Capítulo 21
-E agora, o que a gente faz? – Pepe perguntou, recuperando o fôlego enquanto o trem se afastava. -Ué, a gente vai pra casa da Ade. – Sick Boy apontou pra uma direção, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Eu não sabia o que tinha acontecido, e eu acho que nem queria saber. Brigamos um pouco até decidirmos que íamos mesmo pra casa da tal da Ade, mas acabamos indo. Fomos até a beira da estrada e começamos a andar até chegarmos em um lugar onde tinha um taxi. -Tu sabe que a gente não precisa ir pra casa dela, né? A gente pode ficar numa pousada, cara. – Marco falou antes de fechar a porta do taxi atrás dele. -Qué isso, Marquito! Eu que fiz a merda e você que ta se doendo? Para com isso, a gente não precisa gastar dinheiro à toa. – Sick Boy, que tava sentado no banco da frente, virou pra tras do com os olhos arregalados. – A gente vai pra Ade. – Virou pra frente de novo e falou em italiano com o cara que tava dirigindo. Bom, pelo que eu tinha entendido ficaríamos no carro por pelo menos uma hora, já que a tal da Ade morava no meio do mato, e tínhamos que pegar uma avenida, A26, que daria quase no fim de Genova, e era lá mesmo que estávamos indo. -É, a gente tá mesmo indo pro fim do mundo. – Pepe reclamou, se encolhendo do meu lado. Cinco pessoas eram pessoas pra caralho, e o menino tava todo quebrado. Coitado. -Po, Pepe, dorme aí que daqui a pouco a gente chega, meu. – Sick Boy falou, inclinando o banco pra trás e se ajeitando pra fazer a mesma coisa. -É, né, não é tu que ta com o braço e a costela quebrada, né, cara... – Falou, mas fechou os olhos, tentando seguir o conselho. Logo os dois estavam dormindo, e Marco ainda olhava pra fora da janela, do meu outro lado, e eu olhando pra frente, já que estava no meio. Acho que ninguém vai ficar normal com ninguém depois dessa porra toda. -Ahn... O que aconteceu com essa tal de Ade? – Perguntei em inglês, pro motorista não ouvir, se fosse uma coisa muito pesada, como o resto da vida do Sick Boy inteira. -Oi? – Marco saiu do transe, e olhou pra mim. -Essa Ade... O que aconteceu entre ela e o Sick? -Acho que a mesma coisa que sempre acontece: ele falou que gostava dela, e depois saiu fora... Sei lá, cara... É o Sick Boy, não da pra ter certeza... Só sei que menina odeia ele. Ela expulsou ele da casa dela à tiros. Eu lembro que ele entrou em choque... Mas ele nunca me disse exatamente o que aconteceu. -Pode crer. – Foi só o que eu consegui dizer. O Sick Boy tinha mesmo algum problema em se abrir com as pessoas. É como se o cara fosse um fantasma do presente, que vive entre nós só nesse momento, o que ele era antes é só um borrão esquisito, tudo que se sabe é lenda, só ele viveu aquilo. Dava pra entender porque o cara conhecia tanta gente e era tão respeitado, apesar de ser um puta babaca, às vezes. Depois de muito tempo naquele carro, o motorista parou e acordou Sick Boy, que tava roncando, já. Quando saímos do carro, eu não conseguia sentir minha perna. Todo o meu corpo doía, e eu achava que stress não era nada, pff. Bem que eu queria voltar praquela época que eu não fazia nada, e só me preocupava com qualquer merda que tava acontecendo... Agora eu preciso me preocupar se eu vou conseguir ficar vivo. Que bizarro. -Tu que vai bater na porta. – Marco disse pra Sick Boy. – Se ela tirar uma arma do bolso, tu que morre primeiro. – Disse rindo, e Sick Boy fez uma cara de bosta pra ele, mas foi até a porta assim mesmo. Pepe estava comigo, eu o apoiava nos meus ombros, e Marco estava com a maleta. Dois toques e a menina abriu a porta. Uma menina branquinha, de cabelos meio castanhos, meio loiros, os olhos escuros e a bochecha rosada, de vestido azul com flores, e um pano no ombro direito, apareceu na porta, e não demorou muito pra dizer alguma coisa. -Ma che cazzo stai facendo qui? – Disse, fechando a cara para Sick Boy. -Oi Ade... Precisamos de um lugar pra ficar por alguns dias... – Ela olhou para Sick Boy, desconfiada. -Por que eu te deixaria ficar aqui, em primeiro lugar? – Ela perguntou, cruzando os braços na frente dele. -Porra, Ade, a gente não pode conversar sobre isso depois? O menino ta com o corpo todo quebrado, e eu sei que tu pode ajudar ele. – Ele falou, jogando o corpo pro lado, apontando pro Pepe. Ela ficou quieta sem dizer nada, por bastante tempo, até falar, com Pepe. -O que aconteceu? -Erh... – Pepe começou a gemer do meu lado. -A gente se meteu nuns problemas, e os caras acabaram descontando nele... – Sick Boy falou, antes que Pepe pudesse se quer pensar em responder. -Tá. – Ela falou dando passagem pra Sick boy, mas segurando o braço dele, quando ele passou por perto. – Mas isso não é pra você. É pra ele. – Ela apontou com a cabeça pro Pepe. Sick Boy assentiu com a cabeça e entrou dentro da casa dela. Marco entrou, e logo depois entrei com Pepe. A casa dela era decorada num tom rosa/salmão, sei lá, cheio de mini flores por todo canto. Art nouveau. Todo arrumadinho. A sala era na frente, e depois tinha um corredor que levava pros outros quartos, era uma casa terra, e bem grande. -Se tu quiser tomar um banho, pode ir ali, viu? – Ela falou pra Pepe quando passamos por ela. Ela pareceu bem amável, nada daquela maluca que tava falando com o Sick Boy, até a voz dela tinha mudado. Pepe disse que ia tomar um banho e eu fui direto pra sala, sentar no sofá... Acho que a primeira coisa macia de verdade que eu já tinha sentado, desde que saí da França... Fechei os olhos e acho que consegui dormir por pelo menos quinze minutos até Marco falar um pouco mais alto. -E agora, o que a gente vai fazer, seu imbecil? – Perguntou pro Sick Boy que tava perto da janela fumando um cigarro. -Pra ser sincero, eu não sei o que fazer... Só sei que não podemos ficar aqui, nem na França, a gente tem que ir prum lugar mais afastado. -Caralho, como que a gente vai fazer isso? -Eu tava pensando em pegar um barco pra Islândia e ficar lá até pensarmos em algo melhor... – Ele falou tragando o cigarro. -Nossa, Sick Boy. Tu percebeu o que tu fez? – Marco disse, levantando do sofá. – Tu acabou com a nossa vida. – Ele apontou pra mim e pro próprio peito. – Tu vai fazer a gente viver correndo daqueles playboyzinhos, nossa vida vai virar o inferno. Tu sabe que eles conhecem um pessoal muito pesado, Sick. – Ele baixou o tom de voz, mas eu já tinha sentado no sofá pra ouvir o que eles tinham pra dizer. -Claro que não. Eu fiz a merda, eles tão putos comigo, eles não acham que vocês tavam esperando que eu fizesse aquilo. Vocês me xingaram pra caralho. -Lógico que não, Sick Boy, tu é trouxa? Eles vão pegar todo mundo que tava junto no complô, tu acha que eles já não sabem que a gente ta aqui, depois daquela confusão no trem? Sick Boy olhou pra baixo, sem saber muito o que pensar. -Cês podiam me explicar o que ta acontecendo, já que vocês tão na minha casa. – Ade apareceu, colocando um prato com pão, manteiga e geleia de uva na mezinha de centro. O dia estava amanhecendo, então a janela era invadida por uns raios laranjas de sol, e iluminava a sala toda, as luzes da casa estavam apagadas. Tava bonito pra caralho. -Basicamente o Sick Boy não cumpriu um trato que ele tinha que cumprir com um pessoal perigoso demais, até pra ele. – Marco explicou e Ade sentou no sofá, do meu lado. -Eu sei que ele trafica, Marco. Eu vendo cogumelo, esqueceu?! Eu não preciso que você fale em código comigo. Até parece que você nunca falou comigo... – Ela falou, com aquela voz fininha dela, mas em tom ríspido, o que a fazia ficar muito bonita. -Ahn... Nesse caso... é... – Marco gaguejou e Sick Boy falou por ele. -Naspolini. – Sick Boy falou em voz alta. A menina levou a mão a boca, como se não acreditasse no que tinha acabado de ouvir. -Meu deus. Eu sempre te disse que você ia se meter num problema, e ia ser a gota d’agua. -Tu não precisa mais cuidar da minha vida, tu sabe? – Ele falou, olhando pra ela sem piscar, e ela olhou pra baixo. -Naspolini é demais pra vocês, e mais ainda pra mim. Eu não quero nenhum tipo de problema com eles. Vou levar vocês pra Suíça de madrugada e vocês se virem, de lá, e nunca mais apareçam aqui. Entendeu? – Ela agora olhava pra todos nós. Sick Boy assentiu com a cabeça, e saiu da casa, assim que ela terminou de falar. Decidi ir pra fora, também, tomar um ar é sempre bom. Peguei meu cigarro e coloquei na boca, enquanto saia da casa pra me dar de cara com um jardim cheio de flores, e umas mais altas, onde tinham umas estátuas de leão, e um pequeno jardim de pedras, onde cresciam os cogumelos, perto de uma das arvores. A terra era bem escura, parecia que a gente tava dentro da floresta da Branca de Neve, eu sei lá. Ou que a qualquer momento o lobo mal ia aparecer naquele lugar e ia acontecer alguma coisa muito terrível. -Tu ta bem, Sick? – Perguntei pra ele, em voz baixa, acendendo meu cigarro. -Tô. – Ele jogou uma pedra que segurava, longe, pro meio do mato. -Quer me contar o que aconteceu? – Perguntei tragando. – Eu to meio perdido aqui... -Naspolini é uma parte da “máfia”... É uma família poderosa que controla as drogas na parte norte da Itália. Nosso mercado era pacífico até eles aparecerem. Eles acabaram com todo o mercado que se recusou a fazer negócio com eles. E no caso, quem tentava fazer o negócio era esse grupinho de meninos que a gente fugiu. – Ele falou, olhando pro sol, que tava bem no horizonte. -E vocês se recusaram a fazer parte do mercado deles? – Perguntei, só pra ter certeza de onde eu tava. -Não exatamente... Esse era o teste pra ver se a gente era “leal” o bastante... – Ele olhou pra mim, fechando um dos olhos, por causa do sol. – É mó complicado esse negócio, tu não precisa te preocupar. -Lógico que preciso, Sick Boy. Agora eu já faço parte disso. – Olhei pra ele, também. -Tudo bem, mas tu vai aprendendo com o tempo, eu acho que ta tudo bem, por enquanto, eles não são tão inteligentes quanto parecem. -Mas uma hora ou outra vão aparecer de novo. – Ele sorriu, sem graça. -Ou então eu paro eles. – Ele jogou, olhando pra frente, outra vez. -Tipo o que, Sick Boy...? – Falei, preocupado, já pensando em alguma coisa pra impedir ele de fazer qualquer merda que ele tinha em mente. -Nada, só uma ideia estúpida. – Ele andou mais pra frente, tirando um beck do bolso e acendendo, em quanto encostava em uma das estátuas do quintal. -Ainda bem que tu sabe. – Falei de onde eu estava. -Mas todos os nossos problemas iam acabar. – Ele olhou pra mim e ofereceu o beck. -Não seja burro. Eu sei que tu não é. – Peguei o beck e traguei. Ele pensou um pouco, e assentiu. Ficamos um tempo em silêncio. A casa toda tava em silêncio. Aposto que os dois já estão dormindo lá dentro, pra variar. Não os culpo. Se não tivesse tão ocupado tentando entender o que tinha acontecido, não conseguiria descansar o bastante. Já estávamos sentados no chão, quando Sick Boy trouxe à tona o assunto que eu já tinha esquecido. -To começando a achar que foi mesmo uma péssima ideia vir pra cá... – Ele falou, abraçando os joelhos. -Por quê? –Eu tava de pernas cruzadas e deitado na grama. -Porque sim, porque essa menina já é louca o suficiente sem motivo, com motivo então é que ele me mata mesmo. -Sem motivo? Hahahaahha tenho certeza que ela tem algum bom motivo pra ela te odiar tanto. -Pior que não tem, velho, to te falando! HAHAHAHA. – Ele riu a risada maníaca e chutou minha coxa com um dos pés. – Quer saber o que aconteceu? – Ele ainda estava rindo. -Lógico! – Virei minha cabeça em direção à ele, e esperei a explicação, tentando conter meu riso. -Acontece que eu namorava com ela, e a gente era o casal junkie do grupo, ta ligado? Ela plantava cogumelo, eu era novo, queria saber, experimentar qualquer coisa, e ela foi quem quis fazer tudo isso comigo. Eu gostava dela pra caralho. – Ele sorriu, enquanto contava. – Mas ela era louca de mais, ciumenta compulsiva, se não tinha droga, ela não ficava bem. Chorava por tudo que é canto, serio. Um dia eu tava na cozinha, tomando água, eu acho, sei lá, e ela tinha acabado de tomar um chá. Não sei o que aconteceu, eu deixei o copo cair no chão, e quebrou tudo! – Ele começou a rir. – Na hora que o copo quebrou, o cachorro dela veio correndo ver o que tinha acontecido, e eu, peguei ele no colo pra não deixar ele se machucar. Aí eu comecei a pegar os vidros do chão. – Ele respirou fundo. – Aí ela apareceu, quando eu tava pegando o primeiro caco, e começou a gritar... Pfff HAHAHAHAHAHAHAA – Ele não conseguia parar de rir, mas respirou fundo e fez uma voz de mulherzinha – “VOCÊ TA LOUCO? VAI MATAR MEU CACHORRO NA MINHA FRENTE? QUAL O SEU PROBLEMA?!” Falou um monte – E ria. –... Mas um monte de merda pra mim. – Ele limpou os olhos que escorriam de tanto chorar de rir. – E não me deixou explicar porra nenhuma. Aí ela pegou uma arma e me atirou pra fora de casa. Eu fui pra casa de um amigo, não sou louco de ficar aqui... – Ele jogou a mão pra traz. – Só que no dia seguinte ela não lembrava disso... Hahahaha Ela achou que eu não queria mais ficar com ela, e tinha abandonado ela do nada, sei lá porque motivo, e acabou brigando comigo do mesmo jeito, porque ela “não achou justo”. – Ele deitou no chão, do meu lado, se contorcendo de tanto rir. -Que horror! – Foi a primeira coisa que veio na minha mente. E todo aquele papo do Marco? Será que ele não sabia que isso tinha acontecido?! – E tu não falou com ela, pra explicar, cara? – Eu também ria, mas achei estranho. -Eu não, tu acha? A menina já tava sequelada e eu não queria continuar aquela vida pra sempre. Eu queria ver o mundo. Uma coisa pra mim é pouco, preciso de mais bagagem no coração, francês. Olhei pra ele, fazia sentido. Ele era do mundo, era livre; ele nunca ia parar porque ele gostava do movimento, do incerto. Assenti com a cabeça. Sabia que ele tinha entendido que eu não o julgava, fazia sentido. As vezes penso em fazer a mesma coisa, mas talvez eu não seja tão corajoso quanto ele, ainda.
Durante o dia não fizemos nada demais, estávamos só de passagem, a Ade não falava com a gente, e a gente não falava com ela. Não era o clima mais confortável, se é que me entendem. Uma vez ou outra alguém ia na cozinha e pegava alguma coisa pra comer, mas só isso. Durante a tarde a Ade foi trabalhar, acho que ela era farmacêutica. Ela disse que quando voltasse ia trazer algumas coisas pra ajudar Pepe a se recuperar. Estávamos assistindo TV quando a notícia passou no jornal, vimos a noticia de que um homem havia sido encontrado na beira do trem, durante a noite, morto à tiros. Nos entreolhamos, sem dizer nada. A reportagem ainda dizia que os documentos da vítima não foram encontrados, nem nenhuma pista do que haverá acontecido lá, mas que a polícia iria continuar as investigações. Claramente não sabem sobre a Máfia. -Viu? Menos a polícia pra gente se preocupar. – Sick Boy sorriu pra gente enquanto batia com o controle da TV na perna. -A polícia era o menor dos problemas, Sick. – Marco falou. – Ainda bem que eles não querem ir pra cadeia o tanto quanto nós, mas quando eles nos encontrarem, não vão se preocupar se a gente morrer. -Isso é verdade. – Comentou Pepe, em voz baixa. -Mas até eles encontrarem a gente, já vamos estar longe. -Tomara, né. Um pouco depois, Ade chegou em casa, e trouxe com ela vários kits de gase, e um monte de coisa, esparadrapo e fitas de engessar, lá. Ela pediu pra ele tirar a camisa e aí sim vimos o quanto ele estava machucado. Os braços estavam cortados e roxos, como se tivessem o batido com algum cinto, ou coisa parecida. O peito, costelas e a barriga roxos e vermelhos, principalmente a costela que estava quebrada. Ela começou pelos cortes no rosto, que se resolviam facilmente com esparadrapos e foi descendo. Já não aguentava ficar naquele lugar. Logo iriamos entrar no carro e nos mandar desse lugar, eu queria fazer pelo menos alguma coisa legal pra esquecer que esse clima chato ta acontecendo. Beber alguma coisa, talvez. Mas a gente não podia fazer isso enquanto não chegássemos na Suíça, eu acho. Fui lá pra fora e acendi um cigarro, esperando a hora de irmos embora. Eu gosto pra caralho de fumar. É como se fosse uma companhia pra quando a gente ta sozinho. O cigarro não fala, não reclama, só fica lá e ajuda a gente a passar pelo momento sem pensar em muita coisa. Ele só... fica lá, junto com a gente. Eu já tava brisando numas coisas muito profundas; meu quarto cigarro, provavelmente, tentando afastar a ideia de perigo que a gente tava enfrentando, quando o Sick chegou do meu lado, junto com Marcos. -E aí, francês, tu ta preparado pra passar 4h30 dentro de um carro? – Ele me deu uma cotovela. -Qualquer melhor vai ser melhor do que aqui, se tu quer saber. Marco riu e concordou com a cabeça. -Pelo menos lá nós vamos poder relaxar um pouco, até pensar em alguma coisa mais consistente. – Sick Boy falou, concordando, também. -Pelo menos tomar algum porre já vai tar de bom tamanho. – Disse Marco, suspirando. -Não esquece que foi com um porre que a gente acabou aqui, hein. – Sick Boy riu, nos fazendo rir, também. -Babaca. – Marco falou, antes de Ade vir até nós. -Vamos, entrem no carro, já ta na hora. Deviam ser 01h20 da manhã quando ela falou isso e nós nos apressamos em entrar no carro, na mesma posição que no taxi: Pepe, eu e Marco, e Sick Boy na frente, com Ade.
O começo da viagem foi a coisa mais tensa que eu já enfrentei. Todo mundo acordado, sem falar nada. Nem o radio estava ligado. Eu queria pegar meu walkman, mas estava tão apertado que eu nunca ia conseguir fazer isso. -Tu sabe que eu me preocupo contigo, Sick. – Ade começou a falar baixo, provavelmente pra nenhum de nós ouvir, mas tava tudo tão quieto que dava pra ouvir, claramente. – Tu tem que parar de fazer merda, Sick. A gente acabou mal, mas eu ainda sinto muito. – Ela disse sem tirar os olhos da estrada, e num tom sem emoção alguma. Sick Boy olhou pra ela, sem entender direito e depois olhou pra mim, provavelmente me perguntando se eu tinha entendido alguma coisa, eu respondi que não com o olhar, e a gente teve problemas em segurar o riso. Depois disso a viagem foi ainda mais estranha, e pareceu uma eternidade até a hora de chegarmos na fronteira da Suíça. -Agora cês vão descer aqui, e eu não quero mais ouvir falar de vocês, ok? – Ade disse enquanto se despedia da gente, saindo do carro. Saímos do carro e ela nos cumprimentou e esperou até que sumíssemos de vista, até arrancar com o carro. -Foi mais fácil do que eu pensei que seria. – Marco comentou em voz alta. Agora Pepe já conseguia andar mais de boa, com tudo devidamente enfaixado no lugar certo. -Vamos nos hospedar numa pousada, ou qualquer coisa assim, pelo menos até amanhecer o dia. Todos concordamos e seguindo a estrada principal caímos numa casa de madeira, onde um cara com barba rala estava sentado na mesa de recepção, arrumando alguns papeis, só a luz da sala dele estava acesa. Era uma casa de dois andares, provavelmente uma pensão. Entramos. -God natt. – Mas é logico que Sick Boy falava sueco, também. O cara do balcão respondeu com um aceno de cabeça – Precisamos de um lugar pra ficar durante a noite, o senhor teria algum lugar aqui? O cara pegou um livro e assentiu, colocando um óculos no rosto. -Temos dois quartos disponíveis no último andar. – Ele olhou por cima dos óculos, nos analisando. – Um com duas camas de solteiro, e um com duas de casal. Podemos ajeitar 20 francos por noite. – Ele colocou de novo o óculos e olhou para Sick. Sick Boy colocou a maleta no chão e enfiou a mão no bolso. Olhou o dinheiro que tinha e voltou a falar com o cara. -Só temos euro, o senhor aceita? Amanha posso tentar trocar em algum lugar. O cara pensou um pouco, e logo respondeu. -Okay... A gente pode fazer 40 euros essa noite e o resto vocês me pagam em francos. Sick Boy concordou e o cara pediu o documento do responsável pelo aluguel do quarto. Decidimos pegar o quarto com duas camas de casal e dormirmos juntos, não tínhamos tanto dinheiro assim, e precisávamos salvar, até conseguirmos mais. -Francês, tu pode assinar pra gente? – Ele me olhou, falando baixo enquanto Marco pegava as chaves do quarto. – Tu sabe, os caras não te conhecem... - Meio sem graça eu assenti com a cabeça e fui lá assinar meu nome. Luc Delcourt e minha assinatura do lado, junto com minha data de nascimento e etc. Pegamos as chaves e fomos pro quarto. -Aí, cês tão afim de sair? – Sick Boy perguntou, quando fechamos a porta do quarto. Marco tinha acabado de entrar no banheiro, mas respondeu de lá mesmo. -Pelo amor de Deus! – Sick sorriu e eu concordei com a cabeça. Precisava pelo menos tomar alguma coisa que comprar outro maço de cigarros. Olhamos para Pepe. -Acho que eu vou ficar aqui, prefiro dormir... Sem contar que alguém precisa ficar aqui pra proteger essa maleta. – Ele falou já puxando as cobertas da cama e abrindo as calças. -Tudo bem. – Sick balançou a cabeça. – Voltamos antes do sol nascer, eu prometo. – E riu. Marco saiu do banheiro e descemos as escadas, parando na recepção, outra vez. -Com licença... O senhor sabe onde tem algum bar aberto, agora? – Sick Boy perguntou como se fosse a coisa mais normal do mundo. O cara coçou a barba. -Um pouco mais pra frente, perto da cidade, pode ser que eles ainda estejam abertos, o Ost Och Vin, mais provavelmente. -Tack. – Sick Boy agradeceu quando saíamos pela mesma porta que entramos. -Onde estamos, afinal? – Perguntei enquanto seguíamos pela estrada, toda escura, mas com o frescor das florestas e algum cheiro de água salgada. Perto do mar, provavelmente. -Tissen, tenho quase certeza. – Respondeu Sick Boy, olhando em volta. Ele provavelmente já viera pra cá. -Pena que não vamos poder aproveitar... – Falei em voz baixa, chutando uma pedrinha, eles concordaram em silêncio. Era horrível saber que estávamos passando por lugares tão bonitos, principalmente pra mim, que nunca saí da França na vida, e tínhamos que correr, não podíamos parar e analisar tudo. Ainda mais aqui que era tão perto da natureza. Nos meus melhores sonhos eu acamparia aqui por um tempo e estudaria a área, veria se posso aprender mais alguma coisa por aqui... Mas claro que esses planos vão ter de ser adiados. Puta que pariu. Depois de uma meia hora andando chegamos à um lugarzinho, algumas mesas do lado de fora estavam ocupadas por gente fumando e comendo um queijo enquanto tomavam vinho, ou qualquer coisa do tipo. Entramos lá dentro. Era tudo dourado e em tons escuros, parecia um lugar mais rustico do que chique, apesar das pessoas que estavam lá dentro dizerem outra coisa. Tava todo mundo bem arrumado e parecia ter dinheiro. Estavam bem mais arrumados do que nós, pelo menos, e do que eu jamais me arrumei em toda minha vida, eu acho. Fiquei com vergonha de entrar lá, já queria desistir, mas... Quem se importa de tomar uma ou duas doses de conhaque suíço, não é? Que se foda. Chegamos no balcão e a mocinha loira que estava limpando alguns copos sorriu pra gente. -Conhaque. – Sussurrei para Sick que pediu três, sem gelo. Brindamos e começamos a tomar algumas, que se tornaram 5 de repente. Estávamos rindo de qualquer história idiota do Sick, quando olhei pro lado e meu corpo travou. A risada nem saiu mais da minha boca. -O que foi, Francês, tu ta bem? – Sick Boy perguntou, acompanhando meu olhar até a menina sentada numa das mesas de fora, fumando um cigarro, sozinha num canto. – Eita, não é aquela sua guriazinha? Marco acompanhou o olhar e balançou a cabeça positivamente. -Chama ela aí. – Comentou. -E-e-eu não... Ela sumiu da última vez que eu fui procurar ela. Não deve tar afim de ser encontrada. -Qualé, a menina te deu uma cesta de recém-casados, Luc, tu precisa pelo menos dar um beijo nela. – Sick Boy me empurrou pra fora da cadeira alta que eu estava sentado. – Vai lá falar com ela. – Ele tava todo bêbado e quase caiu da cadeira, junto comigo. -Como que é essa história, aí? – Marco perguntou e eu não queria ter de explicar. Me virei no balcão e vi se a mocinha tinha algum cigarro pra me arranjar. -Tu vende cigarro? – A moça me olhou, quando eu falei em francês e me respondeu no mais perfeito que tinha ouvido até agora nessa cidade. -Claro. – Ela deu um sorrisinho bonitinho e me entregou um maço qualquer. Menos 12 euros na nossa conta. Puta merda. Fui até lá fora e acendi um cigarro, de pé do outro lado de onde Lua estava. Ela estava com um vestido preto com babados, o cabelo preso enrolado, curtinho, meio caindo para fora. Os olhos bem acesos na luz que refletia de dentro do bar. Parecia uma das modelos que Tissot provavelmente escolheria para pintar – claro que sem todas aquelas roupas quentes e todo aquele requinte, mas o físico e a delicadeza dela por inteiro. Enfiei minha mão no bolso enquanto segurava meu cigarro com a boca e peguei um lápis, abri meu caderno que estava no outro bolso e comecei a rabiscar. Os olhos claros da moça era a parte mais difícil do desenho, já que eu não sabia, de verdade, no que ela estava pensando... Guardei o caderno e voltei a olhá-la, bebericando do meu conhaque. -Noitche boníta, né? – Eu disse em português, pra chamar atenção da menina. Ela olhou pra mim na hora e abriu um sorriso. O mais sincero que eu tinha visto há tempos. -Luc. – Ela fechou os olhos e me chamou para sentar perto dela. – O que faz aqui? – Ela apagou o cigarro, bebendo da taça comprida alguma coisa transparece, com uma azeitona dentro. Algo bem fresco, mesmo. -Sabe como a vida dá voltas e do nada tu aparece num lugar que tu nunca imaginava que viria? – Ela concordou com a cabeça. -Parece que somos dois, então. -Tu ainda ta fazendo as fotos? – Ela olhou para baixo, o olhar mudou, provavelmente um olhar triste. -Sim... Estamos indo pra algum lugar no norte. A poética do meu fotografo tem haver com captar regiões geladas. – Ela sorriu, mexendo a bebida com o dedo. -Olha só... – sorri. Não sabia o que dizer. Parecia que o desconforto de toda a viagem tinha se instalado de novo. – Tu recebeu minha mensagem? – Perguntei mexendo nos meus dedos. -Recebi. – Ela sorriu, olhando para baixo. – Mas eu não tive tempo de responder, meu produtor quis sair correndo... Tu sabe como é. Balancei a cabeça. Se ela quisesse iria vir falar comigo, então. -Não aguento mais essa vida. To pensando em largar tudo e ir pro chile, fazer uma viagem, sozinha. – Ela riu. Provavelmente já estava meio alterada. – Tu deve achar que eu sou louca, mas eu não curto muito essa coisa de ficar viajando pra lugar caro, ficar em hotel caro, com mil pessoas na minha cola... É... sufocante, sabe? – Ela comentou. -Oh se sei... – Pensei no meu próprio drama. Não sei se tava a fim de falar sobre isso. -Então... Nunca quis isso pra minha vida. – Ela girou o copo nas mãos. -E aíiiiiiii gatinha! – Sick Boy chegou falando meio alto e deu um beijo na bochecha da moça que riu e ficou vermelha. -Meu Deus, Sick Boy! – Ela falou, puxando a cadeira pra ele sentar. – Tu já ta bem louco, né? -Ih, criança, eu preciso de muita coisa pra ficar louco. – Ele sorriu pra ela. – Sem contar que nem faz tanto tempo que a gente ta aqui, acabamos de chegar. -Serio? Eu não vi vocês entrando! – Ela acendeu outro cigarro. -Ah, uma hora você ia ver, somos os menos arrumados daqui. – Ele olhou pras nossas roupas, e ela riu, batendo a mão devagar na mesa. -Que se foda! – Ela ainda ria. Ficamos conversando sobre qualquer merda, até Marco entrou na conversa depois de um tempo. -Lola. Let’s go back to the Hotel. We’re supposed to wake up early. – Um cara loiro barbudo com muito gel no cabelo se aproximou e só se dirigiu à ela. Malditos ingleses que acham que são educados, mas são uns babacas engomadinhos. -Okay, Pete. I’ll be there in a minute. – Ela respondeu, curta e grossa, sem nem sequer olhar pro cara. -I’ll get the car. You have 5 minutes. – O cara falou e entrou, outra vez. -Ta vendo o que eu tava te falando, Luc? – Ela rolou os olhos. – Não aguento mais essa coisa de cumprir horários... – Ela suspirou e se levantou. Se despediu da gente e entrou, para pegar o casaco. Fiquei a observando enquanto ela ia até o balcão falar com o cara, que a segurou pela cintura e deu um beijo no rosto dela, enquanto ela dava um sorriso meio amarelo. -Parece que tua garota é compromissada, Francês. – Sick Boy riu, totalmente sem noção. Olhei pra baixo, tentando não pensar mais sobre o assunto. Acendi outro cigarro e ela voltou à nossa mesa, deu um beijo no rosto de cada um dos caras e eu me levantei para cumprimenta-la. Ela abraçou o meu pescoço e me deu um beijo na bochecha, mais longo do que eu esperava. -Se tu quiser, meu hotel é esse... Dessa vez a gente vai poder conversar melhor. – Ela sorriu pra mim, falando em voz baixa e me entregou um papel escrito numa letra cursiva impecável Sunstar Zermatt. Sorri de volta e nos despedimos. O cara veio junto dela e a conduziu pela cintura até o carro, quando ela entrou, ainda acenando para nós. Fiquei olhando-a até o carro sumir no breu.








