Fichamento 01 | Por Émerson Rodrigues
A numeracia e a formação dos jornalistas - Susana Pereira, José Azevedo, António Machiavelo
Introdução
Os autores iniciam a discussão destacando a dificuldade dos profissionais da comunicação em utilizar a matemática na produção de notícias. Eles lembram ainda que o uso da matemática é fundamental tanto em contextos cotidianos quanto profissionais, destacando que a numeracia é uma das dez competências essenciais no exercício da profissão de jornalista.
Pereira, Azevedo e Machiavelo pontuam que o uso da matemática nas matérias jornalísticas é essencial para dar credibilidade ao que se está sendo discutido, o que dar mais confiança aos leitores que estão lendo aquela notícia. Os erros matemáticos cometidos pelos profissionais da imprensa em suas respectivas notícias e reportagens, no entanto, são um problema grave da falta de contato de nossa profissão com os números - algo que, em parte, ocorre desde o período de faculdade. Os erros também podem ser associados ao curto espaço de tempo para elaboração da matéria e à pirâmide invertida.
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Metodologia e desenho de investigação
Para discutir o tema, os autores do artigo aqui fichado fizeram um estudo com 53 pessoas, no ano letivo 2012/2013. Ao todo, 26 alunos da turma do 3º ano da vertente de jornalismo e 27 alunos de uma das turmas do 1º ano.
Para aplicação no estudo desenvolveu-se o inquérito por questionário “A Matemática nas notícias de jornais portugueses” utilizando excertos de notícias de jornal. Depois de validado, o questionário foi utilizado para recolher dados quantitativos sobre a capacidade de adaptar as competências de identificação e correção de erros matemáticos ao contexto de notícias. Desenvolveram-se oito questões, seis das quais com erros matemáticos e duas sem erros.
Resultados
Os resultados da análise da numeracia dos alunos participantes apresentam-se em três partes. Primeiro faz-se uma caracterização dos alunos incluindo informação sociodemográfica e opções acadêmicas. Em um segundo momento, apresentam-se os dados referentes ao desempenho dos alunos com base em três níveis diferentes de conhecimento matemático — identificação da existência de erro, descrição do erro e sugestão de correção. Por fim, foram expostos os dados referentes ao desempenho dos alunos no teste.
Quando analisado as respostas dos estudantes quanto a existência de erros, identificação de erros e correção dos mesmos, os pesquisadores descobriram que a proporção de respostas corretas, no que se refere a existência ou não de erros varia muito de acordo com a pergunta.
Por exemplo, apenas 5,7% dos indivíduos concluíram, corretamente, que existe um erro na pergunta 6 e, por sua vez, 58,5% referiram não existir erro na número 4 que, de fato, não apresentava erros. Para os pesquisadores isso pode ser resultado do fato da maioria dos inquiridos ter respondido “Não” ou “Não sei” a todas as questões nas quais se solicitava para verificar se existia algum erro, o que pode ajudar a justificar a elevada proporção de respostas corretas quanto à existência de erro na pergunta 4.
Os dados da primeira tabela permitem ainda observar que existiu uma clara dificuldade dos indivíduos na identificação correta dos erros que efetivamente existem nas perguntas, já que em qualquer uma delas, são menos de 25% os alunos que identificam corretamente de que erro se trata.
Há ainda uma grande diferença entre a percentagem de alunos que afirmou existir erro numa determinada questão (naqueles que tinham algum erro) e a proporção de indivíduos que foram capazes de identificar corretamente de que erro se tratava. A pesquisa apontou, porém, que aqueles que conseguiram identificar os erros, em sua maioria, conseguiu corrigir as porcentagens, o que sugere que eles tinham competências matemáticas adequadas para retificar os erros, indicando também que possuem um conhecimento aprofundado do conceito ou processo envolvido.
Dos 53 indivíduos que participaram da pesquisa, 22 corrigiram algum erro nas questões. Destes alunos, dois corrigiram erros em três das oito questões e seis corrigiram os erros em duas delas. Os 14 participantes restantes apenas corrigiram o erro em um dos oito questionamentos.
Embora não seja estatisticamente significativa a diferença entre alunos de estudaram Matemáticas e suas Tecnologias e Artes Visuais © de uma forma mais aprofundada no Ensino Médio e alunos que estudaram com maior aprofundamento as Ciências Humanas (H), aqui em consideração uma diferença era expectável na medida em que os alunos que frequentaram formação na área C têm uma maior componente curricular de matemática do que os outros, onde ela é residual.
No entanto, deve salientar-se que as competências necessárias para responder corretamente às questões colocadas não requerem conhecimentos mais complexos do que os que são abordados no ensino básico. Este aspecto sugere que as diferenças de desempenho entre os alunos que optaram por uma área ou por outra no ensino secundário se podem dever à regularidade com que utilizam os conhecimentos matemáticos adquiridos no ensino básico — enquanto os alunos da área de Ciências e Tecnologias ou Ciências Socioeconômicas reforçam aprendizagens previamente assimiladas no ensino básico, isso não ocorre de forma tão consistente com os alunos de Línguas e Humanidades ou Artes Visuais.
Além disso, os dados permitem ainda verificar que as aprendizagens ao longo do curso não contribuíram para uma melhoria do nível de numeracia dos adultos.
Discussões e conclusões
Por fim, após analisar os dados da pesquisa, os autores concluem que o nível de conhecimentos matemáticos por parte dos participantes da pesquisa é inferior às necessidades da profissão de jornalista. Pereira, Azevedo e Machiavelo se mostram ainda preocupados com a não melhora dos níveis de competências matemáticas dos estudantes ao longo do ano, indicando que a faculdade de comunicação não educa neste sentido. Assim, os pesquisadores concordam que existe uma falta de investimento na formação em matemática nos cursos de jornalismo.
Para os autores da pesquisa, o fato mais relevante para a diferenciação entre sujeitos que participaram da pesquisa parece ser a sua formação do ensino secundário, uma vez que que o desempenho global dos questionados no teste foi superior entre aqueles que optaram pela formação em Ciências e Tecnologias ou Ciências Socioeconômicas no ensino secundário (ensino médio e fundamental), isto é. que possuíam uma maior formação na área da matemática. O resultado, assim, destaca a importância da formação geral na área das competências quantitativas.
Referências:
AZEVEDO, J.; MACHIAVELO, A.; PEREIRA, S. A numeracia e a formação de jornalistas. Prisma.com











