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Felizes para sempre - capĂtulo 6
Ship: Lutávio (Luccino/Otávio)
Sumário: Luccino e VirgĂlio vĂŁo para a oficina, sem saber que Otávio está lá, esperando que Luccino volte.
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CapĂtulo 6 - Seu escudo, sua espada
- Vamos! Ande! Ande!
- Estou indo! – Luccino exclamou, continuando a andar em direção Ă sua oficina. Eles já estavam prĂłximos do local, o que o deixava mais tenso. VirgĂlio mantinha suas mĂŁos amarradas e a arma contra suas costas, e Luccino simplesmente nĂŁo conseguia evitar o tremor de seu corpo, suas pernas fracas e seus olhos cheios de lágrimas.
Ele nem sabia se aquilo era medo do que VirgĂlio poderia fazer, raiva de ter sido um alvo tĂŁo fácil, dor pelas pancadas que tinha recebido, ou tristeza de ter deixado seu irmĂŁo se levar para um caminho tĂŁo horrĂvel.
Ele nĂŁo conseguia parar de se culpar.
Talvez se ele tivesse esquecido a histĂłria de fazer dinheiro sozinho, deixado de lado sua paixĂŁo pela mecânica e ido trabalhar com seu pai e seu irmĂŁo, ele teria convencido VirgĂlio a desistir de ajudar Xavier. Talvez ele teria crescido de maneira com que VirgĂlio o respeitasse, aceitasse suas ideias, sua ajuda. Talvez ele pudesse ter concertado a famĂlia, convencido Fani e Ernesto a ficarem, e tudo agora estivesse bem, com todos eles em casa, com seu pai vivo e todos felizes.
Talvez tudo aquilo realmente fosse culpa dele. De ter ajudado o coronel a fazer justiça com as próprias mãos. De ter convencido Mariana a seguir fazendo o que queria. De ter ajudado Ernesto com seu sonho, e convencido Fani a voltar. No fim, quase todos se não todos sofreram pelas escolhas que Luccino fez tentando ajuda-los.
E agora, se ele nĂŁo ajudasse VirgĂlio a fugir, mais uma pessoa sofreria por conta de suas decisões de bancar o herĂłi.
Dessa vez, ele nĂŁo tinha a possibilidade de dizer nĂŁo.
- Pare! – VirgĂlio exclamou, num sussurro gritado, e segurou Luccino para trás, cobrindo sua boca. Foi entĂŁo que Luccino foi cortado de seus devaneios e prestou atenção Ă sua frente.
Lá estavam, a poucos metros da oficina. Só que ela estava com as luzes ligadas, embora fechada. E Luccino não se lembrava de ter deixado as luzes ligadas a um dia atrás.
O que significava que...
- VocĂŞ nĂŁo me disse que teria alguĂ©m na oficina, seu desgraçado – VirgĂlio grunhiu, empurrando Luccino contra uma árvore e segurando a gola de sua camisa. Luccino gemeu baixo, suas costas ardendo de dor, seus olhos se fechando e derramando novas lágrimas.
- E-eu nĂŁo sabia, VirgĂlio por favor – ele implorou, baixinho, abrindo seus olhos com medo da reação do irmĂŁo. – Eu... eu vou lá, mando quem for sair e aĂ nĂłs saĂmos, por favor, eu juro que eu nĂŁo sabia que tinha alguĂ©m lá!
- ... faça isso – VirgĂlio disse, segurando a arma contra a testa de Luccino enquanto desamarrava suas mĂŁos. – Eu vou ficar de olho na entrada da oficina. Se vocĂŞ ou quem quer que esteja lá dentro tentar qualquer coisa, eu vou atirar, e matar a todos, entendeu?!
- S-sim – ele murmurou, olhando para VirgĂlio, que acenou e mandou que andasse. Luccino lentamente se virou, ainda com a sensação da arma apontando para suas costas, e limpou a face cheia de lágrimas, caminhando lentamente atĂ© a oficina e pegando sua chave em se bolso.
Ele abriu a porta, entrou e a fechou de novo, com medo que vissem VirgĂlio e aquilo provocasse um alvoroço. Depois de entrar, sentiu seu corpo relaxar um pouco, mesmo sem nem checar quem estava ali dentro, todos os seus mĂşsculos doendo e seus olhos ardendo com novas lágrimas, dessa vez de desespero.
Tudo o que Luccino queria era sair pelas portas de trás e fugir, correr atĂ© a delegacia e fazer queixa de que VirgĂlio estava vivo e perambulando pela mata. Mas a ameaça que ele tinha feito ainda parecia muito real.
Se ele entregasse VirgĂlio Ă polĂcia, e eles nĂŁo o encontrassem atĂ© a prĂłxima noite, todos os seus amigos estariam em perigo. E dessa vez nĂŁo haveria acordo que apaziguaria VirgĂlio.
Mesmo sem querer, Luccino sentiu um soluço sair de sua boca e ele segurou firme na porta de madeira, o movimento fazendo com que seu corpo inteiro doesse, o fazendo soluçar mais. Ele já tinha até esquecido que havia supostamente alguém dentro da oficina, se deixando chorar um pouco mais enquanto tinha tempo, antes de voltar para fora e ir até São Paulo.
Foi entĂŁo que alguĂ©m colocou a mĂŁo sobre seu ombro, e Luccino se virou assustado, com medo que fosse o prĂłprio VirgĂlio que tivesse entrado.
Mas ele estava muito, muito errado.
- Luccino? – Otávio perguntou, ainda segurando seu ombro, seu semblante de preocupação de agravando mais a cada segundo conforme olhava para Luccino. – Aonde você estava?
Luccino se viu incapaz de responder Ă quela pergunta. NĂŁo porque queria mentir, mas porque o alĂvio que ver Otávio o proporcionou sĂł o fez querer chorar mais. Sem qualquer explicação, Luccino soluçou alto e abraçou Otávio com todas as suas forças, soluçando contra seu pescoço enquanto se escondia contra ele como uma criança assustada.
Seus soluços eram altos, mesmo contra o ombro de Otávio, mas o major nĂŁo sabia como se portar naquele momento. Parecia o dia da morte de Gaetano tudo de novo. Otávio abraçou Luccino como podia, o puxando para perto e lentamente se movimentando para o carro, guiando seus passos e acariciando seus cabelos. Ao perceber que Luccino sequer tinha condição de subir os degraus do carro, Otávio andou atĂ© a mesa de trabalho de Luccino, empurrando os utensĂlios para o lado e colocando Luccino sobre ela do jeito mais delicado possĂvel.
Os braços de Luccino se encaixaram ao redor dos ombros de Otávio e ele se aproximou mais ainda, abraçando sua cintura e deixando Luccino chorar contra seu ombro enquanto fazia carinhos em suas costas, seu coração desparado, cheio de preocupações.
Aos poucos, os soluços foram diminuindo, e Otávio suspirou, se afastando um pouco e segurando a face do mecânico em suas mãos, afagando suas bochechas e limpando suas lágrimas.
- Luccino, por favor, me conte o que está acontecendo – ele murmurou, preocupado, seus olhos focando nas marcas em suas bochechas – Quem fez isso? O que aconteceu?
Foi então que, agora mais calmo, Luccino se lembrou porque estava ali. E o mais importante, o que estava fora daquela oficina. O desespero se instaurou de novo dentro de si e Luccino negou com a cabeça, empurrando Otávio e se levantando da mesa.
- Otávio, você... você tem que ir embora. Agora – ele falou, baixo, puxando o major pela mão para a porta dos fundos. – Por favor, vá embora.
- Luccino... Luccino espere – ele parou, segurando a mão do mecânico – O que está acontecendo? Você está chorando, claramente desesperado, cheio de machucados no rosto, e agora está me pedindo para ir embora?
- Otávio, eu juro que eu te explico outra hora. Mas vocĂŞ tem que sair daqui o mais rápido possĂvel! – Luccino retrucou, secando as lágrimas em seu rosto. – Por favor.
- Luccino, se vocĂŞ nĂŁo me explicar exatamente o que está acontecendo, eu nĂŁo vou sair daqui – Otávio disse, sĂ©rio e firme, e Luccino sentiu um misto de medo e de alĂvio que ele nĂŁo conseguia entender. Era tĂŁo forte que seus olhos lacrimejaram mais uma vez, e ele balançou a cabeça, fazendo o major ficar ainda mais preocupado. Tanto que ele se aproximou, secando suas novas lágrimas e segurando seu rosto, delicadamente. – Por favor, me conte.
- Eu não posso... – ele murmurou, fechando seus olhos e se inclinando para frente, até que suas testas estivessem se tocando. Otávio ainda o assistia, olhos bem abertos e atentos. – Não agora... você tem que ir embora... logo. Por favor.
- Eu nĂŁo vou te deixar sozinho nesse estado – Otávio insistiu, acariciando seu rosto e gentilmente movendo seu nariz contra o de Luccino, o fazendo no mĂnimo sorrir fracamente.
- Não mereço alguém assim – Luccino murmurou, abrindo seus olhos e sentindo se corpo fraco, como se agora que estava com Otávio, ele já não precisasse mais ser forte – Eu só te trago problemas...
- Você só me traz alegria – Otávio sussurrou, movendo uma de suas mãos para a cintura de Luccino. – Agora me conte. Fale o que tanto te aflige. O que está acontecendo?
- O seu tempo acabou – uma voz de fora se fez ouvir, e Luccino sentiu seu corpo congelar enquanto Otávio se virava para a porta da oficina, se mantendo inteiramente na frente de Luccino enquanto VirgĂlio chutava a porta e entrava, segurando a arma em direção a eles. – Ah... major Otávio... entĂŁo era vocĂŞ que estava de tocaia na oficina...
- VirgĂlio... – Otávio respondeu, franzindo as sobrancelhas. – VocĂŞ ainda está no Vale.
- VirgĂlio, VirgĂlio nĂŁo Ă© nada do que vocĂŞ está pensando, o-o Otávio já estava de saĂda! – Luccino exclamou, cheio de medo, puxando Otávio para trás, mas ele nĂŁo se mexeu. – Otávio, por favor!
- VocĂŞ deveria ouvir o desgraçado e sair daqui – VirgĂlio grunhiu, puxando o tambor da arma. Luccino sentiu todos os seus sentidos dispararem e ele tentou ir para frente de Otávio, mas o major o segurou atrás de si, sua postura firme e sem qualquer hesitação.
- Eu não vou a lugar nenhum – Otávio falou, alto e claro. – E você só sai daqui direto para a cadeia.
  - Eu nunca vou conseguir dormir! – Mariana gritou contra o travesseiro, enquanto Brandão suspirava e se virava para encarar sua esposa.
- E você quer fazer o que? O oposto do que disse a todos e sair procurando no meio do breu e escuridão? – ele perguntou, fazendo com que Mariana grunhisse e balançasse a cabeça.
- Eu não sei o que queria fazer! Só sei que eu não queria que Luccino tivesse sumido, e muito menos que Otávio ficasse... como ele ficou! – ela reclamou, o olhando. Brandão arqueou uma sobrancelha, parecendo muito calmo.
- O major me parecia muito bem quando o deixamos na bifurcação do Vale – ele retrucou, curioso. Mariana balançou a cabeça.
- Só parecia... tanto eu quanto você o conhecemos muito bem. Ele estava quieto, preocupado, e agora deve estar por ai, perambulando sozinho pela mata a procura de Luccino – ela suspirou, fechando os olhos e depois os abrindo de novo. – Será que... não podemos pelo menos ir checar na oficina mais uma vez? Só para termos certeza que ele está sumido?
- Nós já estamos trocados, prestes a dormir! – Brandão reclamou, e Mariana franziu as sobrancelhas.
- E desde quando dormir é mais importante que a segurança de nossos amigos?!
- Desde que não haja nenhum perigo eminente! Mariana! É mais provável que eu e você nos machuquemos andando por aà do que alguma coisa realmente ter acontecido com Luccino! Agora, vamos dormir, e amanhã tudo ficará bem! – ele disse, decidido, e se virou, puxando as cobertas e fechando os olhos. Mariana bufou atrás dele, e se virou para o lado contrário, colocando a mão sobre sua barriga e sentindo um calafrio passar por seu corpo.
Algo estava errado. Ela podia sentir.
  - LĂdia! O que Ă© isso?! – OfĂ©lia gritou ao chegar na cozinha, vendo tudo bagunçado e sujo. Ao entrar na sala de jantar, viu LĂdia e Randolfo se deliciando em uma torta de carne que tinham preparado.
- Ora mamazita, depois de sua desfeita com nosso amigo Luccino, eu disse que faria greve de almoços, mas nĂŁo de jantares – ela disse, comendo um pedaço enorme da torta enquanto CecĂlia e RĂ´mulo os observavam, rindo baixo. – E como nĂŁo comi nada, eu e Ran Ran preparamos uma bela torta para nos deliciarmos.
- Está linda mesmo – Romulo concordou, e os recém casados sorriram.
- M-m-muito obrig-gado – Randolfo agradeceu, e Ofélia suspirou, dramaticamente.
- Bom eu vou tomar um banho e ir dormir. NĂŁo tenho paciĂŞncia pra essas coisas de grávida – ela acenou e saiu, enquanto Romulo e CecĂlia se colocaram Ă mesa, seu bebĂŞ no bercinho da sala, logo ao lado.
- E entĂŁo? Luccino voltou depois daquela confusĂŁo? – LĂdia perguntou, e CecĂlia sorriu.
- NĂŁo achei que estivesse realmente preocupada, irmĂŁzinha – ela riu, e LĂdia franziu as sobrancelhas, ofendida.
- Claro que estou! Luccino Ă© amigo da nossa famĂlia desde sempre, melhor amigo da Mariana e uma Ăłtima pessoa! Claro que estou preocupada!
- Bom... Na verdade ele nĂŁo voltou – Romulo disse, olhando para CecĂlia. – Acharam a boina dele no rio, mas sem sinal dele.
- O-o-o que? – Randolfo perguntou, preocupado, e os três olharam para ele. – L-L-Luccino está su-sumido?
- Sim. A polĂcia vai investigar mais de perto, mas todos acham que ele deve estar se escondendo por um tempo – Romulo assentiu, antes de franzir as sobrancelhas. – Eu entendo que seja algo complicado, mas nĂŁo uma atitude um tanto... exagerada?
- E-e-eu nĂŁo a-acho – Randolfo disse, imediatamente se levantando e surpreendendo a todos. – C-c-com licença minha f-flor, mas eu pre-pre-preciso ir – adicionou, sem mais delongas, beijando a cabeça de LĂdia e se curvando para Romulo e CecĂlia – C-c-com licença.
Ele pegou suas coisas, e saiu da casa quase correndo, deixando LĂdia com uma cara surpresa, enquanto CecĂlia olhava para a porta preocupada.
- Eu acho que ele está mesmo preocupado com o Luccino – ela murmurou, enquanto LĂdia bufou e cruzou os braços.
- Primeiro o Tatá, agora o Randolfo! O que o Luccino tem de tĂŁo incrĂvel pra roubar todos os homens de mim?!
- LĂdia! – CecĂlia riu, e Romulo a acompanhou, enquanto LĂdia voltava sua atenção para a torta Ă sua frente.



