Nasci paulista, com muito orgulho, mas sinto em minha Alma o rastro mineiro deixado pelos meus avós maternos.
Minha mineirice me atesta o gosto pelas palavras, pela arquitetura, pela música, pelos sonhos que começam cedinho com cheiro de café de bule e bolo de fuba. Uma mineirice da roça urbana que sempre foi minha vida.
Mineirice das histórias de meu avô Antonio, que nos aconchegava a seus pés nas noites frias e nos contava suas longas histórias como no dia que, em sua juventude, levou um coice de um cavalo e sozinho, corajosamente, estancou o ferimento e esperou noite a dentro até que o dia lhe trouxe a ajuda. Mineiro de Belo Horizonte, meu avô nunca abandonou sua terra em seus pensamentos e lembranças.
Sou mineira da Vila Werneck, construída por meu bisavô e um amigo no Centro de Belo Horizonte e que ainda hoje resiste em meio aos arranha-céus como um oásis na cidade grande e que somente agora, depois de tantos anos e contos, fui conhecer pessoalmente.
Minha voz é mineira nas canções de Milton Nascimento, e em coro com a veia artística dos meus tios e primos músicos, pintores, escultores, poetas e criadores de sonhos.
Mineirice da minha avó Ilda, paulista, mas especialista em culinária mineira, que sempre nos recebeu com seus quitutes e almoços regados a tudo que o bom mineiro gosta. É só fechar os olhos que me vejo diante dos tachos enormes de goiabada feita a lenha e como eu pequenina ficava horas com os olhos vidrados naquela pá enorme que minha avó mexia sem parar. Sempre imaginei que minha avó podia ser uma bruxa por conta daquela pá. E talvez tenha sido, pois certamente minha intuição veio dela.
Meus trilhos…meus avós maternos os traçaram para mim.
Quando estou sobre eles, percorrendo as paisagens das minhas recordações, a presença de cada um deles é constante. Com eles aprendi a ser gente. Gente do bem. Gente que gosta de gente. Gente que tira o melhor da vida sem esquecer de seus semelhantes. Gente que sonha tão alto e tão lindo que às vezes quando acorda, se esborracha no chão, mas que com garra e coragem, estanca a ferida e mesmo sangrando dá a volta por cima.
Gente que alimenta a alma com doçuras e delícias que sustentam o estômago e o coração. Gente que tem requinte dentro da simplicidade. Gente que briga pelo que quer. Gente que ri de si mesma, mas não perde a praia porque o corpo é gordo e nem o carteado porque não sabe perder.
Meus trilhos…são repletos de amor, religiosidade, respeito, honestidade, caráter, alegria, e muitas, muitas festas de família.
Meus trilhos…meus avós maternos os traçaram para mim, e cada centímetro deles está repleto de saudades e mineirice.
Vivo nos trilhos…meus trilhos, e sou feliz!!!
Que assim seja,