♥ Every end had to begin. ♥ {2/2} [POV]
O termo “psicopata”, popularmente, é entendido como um sinônimo clichê para serial killer. A provável imagem de um está, na mente comum, relacionada a sangue, crueldade e, caso esta mente se permita ser criativa, um porão repleto de corpos cujos membros estão pendurados como troféus na parede. Segundo a psicologia criminal, porém, existe apenas uma característica capaz de definir, inconfundivelmente, se um indivíduo possui psicopatia: não são as mortes ou as armas, mas a incompetência em sentir remorso ou compaixão. A inépcia em tentar a empatia; talvez, possa até tentar entrar na mente de outro para descobrir o que pensa, mas jamais poderá identificar o que sente. Pode-se relacionar socialmente, mas isto de modo superficial. Normalmente, desconsidera, em outras pessoas, as características que não lhe serão úteis. E, a partir deste traço padrão, traçam-se diversas personalidades. Existem aqueles incapazes de inibir impulsos antissociais. Os que agem conduzidos pelo desejo de evitar as dores, mas ceder a tentações. Outros, descontrolados, possuidores dos ambições mais extremas e doentias que, também, surtam com mais frequência. E, enfim, o provável pior tipo: mentiroso, mas convidativo. Atraentemente manipulador, Enfim, irresistível.
Houve um momento específico de sua adolescência, entre seus treze e quatorze anos, em que Eleanor encontrava-se sentada no chão da biblioteca particular de sua mãe. Suas costas apoiadas em um dos grandes armários e, ao seu redor, uma pilha de determinados livros antigos enfeitavam a cena. Seu olhar corria de linha á linha, procurando obter o máximo possível de conhecimento sobre dementadores. Sabia estar segura ali pois o som de gritos ainda vinha da sala de reuniões, logo ao lado. Enquanto continuassem, sua progenitora estaria ocupada demais para pensar na filha; de qualquer modo, Eleanor possuía dúvidas de que esta notaria sua falta ou, talvez, presença, mesmo depois. “Acredita-se o Beijo do Dementador é pior que a morte: é deixar de existir, mas ainda assim permanecer.”, leu em um sussurro, sem preocupar-se em manter a frase apenas na própria mente; a via com tal fascínio que não enunciá-la lhe pareceria quase imperdoável. Em todos os exemplares, as gravuras da criatura seguia um mesmo padrão de terror e pesadelo. A morena, por sua vez, possuía a capacidade de ver, ali, a representação mais que perfeita de nobreza. Encontrou, então, a etimologia da palavra. ”Dementar. Do latim, dementare”, repetiu com a voz baixa o suficiente para soar-lhe rouca. Dissera-o com lentidão, como se apreciasse o som da palavra tanto quanto seu significado: “Aflingir grande sofrimento.”. Passou o olhar pela sentença final, e um sorriso lhe veio aos delicados lábios; “Tornar insano”.
Insanidade. Estava aí um termo do qual sempre gostara. Cinco sílabas. Também do latim, insanitas. Antônimo de lucidez; palavra que lhe soava quase como insulto. Então, aqui tendes um passatempo quase obsessivo da moça: Palavras. Via, nestas, o poder irrefutável que desejava ter. Dominar palavras e saber como usá-las poderia dár-lhe não só a vida como, também, a capacidade da morte; ou pior. “Como um dementador.”, ponderou, questionando-se se tal espécie poderia ser tão bela como a imaginava. E ao deixar-se imaginar qual seria sua versão do beijo, passou á devanear solitária.
A conduta psicopática pode-se ser motivada por anomalias psíquicas capazes de tornar um indivídio insensível à dor. Com isso, acabam não adquirindo medos – medos, estes, que dariam-no o senso de bem ou mal; de certo, ou errado. Suas únicas capacidades de julgamento baseiam-se no conceito pessoal que cria ao longo da vida. Pode ser determinada tanto por fatores fisiológicos quanto sócio psicológicos. De traumas durante a infância em que, desde a minoridade, a criança encontra-se incapaz de se criar afeição até mesmo pelos pais a, até e, talvez, genética.
Aos 15, Eleanor se entediava em murmurar um “Ridikullus” durante as aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas em Beauxbatons. O Bicho Papão, ao se aproximar da moça, sentia-se posto em posição de falha: testava palhaços, aranhas ou altura. Escuro, água ou cobras. Lugares fechados, lugares abertos, abismos. E nada parecia funcionar. Por muitas vezes, era obrigado a assumir sua verdadeira forma em uma tentativa frustrada de assustá-la. Florence era capaz de prendê-lo em um provável medo pessoal de impotência, se é que isso fosse possível. Uma única vez, porém, a morena fora pega de surpresa ao ter a criatura transformada em um reflexo miserável de si mesma em que sua imagem se mostrava na escória, em todos os sentidos possíveis. Destruída, nua, frágil. Ao levantar sua varinha, não pensou em uma cena engraçada para que esta forma fosse tomada. Em sua mente, possuía, porém, outro retrato de si: Uma Eleanor imponente; invencível. Assim que o feitiço fora lançado, viu-se lá, exatamente do jeito que desejava ser. Por algum motivo, usava um grande vestido em vermelho e preto que, apesar de extravagante, apenas tornara tudo melhor.
Vede uma curiosidade sobre a garota: a partir do momento em que suas noções sociais eram distorcidas do comum, seus feitiços, também. Dificilmente gargalhava ou fazia outros gargalharem -- exceto, caso quisesse realmente fazê-lo --. Logo, sua imagem de divertimento era nada mais que um egoísmo quase poético. Dizem que a varinha escolhe o bruxo. Comenta-se que varinhas de Teixo jamais escolhem um proprietário medíocre. Falam, também, que um lado obscuro persegue a magia proveniente desta madeira. Isto, somado ao núcleo temperamental, capaz de espelhar o sentimental de seu dono, de cabelo de veela, dão á Eleanor a arma perfeita para tornar seus feitiços uma peculiaridade completa; como se a própria garota já não fosse sui generis. Basicamente, Florence possuía a habilidade de burlar a feitiçaria sem sequer notar que o fazia.
E foi a partir disto que, aos 16, decidira que a bruxaria verbalizada e já existente não chegava perto de ser o suficiente para sua capacidade. Lera sobre Sectunsempra e conhecia sua versão causadora de hemorragias internas, Dectusempra. Já ouvira sobre Repellere Sangui, a maldição que levaria o sangue para fora da vítima pela boca, olhos, nariz e cortes recém-abertos nos pulsos. Já vira a mãe usar Musculus Expandere, cujo lampejo incolor faria os músculos do alvo se distenderem, causando dor excruciante. Em situações intrísecas, já praticara o Asfixo Maladum, bloqueando a respiração de sua presa com uma expressão de encanto ao observar o ar que já não ia até os pulmões alheios ser transformado na cintilação roxa que parecia, ao invés de sair, entrar em sua varinha; o motivo já não lhe vem ao caso. E nenhum destes lhe fora razoável o bastante. O que queria era algo mais direto e, até, deveras mais teatral. Poderia dizer que o dramatismo estava em seu sangue, desde o momento em que ouvira a voz materna dizer, pela primeira vez e para um qualquer a frase de qual Eleanor passara a gostar, a partir do momento em que recebera permissão para assistir o momento seguinte: “Está pronto para sua sentença?”. E por este mesmo dramatismo, a primeira coisa em que era capaz de pensar ao ouvir sentença era na época medieval, quando estar pronto para uma significaria decapitação. Eis outra palavra que lhe soava doce. Do latim de-, prefixo que nota privação, separação, mais caput, “cabeça”. Procurara um modo de simplesmente criar um feitiço afinal, em sua mente, usar uma palavra forte o suficiente ao desejar o ato, poderia ser a essência para torná-lo real. Foi incapaz de fazê-lo e, na realidade, sequer precisou tentar mais: voltando ás antiguidades, um livro que se resumia á páginas frágeis e muito pó possuía exatamente o que procurava. E encontrar a respostas para sua dúvida fracassada, ao invés do esperado, não abalou-lhe. Na realidade, fez com que subisse ainda mais. Ora, soava quase como se isto estivesse premeditado a acontecer.
Até grande parte de seus 17 anos, não encontrou alvo suficientemente digno de um encanto tão sublime. Poderia usar um dos perseguidos de sua mãe ou simplesmente encontrar um trouxa nas ruas da França, mas, em todos os casos até então possíveis, jamais vira a vítima correta. Para Eleanor, a morte deveria ser merecida. Do contrário, uma vida de sofrimento seria a punição mais cabível. E então, por tudo isto, idependente da psicopatia não ser o semelhante exato de homicida em potencial, talvez as mortes e a crueldade venham por consequência. Em suas mentes, não possuem a culpa; os outros possuem. E em determinada tarde, uma discussão com sua mãe, Elizabeth, chegara ao ápice do controle que a mais nova era capaz de manter. Por tê-la criado desde o nascimento, Beth poderia ver claramente a forma que a filha tomara: uma cópia de si mesma e com aptidão para algo além. Além de perigoso para a própria reputação, devia admitir: Em algum canto da própria consciência, existia a preocupação para com a garota. Talvez fosse um instinto maternal da natureza ou, talvez, a ideia de que seria auto destrutivo livrar-se de seu reflexo, ainda que este fosse capaz de superá-la; logo, uma ameaça. Então não, não desejava o fim de descendente. Apenas uma pausa em seu processo de ascensão. Quem sabe, talvez, um dia deixasse que a herdeira tomasse o império. O que não desejava era este dia mais próximo do que o necessário. Inicialmente, tentou conversar. Eleanor, porém, não gostara tanto da ideia. Ao ver que a mãe sempre estivera consciente de sua manipulação e que, logo, esta não passava de falha -- ao menos ali --, soube que seria um problema. Há algum tempo, afinal, decidira que após tantos anos, Beauxbatons já não possuía mais o que desejava adquirir. Hogwarts parecia uma boa ideia, e desde o momento em que a cogitara, pensava numa forma de precisar ir parar lá. E ali esteve. No momento em que a mais velha perguntara se estava pronta para sua sentenção, ainda que referindo-se apenas á um castigo, a boca de Florence abriu-se, devolvendo a pergunta.
“Não, mamãe. Você está?” E fechou os lábios, de modo que o feitiço fosse não verbal e a mais velha não fosse capaz de prever o que viria então. Ainda assim, em sua mente, teve de concentrar-se ao máximo na palavra: “Decollarent”. Seguindo a regra de que realmente deveria querer fazer o que estava fazendo, não foi difícil concluir o feito. Enfim, viu a mãe como realmente sempre fora: Descartável.
E enfim, por curiosidade, sabe-se que psicopatas, ao se defender, costumam usar conjuntos específicos de palavras. Por meio de “porquê”s ou “portanto”s, tentam justificar-se por seus crimes -- ainda que não os veja como errados --, culpando família, a vítima ou, muito provavelmente, passado; aliás, dificilmente falarão usando a primeira pessoa no presente. Elizabeth dera a Eleanor a possibilidade do conhecimento necessário para chegar á este ponto, mas fora tudo. Este tudo, todavia, acabou sendo seu fim. Enfim, a culpa da situação estava clara. Se Elizabeth gostava da própria vida, por que suportaria por mais de uma década, dentro da própria casa, a única pessoa capaz de tirá-la?
Quando seu pai entrou em cena, havia apenas um corpo e uma cabeça. Não havia sangue para provar contato ou, sequer, contato para ser provado. Eleanor soube, ali, que o homem jamais passara de um fantoche da mãe. De certo modo, criou por ele, neste exato momento, um quase afeto alimentado por pena. Um dó criado ao saber que, agora, continuaria sendo o que sempre fora. Pois a mãe poderia saber o que se passava na mente de Eleanor, mas para o outro, a garota não passava de uma outra vítima. Então chorou. Disse-lhe que uma das pessoas juradas de morte por estar em dívida com a mãe entrara na sala, erguera a varinha e então sumira, novamente. E estava feito, já não havia mais mamãe. Agiu como se o trauma fosse grande demais para o próprio corpo e pode, até, encenar culpa por não ter tentado salvá-la. Mas o que poderia fazer? Era só a filha da moça, não tinha quaisquer relações com o trabalho das trevas praticado por esta. Era uma escrava das circunstâncias que, agora, já não aguentaria mais viver na mesma casa onde vira seu maior bem simplesmente ser decapitado. O pai concordou, entendeu, apoiou. Ter sua filha chorando na escola e dúvidas no ministério sobre o motivo levaria á investigações das quais não seria capaz de se livrar, afinal. Conversou com uma irmã da então esposa morta que cortara, há tempos, o contato com esta, por ser seu perfeito oposto. Se, antes de Eleanor, Elizabeth fora a Soberana Vermelha, sua irmã seria a personificação de uma Rainha Branca. Aparentemente, esta possuía uma filha que seguira os passos de bondade. Não demorou mais que horas até que todas as ligações fossem feitas. E neste momento, Florence soube que acabara de ganhar o melhor presente, ao ter em mãos a chave-portal que levaria-lhe até a casa de tal tia, em Londres; afinal, no mesmo dia, acabava de completar 18 anos.
Curiosamente soube, então, que não precisava de um beijo para sugar a alma alheia. Bastava cortar-lhe a cabeça.