Bailarina
Na busca da leveza
Machucados, cicatrizes
Repete e repete erros
Sem beleza seus deslizes
Entre saltos como pena
E tombos infelizes
EquilĂbrio lhe rodeia
Engana quem nĂŁo convive.

Love Begins
trying on a metaphor
I'd rather be in outer space đž
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@paulaksantos
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Sem beleza seus deslizes
Entre saltos como pena
E tombos infelizes
EquilĂbrio lhe rodeia
Engana quem nĂŁo convive.

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Minhas emocoes afetam diretamente meu corpo. Se estou triste, dor de cabeça, se agoniada, barriga inchada, se nervosa, intestino descontrolado. Se algo me afeta, preciso ter atenção dupla, no que causa e no meu corpo. Como recompensa, rio com o corpo todo, me arrepio de bem estar, a felicidade emana no discurso e pelos poros.
O silĂȘncio tĂŁo bom de afetos
Me preenche de lacunas
MonossilĂĄbicos nĂŁo me convencem
E o amor se sabe sem falar
Estou num rodamoinho de tentativas
e todas me engolem
A escrita Ă© a minha primeira morada de silĂȘncio a segunda irrompe do corpo movendo-se por trĂĄs das palavras extensas praias vazias onde o mar nunca chegou deserto onde os dedos murmuram o Ășltimo crime escrever-te continuamente... areia e mais areia construindo no sangue altĂssimas paredes de nada esta paixĂŁo pelos objectos que guardaste esta pele-memĂłria exalando nĂŁo sei que desastre a lĂngua de limos espalhĂĄvamos sementes de cicuta pelo nevoeiro dos sonhos as manhĂŁs chegavam como um gemido estelar e eu perseguia teu rasto de esperma Ă beira-mar outros corpos de salsugem atravessam o silĂȘncio desta morada erguida na precĂĄria saliva do crepĂșsculo
Al Berto
Pomo
Da vida sĂł tĂȘm substĂąncia a casca e o caroço. No meio sĂł tem amido, embromaçÔes do carbono. PorĂ©m todo o gosto reside nessa carne intermediĂĄria, sem valor alimentĂcio, sem realidade, sem nada. Ă nela que os dentes encontram o que os mantĂ©m afiados; com ela Ă© que a lĂngua elabora a doce palavra.
Paulo Henriques Britto

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Fui uma criança criativa. Quase 5 anos sozinha, poucos amigos, pai e mãe que deixavam a mente fluir, alimentavam.
Dentre as muitas histĂłrias, tem algumas especiais, lavar a garagem com as escovas de dentes da famĂlia, ajudando na faxina. Fazer picadinho do sofĂĄ e depois encher de leite condensado pra tapar os buracos. Eram muitas ideias Ăłtimas.
Meu pai me ensinava a escalar tudo. Eu tinha fascĂnio por estar acima de todos os adultos, tĂŁo altos pra mim. Aprendi a subir na estante, nas janelas, no portĂŁo, no carro, nos muros. Isso lĂĄ com 3 e 4 anos. Meu pai me ensinava a forma mais segura de ir cada vez mais pra cima, depois deixava lĂĄ pra minha mĂŁe o desespero de cuidar de uma criança que tava sempre empuleirada. Isso rendeu traumas fĂsicos, como uma cirurgia que assustou a todos depois de ter pulado uma cerca na brincadeira.
JĂĄ adolescente, o fascĂnio por janelas continuou. Sentar em cadeiras nĂŁo era uma opção, estava sempre sentada na janela, assistindo tv, com a minha mĂŁe na cozinha. Quando nĂŁo era isso, era sentada no chĂŁo. PressĂĄgio da minha vida adulta, cabeça aos ares e pĂ©s no chĂŁo.
LĂĄ pelos 14 anos, essa visĂŁo de mundo sob outra perspectiva atingiu novo patamar. Comecei a ginĂĄstica olĂmpica, gostava das barras, era pĂ©ssima, mas gostava. Ia lĂĄ em cima, fazia nada, ficava de pĂ© morrendo de medo, depois agachava, balançava no ar e pulava. Adorava esse momento. TambĂ©m havia a adrenalina dos saltos de trampolim e as traves. A visĂŁo de ponta cabeça a mĂ©dia altura da trava era uma sensação louca. Tudo era diferente avistado assim. Em casa era ou fazendo alongamento em qualquer lugar - era absurdamente alongada, acreditem! -, ou dando estrelas pelo corredor, ou andando de parada de mĂŁo no quintal. Numa dessas, sozinha, cai de cara no chĂŁo. Olhar as coisas sob outra perspectiva Ă s vezes dĂĄ nisso, vocĂȘ estatela a consciĂȘncia e te deixa com machucados demorando a sarar, como aquela sobrancelha, que levou um ano pra se recuperar.
SerĂĄ que a gente jĂĄ nasce revelando quem se Ă© desde pequenininho? Eu era mais doce, com certeza isso mudou, os traumas me salpicaram amargor as vezes intragĂĄvel. Mas consigo ver os traços da minha personalidade nas histĂłrias que me contam. O percurso que a vida tomou mal tem a ver com o que planejei e tem tudo a ver com a criança que fui e com o que buscava lĂĄ nos primĂłrdios sem muita reflexĂŁo. A curiosidade ainda impera, o fascĂnio por aprender algo novo de tempos em tempos, o mergulho em descobertas. Sempre querendo subir pra ver tudo do alto, praticar distanciamento pra depois ir pertinho, presenciar sentada no chĂŁo. Quando tudo se aquieta, vem ideias, um sacolejo, novas miradas, a vida revira de ponta cabeça.
Tenho medo de altura e sempre me fascinou a ideia de voar. Ă inevitĂĄvel, fico apavorada, mas vou ali, na beiradinha, pra sentir o frio na barriga. MetafĂłricamente, lĂĄ do alto, gosto Ă© de grandes saltos, sem paraquedas, mais queda livre pro abismo que voo, mas o vento forte na cara durante o percurso vale o tombo. Em contraponto a esse sĂmbolo maior de liberdade, tenho claustrofobia sĂł de pensar em claustrofobia. Lugares estreitos e apertados me dĂŁo taquicardia.Â
Lembro de uma vez fazendo trilha na floresta da Tijuca, muitos escalando com destreza um tronco absurdo que interrompia o caminho e dava direto pro penhasco, era escorregar e cair no desfiladeiro. Subi, pensei ser mais fĂĄcil enfrentar o medo de altura que tentar rastejar por baixo, pelo desconhecido nebuloso. A vista foi tĂŁo linda ali de cima, visĂŁo de infinito, mas logo me apavorei e afirmei insistentemente que jamais pularia pro lado oposto. Foi estranho, gosto de parecer destemida, mesmo que acovardada por dentro. Gritei confiante: JAMAIS! Pra revolta geral dos amigos que queriam chegar o mais rĂĄpido possĂvel na cachoeira. Voltei pra onde estava, me deu pĂąnico, paralisei, nĂŁo pude. Minutos depois, minha amiga, mais corajosa que eu, subiu e saltou, quebrou o pĂ© e acabou o passeio.Â
Confio na minha intuição, as vezes a gente tem que ir com medo mesmo, as vezes é hora de recuar. O que sei é que quando minha amiga se machucou, não pensei duas vezes, rastejei por debaixo do grande tronco, sem pensar se haviam bichos por ali, cobras, o que fosse. Fiquei cara a cara com aquele pedaço de madeira, perturbada sim, mas nada impediria o percurso. E atravessei e depois de novo, com menos desespero. Precisei apenas de reconhecimento da årea. Da segunda vez, gostei até de sentir o cheiro da årvore tão de perto e da terra sendo mexida pelo meu corpo, apesar do desalento claustrofóbico.
Medos sĂŁo inexplicĂĄveis, por mais que se racionalize. Eu adentro e adentro os porquĂȘs, mas mesmo atĂ© entendendo um pouco, eles continuam a existir. Nunca sei a hora de lutar contra e a hora de me render a eles e me preservar, a hora de me afastar daquilo que me amedronta e a hora de insistir. Sinto que faço as escolhas erradas quase sempre e a ação anterior determina que eu faça o oposto na prĂłxima.
Agora dei pra sonhar com transitar em lugares extremamente estreitos, rastejar, e de repente vir uma coragem louca mesmo com falta de ar e seguir para a nova perspectiva. Relação direta com a história que contei, por isso lembrei dela, claro. Mas tem algo diferente nesse sonho recorrente, eu chego do outro lado e não hå algo ruim que precisa da minha atenção. A paisagem é de uma luz linda, com pessoas felizes e ativas. Eu estou andando só, mas não me sinto sozinha. Ali não existem portas. Embora haja muitas construçÔes, o espaço é aberto, é só ir.
A moral da histĂłria, eu nĂŁo sei, mas acordo com essa força. Meu inconsciente anda me dando essa dica. Parece que existe uma via alternativa e que começo a avistĂĄ-la. A fuga de tudo que poderia me aprisionar nĂŁo precisa ser privação. Escolher atravessar pra outra fase nĂŁo deve ser visto como limitar-me a qualquer coisa. Minha trajetĂłria teve ousadia e esforço e nĂŁo sĂł meus. SĂł que cuidei da minha individualidade mais que tudo, pois me aterrorizo em pensar ser acessĂłrio de alguĂ©m. Meu caminho, eu que faço. Agora Ă© chegada a hora de novas aventuras, expandir o universo, ramificar. Como Ă© possĂvel ir alĂ©m dessa individualidade prazerosa sem perdĂȘ-la?
Sem resposta, fui consultar novamente o significado do meu sonho. Achei algo que me conforta: âVer um caminho no processo de sonhar Ă© um grande pressĂĄgio para vocĂȘ. Este sonho indica seu senso de direção e perseguição de seus objetivos. Se o caminho Ă© reto e estreito, entĂŁo isso significa que seu caminho para o sucesso estĂĄ indo conforme o planejado.â
Minha mente Ă© uma nuvem Melhor se fosse rarefeita de vapor denso se enche inteira tempestade pode formar
Minha mente Ă© uma nuvem salta e sobrevoa mundos Sobe leve e desaba em vultos Nem sabe em que vai tocar
Minha mente é uma nuvem sobrevive de ciclo em ciclos orquestra looping de começos mas onde é começo? Onde é que vai chegar?
Minha mente Ă© uma nuvem se preenche em encontros formas moldadas contrapontos se acinzenta em mal estar
Minha mente Ă© uma nuvem Ăgua amorfa vagante sob o sol Ă© dissipante sempre sonhando em fazer lar
Minha mente Ă© uma nuvem observa lĂĄ de longe no fundo sĂł se expande se torna rio desaguante quer a paz de ser sĂł ar.
EMARANHAR-SE
inconsciente prĂ©-aquecido silĂȘncios costumes despetalados refogado de juĂzo
inseguranças a passarinho certezas que chegam e assanham caminhos
coincidĂȘncias
tempero de sentidos sem dissonĂąncias sem desmantelo em banho maria
remelexo ritmo tåtil enlaçado repente
fogo brando fogo alto maçarico maçarocar perfume de todos os sabores
despelo da alma desvelo e amĂĄlgama
pensamento derretido a conta-gotas delĂrio mistĂ©rio subentendido intento de quereres.
Catavento
Ventania fugaz no silĂȘncio arredio medo a devorar meus pĂ©s assombração bem na palma da mĂŁo
Ares a picotar razĂŁo Contradição constĂąncia Ă© ilusĂŁoÂ
Escorre o tempo em meu rosto sobre escombros vacilo antevejo universos inteiros ao vislumbrar outra forma de andar
turva nuvem transpassa espelho a me soprar
sou catavento ao ar

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As relaçÔes sĂŁo que nem mĂșsica.
Com uns vocĂȘ pode tocar bonito, ficar genuinamente feliz ao executar uma canção muito bela, mesmo que semitonada. Mas lĂĄ no fundo, hĂĄ sempre um sentimento de "Ă© quase isso, tĂĄ quase perfeito, falta sĂł um fiapinho pra brilhar."
Um dia, geralmente por acidente, a gente cruza com alguém e é como se o canto se encaixasse em plenitude na harmonia, tudo ressoa. Vc só sente que a beleza mågica estå presente.
JuĂzo embaralhado num mundo desfocado JuĂzo.
JuĂzo embaralhado horizonte perdido JuĂzo
JuĂzo embaralhado Caminhos Caminhos desfigurados
Enxergo, preciso pressinto que devo Eu sinto
Sinto concentrada crio
Sinto concentrada Crio
Sinto concentrada Concentrada crio.
Jogar fora coerĂȘncia e coesĂŁo. Viver e sentir nĂŁo se ordena como um bom argumento. AçÔes espalhadas e incompreendidas a espreita de uma caça ao tesouro futura. Um olhar revitalizado que talvez nem goste tanto.
Certezas que viram pó, sopros ao vento. Dente de leão aos pedaços, como machucados que secam no quentinho do sol, quebradiços, que quando quase se esquece, espreguiça pra alçar longe e dói.
Aguar esse medo da dor. TambĂ©m dele esquecer, jĂĄ que Ă© dela que se edifica đ. Ă masoquismo gostar do ardido da cura? ResiliĂȘncia, outra palavra que nĂŁo queria saber tatuada, sem querer, na pele dura. Meu casco de preocupaçÔes, onde guardo vai e vem, uma cobrança de ser bela. Essa embalagem imperfeita que embrulha conteĂșdo que nĂŁo sabe ser raio de sol reluzente ao bel prazer alheio. Te incomoda essa flor murcha e rabugenta que amanhece todos os dias reclamando do mal feito e do que nĂŁo foi?
RazĂŁo sem padrĂŁo, emoção que liquidifica o deserto e transborda. Desse clichĂȘ, nĂŁo quero me desfazer. Nem convencer ninguĂ©m. Outra coisa pra lembrar de esquecer. Triturar opiniĂŁo, Ă© disso que o mundo precisa, mas liquidificador tĂĄ Ă© caro e triturar na unha dĂĄ trabalho.
Parar de teimar em querer ser boa em tudo e nunca abandonar essa curiosidade de fazer de tudo. Esquecer de escolher. Deixar de criar significado pro que nem existe, sem agonia, nem desespero. Se bem que acho bonito inventar entendimento do inexistente.
Nada de obrigaçÔes.
Pena que uma mente sem lembranças dĂĄ de cara no chĂŁo. Como se a gente nĂŁo caĂsse sabendo.
DivagaçÔes a partir do gatilho da meia hora de rotina de escrita com @lianaferraz
Tenha cuidado com as mĂșsicas que sabem demais da sua vida.
Meu amor chega devagar
Arrastando pesos passados
Dando aconchego de um lar.

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Olinda
Quando primeiro conheci Olinda, o que me impressionou foi o grande orgulho que seus moradores tĂȘm da cidade. Todos estufavam o peito pra contar uma parte de sua histĂłria, todos grandes historiadores empĂricos, histĂłrias que passaram geraçÔes, um hiperbĂłlico telefone sem fio. HistĂłrias hipnotizantes, todos sabiam algo que ninguĂ©m sabia, e todas as histĂłrias nunca batiam. E eu me encantava como criança hipnotizada com mesa de doces em aniversĂĄrios.Â
Com o passar dos anos vivi seus coloridos, suas multidÔes e seus vazios, transitei pelas realidades impregnadas em suas fachadas francesas, holandesas, portuguesas, reconheci seus defeitos por trås de suas maquiagens extravagantes acompanhadas de chinelas havaianas.
Hoje as histĂłrias ainda continuam, sobre seus passistas a girar a sombrinhas pelas ladeiras na dĂ©cada de 30, seus metais brilhantes a andar embreagados com integrantes da tropicĂĄlia, as bandeirolas de SĂŁo JoĂŁo na Olinda em ruĂnas, sobre os padres que convidavam o Teatro Oficina a se apresentar nos aposentos da igreja. A mente continua a gravar as histĂłrias, mas elas nĂŁo surpreendem mais, o dia a dia de entulhos furta-cor amontuados nas esquinas, dos ambulantes que assobiam um frevo de bloco e dos fiteiros que te vendem ĂĄgua dançando um coco de praia me roubam muito mais a imaginação.
Nada duas vezes
nada acontece duas vezes nem acontecerĂĄ. eis nossa sina. nascemos sem prĂĄtica e morremos sem rotina. mesmo sendo os piores alunos na escola deste mundĂŁo, nunca vamos repetir nenhum inverno nem verĂŁo. nem um dia se repete, nĂŁo hĂĄ duas noites iguais, dois beijos nĂŁo sĂŁo idĂȘnticos, nem dois olhares tais quais. ontem quando alguĂ©m falou o teu nome junto a mim foi como se pela janela aberta caĂsse uma rosa do jardim. hoje que estamos juntos, o nosso caso nĂŁo medra. rosa? como Ă© uma rosa? Ă© uma flor ou Ă© uma pedra? por que vocĂȘ tem, mĂĄ hora, que trazer consigo a incerteza? vocĂȘ vem â mas vai passar. vocĂȘ passa â eis a beleza. sorridentes, abraçados tentaremos viver sem mĂĄgoa, mesmo sendo diferentes como duas gotas dâĂĄgua
Wislawa Szymborska, Um Amor Feliz, Companhia das Letras, 2020.