houston, we got a problem (dia três).
tw: sangue, morte, violência, álcool.
daemon já tinha pisado em nevermore algumas vezes antes. lembrava-se da inauguração, tinha sido pouco depois de separar-se de warren, seu criador. dirigira até la na esperança de encontrar um pouco mais sobre o artefato deixado para trás depois do assasinato de sua família, e acabara por passar boas semanas até finalmente voltar para a estrada. a escola não mudara muito, e não falava apenas de sua arquitetura. era a mesma história de sempre. uma escola para excluídos que sofria com a pressão de uma cidade de padrões que os odiava. desde a fundação histórias como aquela iam e vinham, bagunças que eram resolvidas pela equipe da escola. as vezes era, propriamente, alguma coisa causada por um excluído. era difícil de controlar crianças, adolescentes e jovens com poderes dos mais variados. o vampiro nem se iludia em tentar controlar. ingressara como professor de universidade na expectativa de poder apenas lecionar e não ter de envolver-se em problemas muito sérios, ter que apartar brigas ou fazer qualquer outra coisa que não…. dar suas aulas. o básico. passar atividades, aplicar provas, arguições surpresas. e pagando sua belíssima língua, lá estava ele, procurando por padrões desaparecidas.
andava pela floresta com o seu cantil em mãos. o tinha desde os vinte anos, e surpreendia-se como conseguira guardar algo consigo por mais de 300 anos. um presente pessoal do rei guilherme iii, ornamentado em prata e ouro. hoje, cheio de whisky. ele bebericou, e continuava andando pela floresta. sua tática de busca envolvia andar e beber, vagando o olhar por algo de estranho que poderia ter por ali. como sangue, pedaços de membros. os últimos dois dias de busca não tinham lhe rendido pistas. até porque, em partes, ele torcia para não encontrar nenhuma e não envolver-se com a problemática. procurava porque gostaria de cair nas boas graças da diretora e dos funcionários, quem sabe até ser visto como um professor responsável. era sonhar demais?
ele respirou e encaminhou-se para onde não tinha procurado ainda, o lago. já estava quase ao fim de seu cantil, o que significava que em cerca de meia hora teria que voltar para nevermore para reabastecer. coçou a cabeça, puramente por hábito, e ia sentar-se em uma rocha para observar o movimento da água por alguns instantes. estava tentando determinar se sentia-se mais entediado ali ou antes. pelo menos antes podia agir irresponsavelmente, não era? sentia falta de qetsiyah. duzentos anos e ainda pensava nela, em armim e em tessália. pareciam memórias distantes, borradas. grande parte das características físicas deles fugiam de sua memória. conseguia lembrar-se do cheiro dos cabelos de tessália invadindo suas narinas. o cheiro das roupas de armim que ficavam em todo canto. lembrava-se da risada de qetsiyah. respirou fundo, contendo um sorriso, e foi quando percebeu que não era o único ali.
era estranho, porque normalmente sentia o cheiro das pessoas antes de propriamente vê-las. era uma habilidade que desenvolvera enquanto vampiro. mas, estranhamente, a garota de costas para si não tinha cheiro, como se estivesse integrada à rocha ou árvore onde se encostava. não emitia sons, suas costas não moviam com sua respiração. os cabelos castanhos tinham folhas presas, e a pele dela estava bastante pálida. suas roupas eram escuras… não. percebeu que o que aparentava ser um tecido vinho, na verdade, eram roupas cinzas embebidas em sangue. ergueu as sobrancelhas, mas não estava chocado. ou assustado. surpreso, quem sabe. e amaldiçoou-se por ter feito a brincadeira mental com corpos desmembrados quando percebeu um espaço vazio onde deveria estar o braço da garota. ele andou mais alguns passos para observá-la de frente; tinha os dois olhos abertos e íris vazias. buscou o celular no próprio bolso.
“weems? we’ve got ourselves a problem.”
















