Era numa dessas noites úmidas, quase com chuva.
Um friozinho que se sente no ar, com cheiro de gelado. Você estava com uma jaqueta de couro, meio rockabilly no estilo do seu tio - aquele, que te ensinou a escutar aquela banda que você tatuou no seu braço, eu também estava com uma jaqueta de couro, que comprei num brechó em Munich no verão. A gente é diferente, né? As 5 cervejas fizeram bem, mas eu disse menos da metade do que queria dizer. Os assuntos eram outros, não queria falar sobre o futuro do mundo, muito menos das minhas inseguranças, só queria fugir logo dali. Eu sinto que você entendeu, rápido também. Saímos daquele barzinho e atravessamos a rua enquanto te contava sobre como eu já quase tinha sido atropelada, o que é verdade, mas eu só queria uma desculpa aceitável pra segurar sua mão. Logo ali já era o MASP, uma da manhã, com aquele suor de cidade que você sempre diz e eu nunca acredito. Você me puxou, com delicadeza e um pé atrás - honestamente já não lembro o que foi que você disse nesse exato momento - mas eu nem hesitei em me deixar levar. Mas eu me lembro do seu cheiro, de ninguém querer o beijo, mas morrer de vontade dele até perceber que já tinha acontecido e podíamos continuar. Me lembro de não querer ir embora, de acharmos que não teria próxima vez, da cerveja que ficou na sua mochila que você admitiu que roubou e até precisaria. Eu chorei até em casa. Como se não houvesse amanhã, porque achávamos que não teria pra nós e que aquela noite era um pequeno olhar num possível futuro que talvez nunca se concretizasse.
Mas teve amanhã, e do outro lado da rua do MASP a gente se encontrou mais uma vez. Andamos um pouco, até o terraço da sua casa, em extremo silêncio pra não acordar ninguém já que era duas da manhã. Eu lembro da vista, naquele mesmo ar gelado de ontem, com incontáveis prédios ao alcance, suas histórias sobre a cidade continuavam batendo na minha cabeça, incansavelmente. Você me levou conhecer a Madalena, que ficou tão feliz que fez xixi, você me contou que seu irmão gostaria de mim e eu nem imagino o que as minhas achariam de você, provavelmente muito o meu estilo. Lembro dos beijos, da sua mão descendo a minha calça, a outra levemente agarrando meu peito. A minha vontade era tanta. De ter você, de beijos, de conversas, de piadas ruins que não fazem sentido, de ter um domingo de manhã com a Madalena e um pastel de feira, de sexo bem feito e mal feito, e de brigas que virariam risadas e de noites como essa no terraço. Entende? É um futuro todo que aconteceu em duas noites, que vai sempre ser perfeito... Porque é intocável.
Mas isso é enquanto acreditamos que não vai ter amanhã. E, por enquanto, não pode ter.