Tenho medo de altura e sempre me fascinou a ideia de voar. É inevitável, fico apavorada, mas vou ali, na beiradinha, pra sentir o frio na barriga. Metafóricamente, lá do alto, gosto é de grandes saltos, sem paraquedas, mais queda livre pro abismo que voo, mas o vento forte na cara durante o percurso vale o tombo. Em contraponto a esse símbolo maior de liberdade, tenho claustrofobia só de pensar em claustrofobia. Lugares estreitos e apertados me dão taquicardia.
Lembro de uma vez fazendo trilha na floresta da Tijuca, muitos escalando com destreza um tronco absurdo que interrompia o caminho e dava direto pro penhasco, era escorregar e cair no desfiladeiro. Subi, pensei ser mais fácil enfrentar o medo de altura que tentar rastejar por baixo, pelo desconhecido nebuloso. A vista foi tão linda ali de cima, visão de infinito, mas logo me apavorei e afirmei insistentemente que jamais pularia pro lado oposto. Foi estranho, gosto de parecer destemida, mesmo que acovardada por dentro. Gritei confiante: JAMAIS! Pra revolta geral dos amigos que queriam chegar o mais rápido possível na cachoeira. Voltei pra onde estava, me deu pânico, paralisei, não pude. Minutos depois, minha amiga, mais corajosa que eu, subiu e saltou, quebrou o pé e acabou o passeio.
Confio na minha intuição, as vezes a gente tem que ir com medo mesmo, as vezes é hora de recuar. O que sei é que quando minha amiga se machucou, não pensei duas vezes, rastejei por debaixo do grande tronco, sem pensar se haviam bichos por ali, cobras, o que fosse. Fiquei cara a cara com aquele pedaço de madeira, perturbada sim, mas nada impediria o percurso. E atravessei e depois de novo, com menos desespero. Precisei apenas de reconhecimento da área. Da segunda vez, gostei até de sentir o cheiro da árvore tão de perto e da terra sendo mexida pelo meu corpo, apesar do desalento claustrofóbico.
Medos são inexplicáveis, por mais que se racionalize. Eu adentro e adentro os porquês, mas mesmo até entendendo um pouco, eles continuam a existir. Nunca sei a hora de lutar contra e a hora de me render a eles e me preservar, a hora de me afastar daquilo que me amedronta e a hora de insistir. Sinto que faço as escolhas erradas quase sempre e a ação anterior determina que eu faça o oposto na próxima.
Agora dei pra sonhar com transitar em lugares extremamente estreitos, rastejar, e de repente vir uma coragem louca mesmo com falta de ar e seguir para a nova perspectiva. Relação direta com a história que contei, por isso lembrei dela, claro. Mas tem algo diferente nesse sonho recorrente, eu chego do outro lado e não há algo ruim que precisa da minha atenção. A paisagem é de uma luz linda, com pessoas felizes e ativas. Eu estou andando só, mas não me sinto sozinha. Ali não existem portas. Embora haja muitas construções, o espaço é aberto, é só ir.
A moral da história, eu não sei, mas acordo com essa força. Meu inconsciente anda me dando essa dica. Parece que existe uma via alternativa e que começo a avistá-la. A fuga de tudo que poderia me aprisionar não precisa ser privação. Escolher atravessar pra outra fase não deve ser visto como limitar-me a qualquer coisa. Minha trajetória teve ousadia e esforço e não só meus. Só que cuidei da minha individualidade mais que tudo, pois me aterrorizo em pensar ser acessório de alguém. Meu caminho, eu que faço. Agora é chegada a hora de novas aventuras, expandir o universo, ramificar. Como é possível ir além dessa individualidade prazerosa sem perdê-la?
Sem resposta, fui consultar novamente o significado do meu sonho. Achei algo que me conforta: “Ver um caminho no processo de sonhar é um grande presságio para você. Este sonho indica seu senso de direção e perseguição de seus objetivos. Se o caminho é reto e estreito, então isso significa que seu caminho para o sucesso está indo conforme o planejado.”