Pavo, Pavão
Quando sua forma de se virar é ser um farol e ao mesmo tempo um buraco negro, em toda sua juventude supostamente inconsequente, nenhuma reação para suas ações era calculada, pesada ou medida, mas ela sabia. Sabia que viriam, e os aceitava quando chegavam. Construindo e desmoronando pontes, fazendo o que queria, quando queria, da maneira como achava mais conveniente. Acumulando amantes, então enchendo o saco e mandando todo mundo para o inferno. É preciso uma infinidade de olhos chamativos como os de uma cauda de pavão, olhando e sendo olhados, mas sem oferecer suspeitas quando você é a própria distração. É chamativa, colorida, dizem ter os pés longe do chão, sonhadora demais, mas não dá pra esquecer que ela é filha de uma mulher tarka, essa que deixou a ilha pouco tempo depois de dar a luz. Seus modos atraem os olhares divertidos, e os julgadores. Não deixam transparecer, no entanto, sua ambição. Dissimulação em sua melhor forma. Conquista sem parecer estar fazendo tudo exatamente como uma peça ensaiada, e se escora em mesas, gira, meio espaçosa, talvez desengonçada, como se cada passo não fosse calculado. Seu pai, o chefe da ilha, esperava uma filha mais centrada para ser sua sucessora quando chegasse a hora. Como pode parecer tão acessível, tão fácil de ser lida, e não ser conhecida por ninguém? Talvez, nem por si mesma.







