Nem menino ou menina, apenas crianças: familiares que criam seus filhos sem ideias sexistas de gĂȘnero
(imagem do instagram de @rasingzoomer)
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Como seria uma infĂąncia que se desenvolvesse livre de idĂ©ias prĂ©-fabricadas sobre como alguĂ©m deve ser, brincar, se vestir, ou se comportar? A idĂ©ia Ă© que as crianças decidam em seu devido tempo a que gĂȘnero desejam pertencer.
( Storm com os cabelos retocados da mesma cor de seu pai , o primeiro caso de educação de gĂȘnero aberto que foi disseminado internacionalmente)
Poucas coisas realmente definem o futuro de uma  criança  que veio ao mundo. Entre elas, a primeiro Ă© a posição socioeconĂŽmica da famĂlia. E a segunda Ă© se chamarĂŁo de " menino" ou " menina " . Para remover pelo menos uma dessas condiçÔes e fazer mais livre o destino de suas crianças, alguns pais, nanis (neutro de mĂŁe-pai), e mĂŁes exploram um estilo de criação diferente:consideram seus bebĂȘs sem gĂȘnero. Â
Essa maneira de educar as crianças implica que os pais nĂŁo ârevelamâ o âsexoâ do bebĂȘ, nem usam pronomes masculinos ou femininos , mas o neutro: Ă©le, elu, ely, elx entre outras variaçÔes em portuguĂȘs; Ă©lle em espanhol; they em inglĂȘs e etc. E com muito trabalho - porque Ă s vezes para avĂłs por exemplo o trabalho Ă© mais difĂcil, ou na creche onde vocĂȘ tem que explicar detalhadamente - tomam cuidado para que sua infĂąncia se desenvolva livre de idĂ©ias marcadas sobre o gĂȘnero de como elas devem brincar, se vestir, se comportar ou ser.
( Bobby McCullough e seu bebĂȘ Sojourner Wildfire )
Bobby McCullough pediu ao pessoal da sala de parto que cuidou de sua esposa, Lesley Fleishman que, "pelo menos nĂŁo descrevessem a anatomia, ou o que vocĂȘ acha que a anatomia significa, quando o bebĂȘ nascer". "NĂłs definitivamente querĂamos evitar que Ă©le fosse marcade por gĂȘnero em qualquer momento. E todo mundo estava ciente disso ", disse ele Ă New York Magazine. TambĂ©m solicitaram uma certidĂŁo de nascimento com quatro estrelas pequenas, onde em geral diz "homem" ou "mulher", como nulo. "NĂłs realmente tivemos que começar na estaca zero e explicar a alguns de nossos colegas [o conceito de gĂȘnero como um espectro, nem todo mundo Ă© feminino ou masculino, e entĂŁo tambĂ©m explicamos: 'Ei, nĂłs tambĂ©m vamos estar usando pronomes Ă©le-dĂ©le", disse McCullough.
(Kyl Myers e Brent Courtney com Zoomer: "Ă©le nos informarĂĄ qual Ă© o gĂȘnero dĂ©le".)
Para um grupo pequeno mas crescente de familiares - "aquĂ©les que vĂȘem o gĂȘnero como um espectro e nĂŁo como algo binĂĄrio", explicou Alex Morris, autor da nota - os problemas de gĂȘnero da sociedade nĂŁo podem ser resolvidos dando a todas as crianças bonecas e caminhĂ”es para brincar ou vestir todas na cor bege; o binarismo de gĂȘnero nĂŁo deve simplesmente ser manchado, mas totalmente erradicado a partir do momento em que a socialização começa, abrindo caminho tanto para a futura exploração de gĂȘnero de seu filho quanto por uma mudança cultural em geral.
Quando adotaram seu bebĂȘ, Sojourner Wildfire, McCullough e Fleishman souberam por meio de uma enfermeira que outra famĂlia pediu ao hospital que tambĂ©m usasse pronomes neutros. Se alguĂ©m perguntasse se Ă© um menino ou uma menina, respondem-se que vĂŁo deixĂĄ-le decidir como se identificar quando sentir que estĂĄ na hora. Um vizinho disse a Fleishman se era uma piada! De quatro avĂłs, o que mais aceita o critĂ©rio Ă© a mĂŁe de McCullough; para outros, Ă© mais correto dizer que apenas toleram isso.
O primeiro caso que chamou a atenção internacional, e que causou escĂąndalo, foi quando Kathy Witterick e David Stocker apresentaram seu bebĂȘStorm em 2011. A noticia publicada no The Toronto Star foi seguida por uma discussĂŁo entre es leitores do jornal canadense, perguntando se Storm poderia ter uma identidade sem ter gĂȘnero ou se sofreria danos psicolĂłgicos; Muitas pessoas atacaram os pais a ponto de mandar cartas para suas casas ou passar pela porta e gritar "menino!" ou "garota!"
Storm desenvolveu sua identidade sem problemas, e em 2016, aos 5 anos e meio, ela disse preferir que se referissem a ela como uma menina, de acordo com outra notĂcia. Porque como quase todas as crianças criadas desta forma, ela completou sua fase de identificação de gĂȘnero antes de sair do jardim de infĂąncia.
(Aos cinco anos, Storm escolheu seu gĂȘnero: anunciou que Ă© uma menina e prefere ser tratada com os pronomes ela/dela)
"Zoomer vai ter uma identidade de gĂȘnero", disse Ă New York Magazine Kyl Myers , mĂŁe dĂ©le, que tem dois aninhos de idade. "Zoomer nos informarĂĄ o que Ă©, e provavelmente acontecerĂĄ quando Ă©le tiver trĂȘs ou quatro anos, e todes concordaremos", disse a mĂŁe que sabia que queria escolher esse tipo de parentalidade antes de conhecer o pai de Zoomer, Brent Courtney .
Myers estava estudando gĂȘnero na Universidade de Utah quando entendeu que nĂŁo era um imperativo biolĂłgico, mas uma construção social. "E uma vez que eu entendi, nĂŁo pude deixar de entender", disse. E ela explica isso em seu site raisingzoomer.com , sobre como ser mĂŁe e pai de filhes de gĂȘnero aberto .
(O blog do pai e mĂŁe de Zoomer Ă© uma fonte para pessoas que queiram aprender sobre a criação de bebĂȘs sem gĂȘnero)
Se ninguĂ©m soubesse o sexo de su filhe, pensou, ninguĂ©m tratario bebĂȘ como menino ou menina, de tal modo que acabaria se ajustando aos estereĂłtipos. A questĂŁo - explicou ao artigo - nĂŁo era que seu bebĂȘ nĂŁo tivesse gĂȘnero, mas "que Ă©le pudesse alcançar uma compreensĂŁo de seu gĂȘnero - o que quer que fosse - em um ambiente onde cores e objetos e atividades nĂŁo fossem designados de acordo com categorias arbitrĂĄrias e binĂĄrias de 'menina' ou 'menino' e onde os conceitos de 'menina' e 'menino' nĂŁo fossem estabelecidos um em oposição ao outro".
Esses pais, nanis e mĂŁes nĂŁo falam de gĂȘnero neutro, mas de gĂȘnero aberto, gĂȘnero confirmado ou gĂȘnero criado. E esse trabalho de criatividade ou afirmação exige muita intencionalidade - uma palavra que usam muito - das famĂlias. "NĂŁo concedemos gĂȘnero a coisas que nĂŁo precisam dele", ilustrou Myers. Brinquedos, por exemplo: a boneca Ă© ela, porque ela Ă© uma menina, mas o cavalo nĂŁo Ă© masculino nem feminino. Quando lĂȘem histĂłrias (e atĂ© mesmo romances: um dos entrevistados de Morris disse que ele fez isso com Harry Potter) eles equilibram pronomes.
NĂŁo possuem tabus quando descrevem partes do corpo: simplesmente explicam aos seus filhos que "algumas pessoas com pĂȘnis nĂŁo sĂŁo meninos e algumas pessoas com vaginas nĂŁo sĂŁo meninas". E como a maioria das pessoas se dirige Ă uma criança de acordo com as roupas que ela estĂĄ usando, Ă©lĂȘs compram roupas variadas. Que Ă s vezes dĂĄ combinaçÔes como calças de camuflagem com sapatos de lantejoulas haha.
Talvez o mais importante seja cuidar de como se apresentam os prĂłprios modelos de gĂȘnero. Ambos os pais, mĂŁes e nanis cozinham e limpam, por exemplo. E quando seus bebelles apontam para alguĂ©m e dizem "papai", respondem: "Sim, essa pessoa tem barba como pai", e nunca "sim, Ă© um pai (um homem)". Elas tambĂ©m vivem um novo processo: sabem que podem controlar suas escolhas conscientes, mas inconscientemente as pessoas na sociedade se dirigem de maneiras diferentes - especialmente em sua comunicação nĂŁo verbal - para os homens do que para as mulheres.
HĂĄ famĂlias que consideram a criação aberta de gĂȘnero como algo nĂŁo apenas bom para seus filhos, mas tambĂ©m como um formato no qual pais, nanis e mĂŁes podem se sentir melhores. Quando Andrea (que solicitou a reserva de seu sobrenome) queria engravidar, ela estava em um relacionamento com outra mulher; o processo de se tornar uma famĂlia ocorreu ao mesmo tempo em que seu parceiro foi operado para remover seus seios e começar a ser um homem trans.
NĂŁo se sabe realmente que papel os hormĂŽnios e a socialização desempenham com precisĂŁo na construção da identidade de uma pessoa. Mas para Ă©sses pais, nanis e mĂŁes, a questĂŁo principal Ă© que o gĂȘnero tem resultados tangĂveis. Por exemplo, Myers disse, para perguntar se um bebĂȘ Ă© um menino ou uma menina, vocĂȘ poderia estĂĄ dizendo: "VocĂȘ estĂĄ mais propenso a desenvolver um distĂșrbio alimentar ou morrer em um acidente de carro?" Porque Ă© assim que as diferenças estĂŁo enraizadas, mesmo na integridade fĂsica dos seres humanos.
A criação de gĂȘnero em aberto busca que a pessoa alcance uma compreensĂŁo prĂłpria de seu gĂȘnero em um ambiente em que cores, objetos e atividades nĂŁo sejam classificadas de acordo com as categorias binĂĄrias de "menina" e "menino".
Ăles tambĂ©m nĂŁo estĂŁo muito preocupades com a rejeição que pode vir daqueles que es critiquem por experimentarem isso, jĂĄ que toda educação Ă© um experimento. Por outro lado, cada vez mais pessoas escolhem esta modalidade: sob a hashtag #gendercreative existem publicaçÔes de famĂlias de todo o mundo.
"Com relação Ă s atividades, meu bebĂȘ Ă© o que as pessoas considerariam uma criança, um menino, uma garotinho... E Ă© por isso que Ă s vezes me preocupo que, por exemplo, quando minha mĂŁe estĂĄ nos observando e pensa: 'Por quĂȘ vocĂȘ nĂŁo aceita que quer ser um menino? '", Disse Andrea Ă New York Magazine. "Minha resposta Ă© que esses comportamentos nĂŁo precisam ser associados aos meninos".
( Storm com sua familia, seu pai, David Stocker, junto com seu irmĂŁo Jazz, sua mĂŁe Kathy Witterick e Kio, de identidade nĂŁo-binĂĄrie)
Myers acredita que eles nĂŁo pensaram em criar Zoomer assim, porque assumiram que ela poderia ter uma identidade sexual dissidente. "Mas agora que escolhemos essa forma de criação, Ă© realmente possĂvel que Zoomer tenha uma identidade sexual dissidente porque nĂŁo estamos criando para se encaixar em um gĂȘnero binĂĄrio", disse ela. Em vez disso, Jacobs se perguntou se chamĂĄ-lo de Scout poderia condicionĂĄ-lo a uma escolha em si. "Mas se for cisgĂȘnero", argumentou ele, "esse estilo de parentalidade nĂŁo tirarĂĄ todas as oportunidades" que as pessoas cujo gĂȘnero 'corresponde ao sexo de nascimento' tĂȘm.
Para essa pessoas talvez o principal medo Ă© que as crianças fiquem isolades como famĂlias, porque para interagir com elas, Ă©les e eles precisam de um esforço maior como usar um pronome especial. "Acabamos pedindo Ă s pessoas que entendam algo sobre o qual nunca pensaram muito, e depois apliquem esses conceitos muito abstratos Ă s interaçÔes cotidianas no cuidado com as crianças", ilustrou Jacobs.
Essas famĂlias vivem em desaprendizado e em novos aprendizados, e Ă© essa experiĂȘncia que desejam darem a sues filhes. "Quem e como poderia ter sido eu se nĂŁo tivessem me encorajado a ser cis e feminina?", Perguntou Andrea. "Eu quero que meu bebĂȘ seja capaz de viver o gĂȘnero de uma forma mais livre do que eu", conclui.
Fonte:Â https://www.infobae.com/america/mundo/2018/04/08/no-es-nino-ni-nina-los-padres-que-crian-hijos-de-genero-abierto/?fbclid=IwAR2HDxE0e8cB83SQ2I3xmFykDOrOwFbGwztffNt_I9w0dtxnUz3Ho3LDF3E
Tradução por Dani Camel (@queerismi)