Olha ZĂ©, sei que Ă© difĂcil acreditar, mas já fui mais amável, mais gentil, mais sorridente, e atĂ© engraçada. Já fui tĂŁo caridosa e companheira ao ponto de guardar minha dor num potinho pra sentir a dor de um amigo. Já deixei de viver meus planos, sĂł pra me encaixar nos planos de uma outra pessoa. Já dispensei um carinha do colegial, por quem eu morria de amores, ao descobrir que uma amiga compartilhava do mesmo sentimento que eu. Já atĂ© perdi as contas de quantas e quantas vezes sepultei o orgulho e corri atrás de quem nĂŁo merecia. Pode parecer bobagem, mas Ă© que eu nĂŁo suportaria perder alguĂ©m que tanto amo, pra um orgulho idiota. Eu juro que enxergava a vida com mais amor, mais colorida. Eu tinha essa mania boba que minha mĂŁe titulou de “dom” de achar que atĂ© o pior ser humano do planeta, tinha algo bom, escondido, ainda que bem lá no fundo do peito. Eu era aquela amiga que impulsionava o resto da turma a nĂŁo desistir jamais. Sempre cheia de fĂ© e esperança, transbordava otimismo. Eu era aquela que aconselhava melhor, abraçava melhor, nĂŁo abaixava a cabeça, sorria sincero, era forte, e nĂŁo chorava em pĂşblico. Esse era o problema, todos achavam que eu era de ferro, ZĂ©, ninguĂ©m percebia a minha tristeza camuflada num sorriso, ninguĂ©m se importava em perguntar sobre o meu dia, minhas dores, meus medos. Todos me idealizavam invencĂvel. Logo eu, ZĂ©, toda maria -mole, manteiga derretida, chorona de dar dĂł. NinguĂ©m se esforçava em me descobrir, me desvendar. Acontece que eu tambĂ©m tinha problemas, tambĂ©m perdi noites chorando, tambĂ©m fui decepcionada, tambĂ©m tive o coração partido, estraçalhado. Como qualquer outra pessoa, eu tambĂ©m precisei de um abraço. A questĂŁo Ă© que todos estavam ocupados demais me contando dos problemas, chorando em meu colo, pedindo conselhos. NĂŁo Ă© possĂvel que nenhum alma sequer, tenha percebido meus destroços, a menina medrosa, implorando por cuidados. Sempre fui a amiga, a conselheira, a ajudadora, mas nunca o tudo de alguĂ©m. É uma pena nĂŁo terem percebido o barulho que o meu silĂŞncio emitia. VocĂŞ sempre me pĂ´s contra a parede, queria saber o que me motivou a ser tĂŁo fria, coração de granito. Agora já sabe. É que por ter sentido demais, hoje eu nĂŁo sinto mais nada, por ter chorado rios, nĂŁo consigo derramar uma lágrima sequer. Olha pra mim, diz que ao menos vocĂŞ me entende, diz que sente muito pelo que me tornei, mostra que se importa, talvez assim eu ressuscite. Mas se for demais pra vocĂŞ, eu te entendo. Perdoa o caos que eu me tornei, ZĂ©, vocĂŞ nĂŁo Ă© o culpado.
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