Lena era uma adolescente feliz, empolgada com todas as possibilidades que o mundo oferecia: as primeiras paqueras, as amizades, shows das suas bandas preferidas. Tinha também suas inseguranças, como qualquer jovem com 14 anos. Super apaixonada por tendências da moda, seu estilo era sua marca. O segredo era a visita aos brechós, onde encontrava peças personalizáveis. Um dia, numa dessas visitas, viu um anel que chamou sua atenção, com uma pedra oval furta-cor. Se lembrou de uma foto antiga de sua mãe com um anel parecido, na década de 1990. A pedra mudaria de cor conforme a emoção ou o humor da pessoa que o usava. "Esse anel vai ficar ótimo com meu look", pensou, levando a mão diretamente à caixa, que se fechou antes que ela pudesse alcançá-lo. "Não está à venda", disse a vendedora, pegando a caixa e colocando-a atrás do balcão.
Decida a ter aquela peça única, Lena esperou que a vendedora saísse para o almoço, deixando apenas uma auxiliar na loja. Com muito carisma, ela se apresentou: "Olá, tudo bem, eu sou a Lena. A Maria deixou para mim um anel reservado aí no balcão, fiquei de passar aqui para pegar e pagar." A auxiliar, sem saber de nada, entregou a peça.
Ao colocar o anel, Lena sentiu uma euforia, uma certeza sobre si mesma que nunca antes tinha sentido. Podia realmente fazer o que quisesse. Ela não sabia, mas não tinha adquirido um anel qualquer, e, sim, um anel mágico. Ele não mudava de cor conforme a emoção da pessoa. Na verdade, potencializava o seu sentimento mil vezes, não de uma forma linear, mas caótica, sem que a pessoa tivesse qualquer controle. Naquela semana, envolta por essa energia, Lena venceu a eleição do grêmio, tirou nota máxima na apresentação de seu trabalho que estava deixando-a aflita, criou a Semana de Moda no colégio, começou a namorar com Rafa, reatou sua amizade com Gabi e fez amizade com todos os novos amigos da amiga.
Passados alguns dias, contudo, tudo começou a ruir rapidamente. Parecia que um vulcão borbulhava em seu peito. Uma raiva incontrolável e caótica que precisava ser liberada de alguma forma surgiu. Brigou com praticamente todos à sua volta. Na terceira semana, toda a fúria deu lugar a uma total falta de energia. Simplesmente não conseguia sair de casa.
Deitada em sua cama, ela olhava sua própria imagem refletida no espelho, tentando entender tudo que estava acontecendo, quando um raio de luz bateu no anel e o fez brilhar. Lena lembrou-se de que não deveria tê-lo comprado e, decidida a entender o que estava ocorrendo, reuniu o máximo de vontade que podia e foi novamente ao brechó. Ao chegar, a vendedora logo a reconheceu:
“Sua menina, eu te falei que o anel não estava à venda, não era à toa", disse Maria enquanto pegava uma garrafa com várias ervas imersas numa solução gosmenta, despejando o conteúdo num tacho de cobre. Sem pedir permissão, pegou a mão de Lena e a enfiou no tacho, conseguindo, enfim, tirar o anel.
Bastou que ele saísse de seu dedo e Lena se sentiu mais leve... Mas, sabia que aquilo a transformara. Por toda a sua vida, teria que enfrentar os altos e baixos de suas emoções, sem contar com a empatia ou a compreensão do mundo.
O Diversos Horizontes é projeto realizado com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura da Prefeitura de Belo Horizonte (Modalidade Fundo).
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