Saturno estava em Peixes quando eu nasci.
Saturno é o senhor do tempo, das estruturas, da disciplina, da resiliência, da solidez, do controle, da maturidade e do carma.
O signo de Peixes rege águas correntes, fluxo contínuo, entropia e caos.
Peixes fala das coisas sobre as quais não temos controle.
Peixes fala daquelas situações em que só precisamos aceitar o fluxo da vida e ver aonde a correnteza vai levar.
Existe um contrasenso, uma tensão nesse posicionamento.
Estrutura em águas correntes?
Controle de um fluxo incontrolável?
O que eu poderia fazer com isso?
Por muito tempo, tentei construir barragens, represar a água, controlar a correnteza.
Mas todas as barragens sempre cederam ao fluxo implacável da vida.
Por vezes, tentei nadar contra a corrente, só pra ficar exausto no processo e ceder a ela novamente.
Foi então que comecei a me perguntar sobre o que Saturno teria pra me ensinar nesse fluxo caótico e turbulento das águas de Peixes.
Foi aí que eu entendi que, talvez, só talvez, o ensinamento, na verdade, seja sobre parar de lutar contra a correnteza e me deixar levar por ela.
E me deixando levar por ela, talvez eu aprenda a navegar pelo fluxo das águas.
E talvez esteja aí o chamado de Saturno para os dois Peixes ligados por um vínculo inquebrável e nadando em direções opostas.
Há algo de cíclico nessa simbologia, porém, se me deixo levar pela correnteza e aprendo a navegar por elas, a cada vez que o ciclo dos dois peixes nadando em torno um do outro se repetir, ele se repetirá em um ponto totalmente novo do rio, sendo diferente a cada repetição.
Não estou falando de se deixar levar de forma irresponsável ou inconsequente, não, não. Estou falando de aprender a navegar pelas correntes. Esse é o único controle que podemos ter sobre o caos incontrolável.
E essa ideia de aprender a navegar pelas correntes da vida, traz em si, ainda, um senso forte e contínuo de despedida, senso esse que me assombra desde a minha infância.
Sempre tenho essa sensação de que estou me despedindo. De que estou passando pela vida, completamente à mercê da correnteza implacável do Tempo, do Deus Cronos, de Saturno.
E foi aí que eu entendi que a correnteza do rio da vida é o tempo. Essa correnteza não para e não volta atrás. Ela simplesmente flui intermitente, rumo a um destino comum a todos os seres vivos: a Morte.
Mas com isso, não estou subestimando a magia e a beleza dos começos. Apenas cheguei à conclusão de que todo começo, é o começo do fim e, por mais que essa ideia pareça um tanto quanto mórbida, se ressignifcada, pode nos ensinar uma grande lição: a olhar a vida com os olhos de quem que se despede.
Pois quando olhamos algo, como se fosse pela última vez, conseguimos, verdadeiramente, enxergar com os olhos da alma e nos maravilhar o tempo todo.