este ano, percebi que caminhei repetidas vezes pelo vale da sombra da morte.
houve dias em que temi pela minha própria vida, uma vida que eu mesma deixei em constante estado de alerta. tirei a armadura, expus a fragilidade que por tanto tempo escondi nas entrelinhas do silêncio. aquilo que eu tentava sufocar ganhou voz. e agora, já não suporta mais o peso de ser ignorado: clama, com todas as forças que lhe restam, por misericórdia.
eu amei tanto que me destruí. amei além do limite, além do cuidado comigo, além do que era seguro. amei até sobrar apenas estilhaços. e quando percebi o que havia feito comigo mesma, senti nojo — não do outro, mas de mim. nojo por ter me anulado, por ter aceitado migalhas achando que eram afeto, por ter confundido dor com entrega.
doeu perceber que eu não sou tão importante quanto pensei. que a minha presença não foi essencial. que a minha ausência não causou falta. eu me vi tentando justificar o injustificável, insistindo onde não havia reciprocidade, esperando onde não havia permanência. e foi ali que entendi: eu não valho a insistência de quem não sabe ficar.
não sou prioridade onde precisei implorar por atenção. não sou amor onde precisei me diminuir para caber. no fim, me senti vazia, pequena, descartável — como se eu não fosse nada além do que existe nesse espaço oco que ficou depois. um espaço onde o amor não ficou, mas a dor se acomodou sem pedir licença.