A chuva me lavou hoje. Não literalmente, porque estava fria e eu nem estive lá me molhando como gosto.
Eu tinha esse hábito. Fazia pra transgredir mesmo. Pegar chuva era um dos prazeres.
Após a virada de ano de 2019 pra 2020, já amanhecia quando começou a chover.
Meu ímpeto inicial foi apertar o passo.
Dois passos e eu me toquei que precisava ser lavada. E não me lembrei de ter lido em lugar algum que era proibido por lei pegar chuva. Se fosse, provavelmente, teria me molhado assim mesmo.
A regra vinha da avó que aprendeu com a mãe que aprendeu com a mãe e assim sucessivamente por gerações. Molhar-se na chuva ficou proibido sem ser.
"Você vai pegar uma constipação, menina. Vá se aquecer que eu vou te dar um chá." Vovó dizia. Tia Maria dizia. Todo mundo dizia.
Então, nesse primeiro amanhecer de 2020, eu comecei transgredindo uma das regras-mor das centenárias crenças familiares que acabaram virando verdade.
Aquela chuva nem estava fria, eu argumentava comigo mesma. E não sentir a temperatura da água, claro, podia ter a ver com as muuuitas tequilas que eu mandei pra dentro naquela noite de comemoração.
A cultura resulta em condicionamentos beeem eficazes.
Entrei em casa ensopada, depois de caminhar lentamente na chuva, numa cena "a la Gene Kelly" (juro, foi o musical que me veio à mente). Cantava e dançava, em zigue-zague pela rua. Foram muitas tequilas mesmo! Quem visse pensaria (ou confirmaria, sei lá) o meu estado mental questionado pelo status quo da província onde nasci e me criei.
Entrei em casa DIRETO para o chuveiro pra tirar a friagem do corpo, tomei um chá quente e deitei bem aquecida na minha cama.
Mal sabia eu que tinha começado o ano em que entrar em casa direto para o chuveiro, com direito a área de desinfecção e tudo, seria o ordem do(s) dia(s).
Não sou besta de contrariar a sabedoria de vovó. Ela é que sabia das coisas. De todas as coisas, aliás.
#Pandemia #PetuliaSuaLinda #Aleatoriedades