Em alguns momentos, as tempestades não chegam com sua força total. Às vezes, elas vão aumentando devagarinho ao longo das horas, dos dias, talvez até semanas. Uma tempestade pode, repentinamente, sem que se espere, se chocar com um furacão tropical. Quando isso acontece, a tempestade explode. A soma de ambas as energias, de ambos os fenômenos meteorológicos é deveras maior do que os dois poderiam ser separados. Os meteorologistas chamam isso de condições perfeitas para uma tempestade mortal. E ao chegar de tais tempestades, elas não devem ser subestimadas. A situação deve ser julgada de acordo com sua seriedade.
E é no meio de uma tempestade dessas que Cassius se sentiu quando Parkinson lhe chamou para conversar. A intromissão de Snape, a intimação para que mostrassem suas habilidades não podia ser respondida de outra forma a não ser com ação. A tarefa designada poderia até ser mais simples em outro momento, mas agora? Com as passagens secretas seladas? Internamente desesperou-se. Sem as passagens, como iriam passar despercebidos? Não podia falhar em sua primeira atividade real, o Mestre das Trevas certamente ficaria sabendo de seu fracasso. Portanto, empurrou de lado o medo de não conseguir ser útil, dispensou aquele sentimento e respirou fundo.
Dentro e fora. Com calma.
Para assumir o controle da inevitável tempestade, para não sucumbir, só precisava se agarrar ao que encontrava-se em seu alcance realizar. Warrington pode não ter conhecimento sobre treinamentos em grupo, mas passou anos sendo instigado pelos pais a desenvolver sua mente ágil e sua forma racional de pensar. No quarto havia um baú com inúmeros livros sobre Hogwarts, sobre os fundadores, sobre a história que aconteceu naqueles corredores… e sob eles. Alguns relatos não-oficiais de comensais que falavam abertamente sobre a câmara de Salazar. Muitos não passavam de lendas, sim, mas para lendas serem criadas, é preciso haver uma pitada de verdade sobre elas. Embora não se baseasse nas lendas, Cassius tinha um certo apreço e respeito pelas palavras, não sabiam o que iriam encontrar quando a Câmara fosse aberta, então todas as vertentes precisavam ser analisadas.
A criação de um mapa exige esforço, concentração e, acima de tudo, racionalidade. Criar um mapa de algo que você não viu? Não apenas é difícil como também é exaustivo. As olheiras sob seus olhos refletiam isso. A dor de cabeça, a sensação de que seu cérebro latejava, marcava o tamanho de seu esforço. A frase de orgulho que se repetia em seus pergaminhos era o que mais lhe atormentava: "Quando a Câmara foi aberta, uma sangue-ruim morreu." Levando em consideração a falta de pureza em seu sangue, o bruxo estava preocupado. Com medo. Nada podia dar errado… ou sua própria vida estaria mais em risco do que de qualquer outro integrante de sua pequena e seleta equipe. Um nascido trouxa pisando na Câmara de Salazar…Não ia fazer disso uma missão suicida.
Chegar até a câmara era um dos problemas a ser resolvidos, sendo assim, faria uso de um de seus itens mais preciosos. Suas capas de invisibilidade. A primeira vez que ganhou uma capa da invisibilidade, tinha cinco anos. Fez um bom uso da mesma até esta se desbotar, não era uma das melhores, seus pais não acharam que a criança fosse dar uma importância tão grande ao presente. No entanto, as capas seguintes, Cassius tinha um orgulho tremendo das mesmas. Duas. Duas belíssimas capas que agora serviriam para algo maior. Mas eram quinze estudantes para duas capas. A estratégia traçada seria duas pessoas por capa, as outras precisariam seguir pelas passagens que Filch lhe confidenciou em seu quinto ano quando serviu de membro para o Esquadrão Inquisitorial. Todas as passagens estavam seladas, mas eram as passagens conhecidas. As que o zelador usava, algumas delas não eram de conhecimento público, sequer se encontravam no Mapa dos Marotos.
Uma das passagens os deixava no meio do corredor, no entanto, o problema poderia ser resolvido com chaves de portal. Mas oh, por Merlin! Se já encontrava-se sem forças para se concentrar em criar o mapa da Câmara, como teria alguma chance de concluir os feitiços necessários para seus objetos? A sua salvação veio na figura de @astxgreengrass ; a jovem bruxa lhe deu pequenos bagos de acácia, a planta que, quando cultivada por quinze dias, produz minúsculos bagos brancos que, após a purificação, se pode usá-los para renovar suas energias. Com essa solução, entretanto, outro problema surgia: os efeitos colaterais do uso abundante dos bagos. Só podia ingerir um número determinado se os quisesse evitar. Porém a consequência não lhe preocupava, tudo o que precisava era concluir com sucesso tudo o que Pansy lhe pediu.
Os bagos ingeridos, forças renovadas… com a tosse e a náusea persistente que esses traziam, Cassius voltou a terminar seus mapas. A Câmara dos segredos, aos poucos, tomava forma nos pergaminhos. A última parte era providenciar os objetos para usar como portal, mas a falta de forças poderia prejudicar todo o seu plano. Não podia fazer um portal do zero. Para não estragar tudo e colocar a missão a perder, pedir ajuda à @nottoriious foi a escolha mais sensata. Sem seus amigos, afinal, não havia como sobreviver sozinho a uma tempestade tão severa. Os objetos cedidos foram enfeitiçados com a ajuda do amigo. Junto com @thatadrianp, os dois colocariam um Portal principal no corredor e o outro dentro do banheiro para que os Sonserinos conseguissem entrar sem problemas. Portais instalados, mapas concluídos e espalhados para todos, um suspiro de alívio lhe escapou.
A tosse lhe deixou, mas as náuseas continuavam presentes. Nada atrapalhava seu orgulho por conseguir criar um caminho seguro para seus companheiros, um meio eficaz para que, juntos, eles atingissem a Câmara Secreta. Restava apenas saber como seria o local verdadeiro. Como aquele ambiente tão poderoso iria receber um nascido trouxa. Esperava que não houvesse consequências. Seu segredo não podia ser revelado para mais dinheiro.
Com as medidas tomadas para que a tempestade tão feroz criada em condições perfeitas fosse superada, Warrington podia apenas esperar que tudo ocorresse corretamente.
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O silêncio tão característico a uma reservada Flora Carrow era uma resposta externa contraditória ao que se passava em seu âmago. Tudo em si funcionava impulsionado por um estado desagradável de agitação interior em antecipação ao perigo e a sensação corriqueira de que sua vida, e especialmente a de Héstia, encontrava-se por um fio. Entretanto o medo que poderia ser incapacitante a impelia a utilizar-se de suas energias em busca de rotas alternativas - cenários em que seus piores pensamentos intrusivos não se concretizariam.
Apesar de ainda se encontrar presa a rotina de uma vida estudantil a vivência de Flora nunca fora compatível a que se esperava de uma jovem comum. Crescer entre os Carrow tirara de seu desenvolvimento dois pontos cruciais: o direito de ser criança e a preservação de sua inocência. Assim, como membro de uma nobre família purista, fruto do relacionamento incestuoso entre irmãos, era esperado e exigido de si uma desenvoltura mágica acima da média. Para que chegasse ao que dentro do cerne familiar era entendido como patamar de elevada excelência tanto ela quanto Héstia foram empurradas para além dos limites aceitáveis em desafios e treinamentos que rendiam punições severas a cada falha. E eram tais falhas responsáveis pelas marcas, sempre bem escondidas pelo excesso de roupa, que carregava em seu corpo. Flora crescera aterrorizada com a possibilidade de falhar e era esse sentimento que esforçava-se para manter sob controle desde o instante em que percebera que nada podia fazer além de cumprir as missões voltadas para o pacto ao qual estava atrelada.
Assim, a partir do instante em que recebera o mapa de Cassius dedicara cada momento livre para estudá-lo numa tentativa de antever em quais momentos sua habilidade poderia ser de suma importância. Pelos dias seguinte aperfeiçoara cada feitiço que acreditava que poderia vir a ser útil e tentara se preparar mentalmente para o inusitado, para manter seu raciocínio afiado, para lidar com a pressão. Cada instante daquela preparação fora recheado por um rememorar nada feliz dos treinamentos de sua infância e, assim como em tal época, seu motto envolvia a sobrevivência. Carregava consigo a certeza que mais que nunca precisava ser eficiente.
Tal sensação fortificava-se conforme avançavam em direção a câmara. Pansy cumprira seu propósito, Cassius fora exímio em mapear e guiá-los para dentro da câmara, Tracey usara seu dom para abrir a passagem e a porta dentro dos túneis. A excelência dos outros aumentava a cobrança que colocava sobre si mesma. Não podia falhar. Seu silêncio era sepulcral e seu estado de espírito em nada vislumbrava qualquer excitamento por encontrar-se em um lugar criado por Salazar Slytherin, pelo contrário, a ansiedade a consumia e para tentar mantê-la sob controle precisava agir de maneira a se sentir útil. Com a varinha em punho, até então servindo apenas para iluminar seu caminho, silenciosamente lançou um “Appare Vestigium” um encantamento cuja a utilidade envolvia revelar traços de atividade mágica recente. Entretanto, antes que pudesse se pronunciar para pontuar o que feitiço revelara, o silêncio fora rompido pelo som de um corpo sendo jogado no ar. O susto fora eficiente em alterar o compasso de seu ritmo cardíaco e por consequência arrepiar cada mísero pelo em seu corpo. Sua reação inicial fora buscar por Héstia e foi apenas ao constatar que ela estava segura que parte da tensão abandonou seu organismo. Flint e Goyle moveram-se para ajudar um inconsciente Crabbe que agora recebia boa parte da atenção do grupo.
Aproveitando-se da agitação dos demais Flora caminhou em direção a frente colocando-se ao lado de Parkinson. Do bolso do casaco tirou algumas pedrinhas e as lançou no espaço aparentemente vazio diante de si - no exato ponto que o corpo de Crabbe se chocara e que o Appare Vestigium indicara a presença de magia. O contato da pedrinha com a barreira mágica a tornou perceptível aos olhos uma outra vez dando a Carrow um instante para observar as cores que a ajudariam a identificar quais feitiços foram utilizados. Um suspiro resignado escapou a ela que novamente sentia-se excessivamente tensa. Não podia falhar, recordou mais uma vez antes de virar em direção aos colegas. Com único gesto pediu educadamente que silenciassem para que pudesse se concentrar.
Diante da barreira, em uma proximidade que chegava a ser perigosa, mantinha a varinha em punho em sua mão direita e a mão esquerda erguida para que pudesse sentir a magia presente no local. Para Flora a compreensão da magia, dos feitiços e encantamentos que dominava, ia além do agitar da varinha. Cada feitiço possuía uma impressão própria, um emaranhado sutil que envolvia cores, vibrações, e intensidade que em situações como aquela poderiam induzir ao erro quem não os compreendesse.
Agindo da habitual maneira metódica concentrou-se em desvendar as barreiras impostas antes de desfazê-las. Cuidado era necessário uma vez que um erro poderia denunciar a presença deles na câmara trazendo complicações ao grupo e especialmente para si. Num ínterim de tempo que não saberia assinalar por quanto se estendera fizera notas mentais sobre suas percepções atrelando-as ao conhecimento teórico que tinha. Com uma resolução em mente restava escolher a maneira adequada para desfazer a sequência de feitiços que identificara: Cave Inimicum, Clypeus, Fianto Duri. Além desses três havia um outro que conseguia sentir, mas a princípio não identificara. O excesso de barreiras deixava claro que quem as havia imposto não queria que a câmara fosse uma outra vez utilizada, mesmo com a ausência do Basilisco. Dos feitiços que identificara dois eram de complexidade intermediária e um de alta. Podia, é claro, utilizar-se de Bombarda numa tentativa de ser mais rápida, mas prezava pela descrição e era adepta de feitiços mais rebuscados. Assim buscara na memória os feitiços que aperfeiçoara pelas últimas semanas, encantamentos não facilmente encontrados mas que estavam presentes em grimórios muito antigos resguardados na biblioteca restrita da matriarca dos Carrow.
Movimentos precisos e repetidos seguiram-se enquanto mentalmente entoava os encantamentos que pouco a pouco aquietaram as vibrações advindas da barreira mágica. Ao finalizar Flora deu alguns passos para trás antes de mais uma vez tirar pedrinhas do bolso e lançar em direção ao ponto onde anteriormente não poderiam ultrapassar. Com o pousar das pedrinhas no chão muito momentaneamente alívio a atingiu por parte do trabalho concluído. Entretanto logo ergueu a mão esquerda, indicando que os colegas deveriam se manter no mesmo lugar, assim, observou o espaço à sua frente em busca de indícios do feitiço que até então não identificara. A Carrow não era completamente insegura no que dizia respeito as suas habilidades, mas uma vozinha no fundo de sua mente a alertava que até então fora mais fácil do que o esperado. Era aquela mesma vozinha que na infância a tornava alerta as armadilhas escondidas por Amycus em meio a sessões torturantes disfarçadas de treinamento. Os pelinhos em sua nuca permaneciam eriçados e seguindo aquele feeling, a manifestação de uma intuição apurada, resolvera que seria ela a atravessar a barreira, a ser afetada pelo que ainda não havia decifrado. O primeiro passo fora acompanhado pelo silêncio, entretanto, com o segundo veio o rompimento de uma barreira até então silenciosa e invisível carregando o ambiente com o estridente som de gritos que pareciam varrer sua alma. Em questão de segundo seus batimentos cardíacos dispararam, uma sensação gélida inundou sua espinha, e novamente todos os pelos em seu corpo se eriçaram. O susto, entretanto, não a paralisou e nem abalou por completo sua capacidade cognitiva. Ao reconhecer o feitiço Caterwauling, que era apenas identificável ao ser rompido, mentalizou, conforme movia a varinha, o feitiço “Quietus” para silenciar os gritos, e em seguida lançou o contrafeitiço que o desarmava por completo. Se não estivessem tão profundamente abaixo do castelo não teria dúvidas que seriam descobertos mesmo com sua ação rápida. Flora ainda sentia o ribombar do sangue em seus ouvidos, a falta de ar que atrelava ao medo e a ansiedade, e um ligeiro tremor nas mãos ao finalmente arrematar as barreiras protetoras. A parte que parecia lhe caber naquela primeira missão estava aparentemente concluída de maneira eficiente, embora estivesse muito longe de considerá-la completamente satisfatória. Resfolegou contidamente para recobrar o controle próprio antes de voltar a encarar os colegas. Ao fazê-lo prontamente assumiu a postura taciturna de costume antes de gesticular para que prosseguissem. Por ora o caminho estava livre.
Os seres humanos são programados com o impulso de compartilhar novas ideias e o desejo de saber que fomos ouvidos, possuem uma necessidade profunda de estar em constante comunicação, de serem ouvidos. Bem, exceto quando possuem segredos. O que, no caso, Cassius se encaixa perfeitamente. As íris esverdeadas estavam grudados no pergaminho que desenhou as passagens secretas que ainda funcionavam; conseguira mapear todas com a ajuda de Filch quando Umbridge assumiu Hogwarts e criou o esquadrão inquisitorial; o zelador foi de grande ajuda por compactuar com as ideias da diretora e Alta Inquisidora na época. Atualmente fazia um bom uso do pergaminho, passeando pelos corredores escondidos do castelo, passagens que nem mesmo o Mapa do Maroto continham pois os Marotos não foram capazes de descobrir, porém que pela confiança ganha de Filch, o bruxo agora sabia da existência.
Sua caminhada rotineira para checar as áreas de escape foi abruptamente interrompida ao sentir o choque em seu cérebro. Cassius ficou tonto, o zumbido que pareceu abafar o barulho à sua volta rapidamente foi compreendido como a voz do professor Snape. Quase podia sentir aqueles olhos negros e frios voltados para si, embora soubesse que estava sozinho na passagem. A ligação que cada Sonserino do pequeno e seleto grupo de servos tinha para com o professor certamente foi o que possibilitou a invasão tão repentina e poderosa. Aquela presença gélida passeando pelas camadas de sua mente não demoraram muito para começar a extrair de si o que desejava.
"Você conseguiu, topolino." a voz de seu pai soava orgulhosa. A visão era tão real que Cassius sorriu. "Não deveríamos ter duvidado de você." até mesmo o sotaque italiano de seu pai podia ser ouvido com clareza por parte do jovem bruxo. Ao redor dele e dos pais, muitos corpos caídos se encontravam; a destruição que a guerra trouxe foi bastante explícita, o cheiro de morte, de fogo e sangue pairava no ar. A guerra tinha acabado, Voldemort venceu. Ele, junto com seus colegas, prosperaram. O orgulho brilhava dentro de si, não dando a mínima para a quantidade de bruxos mortos no chão. Eram apenas corpos. Apenas a consequência para o sucesso do Mestre. Não havia prova maior do que aquele sentimento de bem-aventurança com a perspectiva da vitória. Não apenas concordava com a guerra, mas ansiava por ela.
Tão rapidamente como as figuras de seus pais apareceram em sua frente, elas desapareceram. Cassius estava de novo com o mapa em mãos, porém… ainda não era ele próprio. Podia sentir sua própria ambição enquanto um espelho se materializava em sua frente; no reflexo, via a sua face ostentando uma espécie inconfundível de prazer ao notar o mapa completo. Era o mapa das passagens, mas aquele espelho não era um simples item para ver a si mesmo. Ao estender a mão, atravessou-o, indo direto para uma lembrança que… Havia esquecido. Não, não esqueceu. Apenas enterrou profundamente.
Estava escuro quando atravessou o jardim de casa, tremia de frio e os olhos claros estavam arregalados, assustados. Ver a mansão acolhedora que cresceu chamando de lar trouxe para seu peito uma sensação de alívio. 1997, estava de férias, ainda não havia iniciado àquele ano letivo em Hogwarts e… Foi a primeira vez que testou um portal que criou. Meses atrás descobriu os livros antigos do pai e começou a ler mais e mais sobre a magia da criação de chaves de portal, uma magia desconhecida para si mas que sua curiosidade viu-se aguçada mais uma vez; quando isso aconteceu anos atrás, aprendeu a criar mapas, a guiar-se em lugares de forma a passar despercebido, aprendeu a desaparatar — e quase viu-se perdendo um membro no caminho — e a criar objetos de rastreamento. Ora, então o que lhe impediria de criar uma chave de portal? Nada. Essa seria a resposta certa.
O que não esperava era que criar um portal e viajar por ele podia mexer com sua mente. Quando abriu a porta de casa e caminhou lentamente para dentro, pingando água gelada no chão de mogno, deixando uma poça a cada passo, não esperava encontrar os pais na sala com expressões alarmadas, amedrontadas e… desesperadas. O soluço de sua mãe foi carregado de angústia e Cassius estranhou o abraço apertado da mulher, estranhou mais ainda o pai lhe envolvendo também em seguida. Dois dias. Sumiu por dois dias. No portal pareceram apenas algumas horas até encontrar-se de novo no jardim de casa, mas para os pais? Quarenta e oito horas de puro terror. Aquele seu primeiro contato com a gravidade da magia que podia realizar quase foi o suficiente para lhe assustar e não tentar mais fazer os encantamentos. Mas um Warrington não desiste. E para provar que merecia carregar aquele sobrenome, passou a treinar mais e mais quando retornou para Hogwarts. Seu dom podia não ser inato, mas seria uma habilidade ao qual trabalharia muito para aperfeiçoar.
A ambição a partir daquele primeiro contato apenas cresceu. Cassius enxergava diante de si inúmeros benefícios. Furtivo como um rato, seu pai costumava dizer desde a sua infância; daí vinha o apelido infantil na língua italiana ao qual cresceu ouvindo seu pai falar e lhe chamar de topolino, um rato bebê. Um ratinho que conseguia entrar em salas e sair sem que lhe percebessem, um ratinho que conseguia passar como invisível, se desejasse, mesmo que não fizesse uso de sua capa feita com pelo de seminviso, presente que ganhou da mãe quando completou seis anos e posteriormente ganhou uma nova aos treze, quando o pelo se tornou opaco e começou a perder as capacidades de torná-lo invisível. Como poderia não ver sua habilidade como um completo benefício? Cassius sequer conseguia listar de forma coerente o que apreciava. Vantagem, sucesso, esperteza, tudo isso brilhava na mente em resposta à indagação. Mas nem tudo são pétalas verdes de arruda aromática. Nem tudo é felicidade.
Ser transportado para àquela noite chuvosa foi o que fez Cassius tentar lutar. Mas oh, o pobre garoto não poderia achar que iria conseguir lutar contra um legilimens tão poderoso como Snape, não é? Que incoerência de sua parte cogitar que seu segredo mais sombrio, mais oculto, permaneceria escondido mesmo com o professor cada vez mais mergulhando em sua mente, desbravando cada camada que conseguia acessar sem se importar com a dor que isso lhe causava. O papel que agora tinha em mãos não era mais o mapa das passagens, mas sim o relatório sobre o parto de sua mãe e… Uma certidão. O relatório datado de dois de abril de mil novecentos e oitenta. A criança nasceu sem vida. Acácia Warrington deu a luz a um natimorto. Devido a complicações em tentativas passadas, a criança não sobreviveu à gestação, ao ser retirada do útero, já se encontrava sem vida. Suspeita-se que as poções anteriormente tomadas nas tentativas de uma gravidez no passado tenha tornado o ambiente não seguro para o bebê, que não resistiu. As palavras ainda faziam sua cabeça doer, seus olhos arderem e lágrimas caírem. Mas era a certidão que fazia seu sangue gelar. O nome Otavio Howell-Jones arrancava de sua garganta um grito de terror quando moviam os olhos e lia o nome do Hospital trouxa. Certamente o momento que mais lhe trouxe dor.
Descobrir que era um nascido-trouxa abalou sua confiança, tirou sua paz por alguns dias até perceber… que não podia ser definido pelo seu status sanguíneo. Era um Warrington. Filho de dois comensais da morte que não traíram o Mestre das Trevas. Filho de dois bruxos de sangue puro que lhe ensinaram o caminho para a ascensão. Não era menos poderoso que um bruxo de sangue puro, podia ser capaz de realizar coisas extraordinárias e a prova disso vinha com a boa lembrança de fazer seus pais orgulhosos quando mostrou que era capaz de desaparatar; quando deu o primeiro portal aos pais e eles utilizaram para destruir os registros no Ministério atrelados ao parto sem sucesso de Acácia ou mesmo por poder dizer que aprendeu a fazer chaves de Portal para ajudar os bruxos que não tinham afinidade com o feitiço de aparatação ou que precisavam de fugas discretas. Seria útil ao Lord das Trevas e mostrava isso com seu trabalho árduo.
A dor aumentou em sua mente por Snape ter atingido o ponto mais profundo de suas lembranças, ter extraído de si todos os sentimentos em relação ao Mestre, à guerra e às suas habilidades. Até mesmo o seu maior segredo foi exposto e seria gravado naquele pergaminho que flutuava diante de si. Ou era o que achou quando caiu de joelhos no chão sem muita força para se sustentar de pé. Levou alguns minutos para conseguir enxergar direito no escuro e se situar novamente, mas quando o fez e pegou o pergaminho, notou que o final não havia menção a sua falta de pureza. Não havia dúvidas de que Snape sabia seu segredo, mas, aparentemente, o professor tinha poupado de gravar ali também com a tinta escura. Se isso seria usado contra si depois, Cassius não fazia ideia, mas agora tinha esse problema para se preocupar.