O Vazio de Terno
O dia foi arrastado. CafĂ© sem gosto, novela reprisada na TV, silĂȘncio entrecortado pelo barulho do vizinho lavando o carro. O entardecer trouxe aquele cheiro de comida gordurosa, arroz com alho, carne fritando â cheiro de domingo, cheiro de fim.
Ele estava sentado no sofĂĄ, as luzes apagadas. A tela da TV piscava sem som, sĂł imagens correndo, como se nem precisassem dele ali.
E, claro, a voz chegou.
â JĂĄ começou, nĂ©? â O quĂȘ? â Esse aperto no peito. Essa sensação de que amanhĂŁ nĂŁo vai ser diferente de ontem.
Ele fechou os olhos. O silĂȘncio da casa pesava mais do que o mundo lĂĄ fora.
â Ă sĂł ansiedade, â tentou justificar. â NĂŁo. Ă o vazio colocando terno. Ă o abismo se organizando pra segunda-feira.
Ele respirou fundo, mas a respiração veio curta. Olhou para o teto, que parecia mais baixo do que nunca.
â Eu odeio domingo. â NĂŁo Ă© o domingo. Ă o que ele te lembra: que vocĂȘ tĂĄ preso. Que a vida vai repetir. Que vocĂȘ nĂŁo sabe pra onde vai.
O relĂłgio na parede marcava 20h47. Cada segundo parecia zombar dele.
â EntĂŁo o que eu faço? â Nada. SĂł aceita. Esse Ă© o ritual: domingo mata a esperança, segunda enterra.
Ele sentiu os olhos arderem, mas nĂŁo chorou. Nem isso. SĂł ficou ali, imerso na melancolia que nĂŁo precisava de motivo.
O mundo lĂĄ fora se preparava para mais uma semana. Ele, dentro, sĂł desejava nĂŁo precisar acordar.













