂȘ fala, seus dedos retorcidos dos pĂ©s. Eu e o tanto que te amo.
Fica porque o que sinto por vocĂȘ Ă© verdadeiro.
Eu sei que Ă©.
Vi vocĂȘ chegar. O cabelo loiro preso num coque, usando chinelos e um dos jĂĄ mencionados casacos enormes. Analisei sua silhueta de dentes cerrados. Senti a minha boca suja de sorvete, mas nĂŁo consegui fazer nada, tive medo de acabar chamando vocĂȘ. Quando me viu, vocĂȘ arqueou as sobrancelhas e percebi suas mĂŁos apertarem o balcĂŁo. VocĂȘ acenou com a cabeça, fiz um sinal para que viesse se sentar comigo.
- Oi.
- Oi.
- Sua boca estĂĄ suja de sorvete.
- Estou reunindo concentração para limpar.
- Lucas, vocĂȘ tem algo para me dizer? - VocĂȘ suspirou.
- Achei que tinha. NĂŁo sei mais.
- Ătimo. Lucas, eu tenho mais o que fazer.
- Ătimo. NĂŁo Ă© como se vocĂȘ fosse me deixar falar de qualquer forma.
- Pare com isso.
- O que? VocĂȘ simplesmente desaba informação em cima de mim e eu nĂŁo tenho a chance de fazer o mesmo?
Fica porque Ă© por vocĂȘ inteira. Por todos os detalhes que te fazem ser vocĂȘ.
- AngĂșstia, OlĂvia. VocĂȘ me dĂĄ angĂșstia. VocĂȘ age como se a culpa fosse minha, como se vocĂȘ nĂŁo me provocasse mesmo comigo namorando, como se nĂŁo ficasse irritada sem motivo e precisasse de um enorme ato de cavalheirismo da minha parte. E eu nĂŁo consigo entender a ideia de ficar sem vocĂȘ. Sem conviver com vocĂȘ. Ă real, OlĂvia. Ă no bom e no ruim. Ă que eu te amo com bafo de manhĂŁ e arrumada pra sair no sĂĄbado a noite. Eu adoro nĂŁo ser o suficiente pra vocĂȘ. Adoro a aspereza de como nos conhecemos. NĂŁo tem como nĂŁo amar alguĂ©m depois de se expor desse jeito. Estou pedindo para vocĂȘ me amar de volta. Isso te assusta?
- Muito.
- Imaginei.
- Péssimo timming pra ser sincero.
- Nunca fui nada além disso.
- Eu sei... SĂł.. - VocĂȘ respirou fundo. - O que eu deveria fazer com tudo isso?
- Fica.