Beleza e opressão
“As imagens da beleza são utilizadas contra as mulheres.” Essa afirmação está contida no subtítulo do livro O mito da beleza, publicado por Naomi Wolf em 1991. Padrões de beleza e a busca pela aprovação da própria aparência orientam ao menos parcialmente a vida de muitas mulheres. Colaboram para reproduzir as desigualdades de gênero, mas suas incitações não são, necessariamente, percebidas como opressivas. As formas de coerção social antes ativadas pela valorização da maternidade, da castidade e da passividade agora prescrevem comportamentos por meio de um ideal da “beleza domesticada”. Beleza e moda, como ideologias, promoveriam a subordinação das mulheres, ainda que a adesão delas próprias a esses padrões possa ser entusiástica e apaixonada.
Em algumas abordagens, entende-se que o ideal da beleza coloca por terra a relação entre aparência e liberação feminina no Ocidente. Formas distintas de prescrição da aparência, como a proibição de que o corpo da mulher - e mesmo o rosto - seja deixado à mostra em partes do mundo islâmico e o estímulo a um corpo “perfeito” e exposto no mundo ocidental, teriam como objetivo a satisfação dos homens. Nos dois casos, a diferença entre o feminino e o masculino seria dicotomicamente afirmada e construída como “deferência”.
Enquanto abordagens pós-estruturalistas no próprio feminismo avançam na direção da reinvenção dos corpos como forma de redefinição das identidades, as abordagens críticas ao ideal da beleza mostram seu papel na reprodução de posições de subordinação para as mulheres.
O investimento de tempo e de recursos financeiros na aparência expõe a permanência de padrões desiguais de gênero. As expectativas sociais de que o investimento na autoapresentação seja prioritário são dirigidas às mulheres, não aos homens. Em seguida, o maior ou o menos sucesso nos resultados dos esforços para aproximar-se dos padrões vigentes de beleza é mobilizado em julgamentos que têm efeito nas oportunidades das mulheres, na construção das suas carreiras. Assim, a ideologia a beleza colabora para convencer as mulheres de que elas têm pouco controle sobre a própria vida e poucas opções, numa dinâmica em que os ambientes de trabalho “as recompensem indiretamente como se estivessem vendendo seus corpos”, enquanto as limitam a empregos nas áreas tradicionalmente definidas como femininas, a empregos de salto alto e status baixo.
Além de azeitar as engrenagens de gênero, o ideal da beleza implica sofrimento, baixa autoestima e pode ter efeitos concretos na saúde das mulheres. Basta pensar nas dietas e nas cirurgias plásticas, mas também no cotidiano de trabalho sobre saltos altos e na busca repetida e permanentemente frustrada por uma aparência jovem. Os mecanismos opressivos da beleza parecem atravessar as divisões de classe e raça, ainda que o investimento de tempo e de dinheiro varie entre mulheres brancas e negras, ricas e pobres. A magreza, por exemplo, se define como ideal que ultrapassa sua origem social e se impõe como referência. A definição do feminino pelo olhar masculino, predominante nos meios de comunicação e na publicidade, é um dos dispositivos para a reprodução ampla desses padrões. Fortalecem-se, assim, ideais e estereótipos que prescrevem comportamentos.















