♥ Every end had to begin. ♥ {1/2} [POV]
Eis um fato sobre vilões: eles não nascem, são criados. Eis, então, um fato sobre “fatos”: a maioria possue uma exceção.
Possuía por volta de sete á oito anos de idade. Caminhava, com um sorriso infantil estampado em sua pequena face, por entre o jardim francês do pátio nos fundos da grande mansão onde vivia. Cercas vivas e arbustos compactos de um verde alegre formavam algo que, de cima, poderia ser visto como um labirinto de simetria perfeita. Tomava o cuidado gentil de não pisar em uma pétala de flor que fosse, ao dar seus passinhos de criança por entre a formação de plantas. O fazia com os braços ao lado do próprio corpo do melhor modo que poderia considerar encaixar-se ao termo “elegante” – ainda que não soubesse o real significado da palavra –; pois era seu objetivo, naquela tarde: sentir-se como a mais bela e refinada das rainhas (afinal, princesas sempre soaram-lhe como algo inferior). Chegou ao centro do jardim, encontrando a alta fonte de mármore branco que tanto adorava. Ajoelhou-se ao lado do mesmo, apoiando os cotovelos na superfície da barragem que mantinha a água do lado de dentro.. Por alguns segundos, apenas observou o modo como o líquido era jorrado, parecendo não ter fim. Poderia ter parado para se questionar de onde vinha, mas não é como se realmente se importasse. Apontando a varinha que carregara durante o trajeto para a substância transparente, imaginou que esta fosse capaz de seguir seu comando. Criou em sua mente a situação exata e seu sorriso exapandiu-se ainda mais, ao vê-la acontecendo; uma corrente de água subindo e moldando-se no formato de um pequeno coelho que, segundo a própria criatividade, seria todo branco e carregaria um relógio de bolso, ainda que, por ser um animal, não teria bolso para guardar. “Que ideia, Ence. Um coelho de relógio?” Ouviu de si mesma, e não preocupou-se em em dizê-lo em voz alta. Não havia mais ninguém para ouvir. Era o dia de folga de sua babá, seu pai estava no ministério e sua mãe conversava com bruxos engravatados dentro de seu escritório, que fica dentro de casa (sendo este o unico motivo pelo qual permitira Eleanor do lado de fora, não querê-la atrapalhando). Moveu a varinha para cima e para baixo, e o Coelho Branco de água pulou ao seu comando. Não precisava de um feitiço ou conhecimento para isto, o objeto mágico obedecia sua vontade e esta, por sua vez, era muita. Vontade de companhia. Pôs-se prontamente de pé, começando a correr em torno da fonte, com o coelho ao seu lado, saltitando no ar. Ignorando as gotas que caíam da imagem do animal, deformando-o lentamente, passou á correr também para longe de onde o líquido vinha. Viu-se pensando sobre finalmente não estar sozinha, e, sem querer, soube que não duraria muito. Vagamente, imaginou como aconteceria. Se o Coelho lhe diria adeus e voltaria á mergulhar. Se admitiria estar atrasado e fugiria antes que pudesse ver. Se simplesmente cansaria de sua presença e seguiria um rumo por conta própria. Nestes devaneios, veio o contrário de vontade, porém tão forte quanto. Sua varinha, como se também desejasse brincar – porém de um outro jogo, mais cruél – fez com que a figura afastasse-se até sumir por entre o labirinto de plantas. Eleanor não tentou seguí-la. Sabia que seria incapaz de alcancá-la.
Sentiu seus olhos úmidos e uma expressão de pânico vir-lhe em demasia. Logo, corria em uma velocidade não atingida no momento anterior, de alegria. Desta vez, tratava-se uma fuga, ainda que fugisse de si mesma. Ao chegar no largo portão enverinzado que levava ao interior do casarão, gritou para que o guarda encarregado de cuidar dali abrisse-o. Em resposta, lhe veio um não. “Brinque mais, ainda não está na hora de voltar”, ele dissera. Em sua mente, fértil como era, Eleanor sempre vira-no como algo incapaz de ameaçar, como uma carta de baralho gigante ou coisa parecida. Rasgável. Frágil como papel. Um valete, talvez; sempre abaixo da realeza. Na garota, tudo o que o homenzarão causava era raiva. Guardou a varinha no bolso de seu casaco cor-der-as e começou a soluçar, mas não era tristeza; apenas o fez, seguido de um choro alto, para que fosse ouvida. “Por favor… Está doendo…” Choramingou com a boca quase colada na madeira, ainda que sem qualquer machucado. Novamente, lhe veio a negação. Revirou os olhos, agora, permitindo que as lágrimas escapassem. Não demoraria muito, imaginou. Bateu com os punhos fechados na superfície à sua frente, sem se importar com a dor que poderia lhe causar. Queria ver sua mãe, e iria vê-la. Repetiu pela última vez, “Por favor.”, tendo uma versão infantil de ‘xeque-mate’ repetida em sua mente ao ouvir a tranca ser aberta. Assim que o guarda deixou uma brecha suficientemente grande para que seu pequeno corpo se esgueirasse para o outro lado, voltou a pôr toda a energia de seu corpo nos tornozelos, movendo-se rápido demais para que o outro, excessivamente grande – por um momento, perguntou-se se o objetivo de seu tamanho seria a força e, logo, imaginou de que esta valia, comparado a quão lento ele era --. Assim que pôs os pés na sala de estar, começou o trajeto escadas acima. Não parou para bater na porta; simplesmente entrou no escritório da mãe. O que viu, porém, não era o esperado – ainda que não soube exatamente o que esperar --. No segundo que abriu a porta, Eleanor já falava, sem sequer saber se seria ouvida. “O Coelho Branco, mamãe... Ele estava atrasado, e fug-...” . Da última vez que estivera ali, para começar, não havia um homem ajoelhado no chão sem a capacidade de fazer algo além de sofrer; e apesar de mais focada na própria voz do que na da mãe e, em seguida, nos gritos do homem, ainda foi capaz de ouvir a palavra que saiu dos lábios, como sempre maquiados de vermelho-sangue, de sua mãe: “Crucio”. Levou ambas as mãos para a própria boca, assustada. O que seria surpreendente, sabendo que suas reações eram limitadas a resultados de tristeza ou, além desta opção, apenas o que quisesse sentir para ganhar o que quisesse receber. A mãe encarou-a por pouco mais de um segundo, antes de dar o segundo seguinte de alívio ao homem ao desviar sua varinha da maldição imperdoável a um simples movimento com a mão que bateu a porta com força, empurrando a pequena para fora; desta vez, não foi capaz de ignorar a dor física que sentiu ao bater com as costas até a parede atrás de si. Seu olhar ainda estava vidrado e não demorou até que seus ouvidos fossem logo invadidos pela demonstração mais plena de quem desejaria já estar morto. Pelo canto do olho, pode ver a aproximação de Valete, mas não se importou. Não ordenou que um músculo sequer de seu corpo fosse mexido. Simplesmente permaneceu ali e deixou-se ser carregada por ele para fora; de volta ao jardim. Ali, teve uma segunda porta fechada bem à sua face. Desta vez, não esboçou reação. Deu as costas ao o que vira, encarando as plantas que já não lhe pareciam mais tão vivas. Além do próprio coração batendo, aliás, era incapaz de ver qualquer vida terrestre presente. Caminhou, e algo lhe parecia errado. Algo parecia não se encaixar. O que desejava era silêncio, mas pássaros continuavam cantando. O momento não era de paz, mas as rosas ainda permaneciam brancas. Voltou ao ponto onde começara e, desta vez, sentou-se na beirada da fonte, procurando o furo na cena que poderia levar-lhe a consertar aquilo. Tamanha era a quietude que permanecia que, para uma pequena ave de tons amarelos que voava próxima, não foi problema pousar logo a seus pés.
Dizem os sábios que para pronunciar um feitiço das trevas, deve-se realmente querer que este aconteça. Murmurou baixinho enquanto um sorriso doce surgia no canto de sua boca, “Crucio”, e observou enquanto a pequena criaturinha lutava contra as próprias asas, tentando fugir. Por ser um feitiço normalmente direcionado a humanos, não exatamente parou para pensar se o animal aguentaria; mas não se importou. Na realidade, teve a expressão agradável expandida também ao resto de seu semblante, ao ver o que deveriam ser veias ficando a mostra e, lentamente, observar que o pequeno era incapaz de sucumbir sem seu comando. A sensação de controle subira a um novo patamar. Tamanho era seu foco que, ao vacilar minimamente – assim como a mãe fizera na presença de Florence --, deixou que um pequeno “pio” escapasse do igualmente pequeno bico; mais estridente do que a melodia expressada até então pelos irmãos do bicho. Talvez estes, por instinto, notaram a falta de segurança no local e, com isto. Iniciaram revoada. O bater de dezenas de asas foi sincronizado, dando a menina um leve susto que, como consequência, levou-lhe a mexer a mão. Nada além de um centímetro; ainda assim, capaz de resultar em algo além. Quando observou novamente, o feitiço já não possuía mais efeito, pois o pássaro jazia morto. Seu sangue formava uma poça mínima ao redor de onde antes estaria sua o começo de seu ‘pescoço’. O que acontecera? Pelo movimento, cortara-lhe a cabeça.
E então, possuía o desejado silêncio. Voltou o olhar para as flores que permaneciam em resistência, na cor representante da passividade. Uma ideia surgiu em sua mente criativa e ajoelhou-se no chão, largando a varinha ao lado e passando um dos dedos no líquido vermelho. Arrancou uma das rosas brancas próximas e, como se apenas estivesse se divertindo em uma brincadeira de colorir, pintou-a de vermelho. Lhe fez lembrar do batom que a mãe usava. Questionou-se se aquele era feito de sangue, mas não chegou ao ponto de descobrir, produzindo um para si mesma pois, no momento em que o faria, bateu-lhe o pensamento de que alguém poderia vir e, pior, ver. Olhou para seus dedinhos sujos e, então, para a fonte atrás de si. Lavou a mão alegre, ao notar que, como o esperado, a água seria filtrada antes de voltar a cair no ponto de onde a tirara. Olhou para o pássaro morto e usando seu feitiço favorito, um qualquer de levitação, fez com que fosse parar para o lado de fora dos altos muros que lhe separavam do exterior. Encarou a poça ainda existente a seus pés e alegrou-se por estar sobre a grama. Logo, desapareceria, sugada pela terra. Passou a observar a flor vermelha e, neste caso... Neste caso, não foi capaz de se livrar da prova, pois desejaria guardá-la. Como uma lembrança de que, agora, possuía uma nova brincadeira para seguir. Guardou-a no bolso do casaco, grande o suficiente para recebe-la por ser o tal bolso adaptado para varinhas. Como se nada tivesse acontecido, voltou a brincar com a água. Dessa vez, não criara coelhos. Pois, ali, decidira já não gostar mais deles. Em vez disso, deu forma a um gato sorridente que, em sua mente, seria rosa e roxo.
E eis um fato sobre a psicopatia; o principal fato que a diferencia de sua companheira sociopata: Enquanto esta segunda simplesmente comete o crime, a primeira, sempre, o comete com a certeza de que não deixará pistas.













