Apresento o desenho mais mal pintado dos ultimos anos, feito para celebrar a data de hoje. É o aniversário de uma amiga querida e, este ano, uma data interpretada como o "fim da escuridão" [www]. Contudo, para mim e para a minha comunidade, é ainda uma outra coisa: É o dia da visibilidade bissexual, e tal como no ano passado, voltei a fazer um desenho para comemorar.
Primeiro, curiosidades sobre o desenho:
As cores predominantes são as cores da bandeira bi, rosa escuro, roxo e azul escuro. As cores derivam de fusão entre o triângulo rosa - que foi por muito tempo usado como um símbolo gay (apesar de originalmente criado para distinguir pessoas homossexuais durante o holocausto) - com um triângulo azul, simbolizando a atração por géneros diferentes do próprio. O roxo, inicialmente lavanda, simbolizava a intersecção entre esses dois tipos de atração.
As duas luas são um símbolo bissexual, que foi criado depois dos "biangles" (triângulos bissexuais, que não aderiram tão bem por fazer lembrar o símbolo nazi).
Tentei retratar dinâmicas diferentes entre as personagens, pois acredito que todo o tipo de relacionamento é válido e há pessoas bissexuais em todos os tipos de situações: relacionamentos poliamorosos ou monogâmicos, em relacionamentos, solteiras, casadas e divorciadas, de todos os géneros e com pessoas de qualquer género, quer mulher, homem ou uma pessoa não-binária. Também tentei colocar alguma diversidade etno-racial.
Agora, vamos mesmo à parte ativista porque eu não podia postar isto sem um textão:
» A bissexualidade define-se como (potencial) atração por dois ou mais géneros. Isto quer dizer que uma pessoa bi não gosta de necessariamente a) apenas pessoas de dois géneros b) apenas homens e mulheres/pessoas cis c) pessoas do próprio género d) pessoas do género oposto.
Essa definição é usada por organizações, aqui algumas: [www]. Digo isto para não me virem com a definição de dicionários que nem reconhecem a existência de pessoas não-binárias. Negar a definição das próprias pessoas que são algo é uma bela merda, mas ainda o é mais se a definição for usada por organizações.
"Bi" não tem de significar “dois” da mesma forma que o cavalo-marinho não é um cavalo, outubro não é o mês oito e o elemento químico bismuth tem mais que duas cores quando cristalizado [www]. A etimologia da palavra nem sempre pode ser levada à letra.
Mesmo que se levasse o bi no sentido literal, ainda seria possível bissexuais não gostarem só de homens e mulheres. O bi pode ser entendido como dois grupos, como "género igual e géneros diferentes", ou "intersecção entre homo e heterossexual", embora esse não seja um entendimento tão inclusivo.
Pessoas bissexuais não são transfóbicas por causa da identificação. Aliás, se ser bissexual implicasse transfobia, não haveria uma sobreposição tão grande entre a comunidade bi e trans.
Uma pessoa pode ser simultaneamente bi e pan (se gostar de todos os géneros), ou bi e poly (se gostar de um numero entre dois e vários géneros). Ou outra label do espectro multissexual. Mas se a pessoa só gosta de 2 géneros, as labels disponíveis são apenas bi, heteroflexível e homoflexível. E queer, porque queer acaba por ser mais uma atitude política que uma label, embora também possa ser um termo ofensivo.
Uma pessoa é que sabe como é que se identifica. Se alguém diz que é pan/poly/outra label, não é "basicamente bissexual" e não deve ser obrigada a aceitar bissexual como termo guarda-chuva. Por outro lado, uma pessoa que se identifica como bissexual e gosta de mais do que dois géneros não deve ser obrigada a usar outras labels por causa de definições desatualizadas e de pessoas que acham confuso que conceitos se sobreponham. Aliás, ninguém é obrigado sequer a usar labels.
Se a label é importante para a pessoa, deve-se respeitar isso e não tentar mudar a label ou silenciá-la. Labels podem ser importantes por muitas razões: [www].
» A bissexualidade não implica:
...Tendência a trair (não, bissexuais não sentem falta "do outro" género). Se a pessoa trai, ou é por falta de ética ou é porque o relacionamento não está a ir muito bem. Muitos bissexuais até são indiferentes ao género, então porque que se trairia alguém por causa de uma caraterística que não faz diferença?
...Que se seja poliamoroso, pois de novo, ser bissexual não faz com que se sinta falta de nada e há pessoas bissexuais que se dão bem em relacionamentos monogâmicos e/ou fechados.
...Que se pare de ser bissexual quando se está num relacionamento ou casado. Fidelidade a alguém não implica que não se reconheça que a pessoa com quem houve comprometimento podia ser de outro género e que isso não impediria a atração.
...Indecisão, nem confusão. Sim, é possível que alguém questione a sua orientação e decida usar a label bi enquanto isso, mas mesmo que possa concluir que é hétero, use a label como "stepping stone" para se assumir/entender que é gay ou lésbica, ou mesmo concluir que é de outra orientação OU género qualquer, não deve ser desrespeitada enquanto o faz, e quem é de facto bissexual não deve ser desmerecido por causa de a label ter sido usada por quem NÃO é.
...Que não se tenha preferência. Há bissexuais que têm, e outros que não. Para grande parte das pessoas bissexuais, género é como cor de cabelo: algumas pessoas preferem pessoas loiras, outras morenas, outras ruivas, e outras simplesmente não acham que faça grande diferença. E mesmo que alguém prefira uma pessoa loira, isso não a impede de se comprometer com uma morena.
...Atração apenas por homens e mulheres, por apenas dois géneros, por apenas pessoas cis (ou seja, não-trans), pelo próprio género, pelo género oposto. Se há pessoas bissexuais que apenas gostam de alguma dessas combinações? Sem dúvida. São a totalidade? Não, de maneira nenhuma. Sei que estou a repetir-me, é que parece que isto não entra na cabeça de quase ninguém.
» A bissexualidade não é: Uma fase, folclore, indecisão, poligamia, um passo intermédio entre hétero e gay, 50% atração por homens 50% por mulheres, uma versão transfóbica de pansexualidade, aquilo que pansexuais "basicamente" são, atração por 2 sexos, etc... as razões para isso foram praticamente todas mencionadas em cima, foi só para reforçar.
Era isso, a minha contribuição é pequena mas fico feliz por tê-la feito. Espero que ajude a combater o apagamento sistemático desta orientação, já que é por esse motivo que o dia não é chamado "Dia da bissexualidade" e sim "Dia da VISIBILIDADE bi".
Para lembrar que existimos.










