Viver o momento ou registrar o momento?
Nos dias atuais, o celular virou uma extensão de quem somos. Um amigo, um especialista em todos os assuntos. Até mesmo nossas dúvidas mais profundas entregamos diante de uma tela de vidro.
Domingo fui a uma sessão de cinema no SESC e tive um pequeno choque de realidade: não podia tirar fotos nem gravar nenhuma parte do filme. Bem, acho que até no cinema isso sempre foi regra, nós é que nunca cumprimos.
Aquela sala intimista me fez guardar meu companheiro. No começo foi estranho. A sensação era:
“Como vão ver que estou me divertindo?”
Como vou indicar o filme sem nenhuma imagem para convencer alguém de que realmente vale a pena passar duas horas sentado rindo e refletindo?
Foram duas horas em que, por um momento, esqueci a necessidade de postar tudo em tempo real. Apenas vivi o momento, sentindo as palavras e a imensidão da tela me levando para dentro da história contada.
Sou de uma geração em que a vida acontecia lado a lado. Hoje converso com alguém sem sequer saber como é seu rosto real ou quais são seus gostos fora daquele cenário montado.
A tecnologia nos permitiu chegar a lugares distantes e, ao mesmo tempo, nos tornou distantes de quem éramos.
Observei uma criança irritada com a insistência dos pais em registrar aquele momento feliz em família, enquanto ela apenas queria sentir, correr e sorrir.
Saudades de conseguir correr sem a necessidade de alguém ver.