O número 5, na Cabala e na numerologia em geral, carrega o símbolo da liberdade, da mudança, da aventura, da vitalidade. É o número dos cinco sentidos, da experiência direta do mundo, da união provisória dos opostos, do movimento que rompe centros e inaugura travessias. O 6, por sua vez, aponta para a imperfeição humana. Não por acaso, está um passo abaixo do 7, número da perfeição divina.
Essa passagem sutil, quase silenciosa, marca simbolicamente esta virada de ano. Caminhamos — politicamente, culturalmente, enquanto coletividade — para o desconhecido. E, paradoxalmente, quanto mais avançamos, mais naturalizamos a transformação. Como quem acompanha o crescimento de uma criança no cotidiano e só se dá conta do quanto ela mudou ao rever uma foto antiga, não percebemos o quanto a humanidade se alterou da década de 90 para os anos 2000, de 2017 para 2018 e, muito provavelmente, tudo o que acontecerá em 2026 será tratado como simples continuidade, não como ruptura estrutural na maneira como enxergamos o mundo e lidamos com a realidade.
O 5 cumpriu seu papel. Trouxe conhecimento, deslocamento, libertação. Tirou escamas dos olhos. Mas conhecer a realidade tem um preço. E o preço é o abandono. Abandono de crenças, de narrativas confortáveis, de práticas herdadas. Lembrei de uma jovem que deu seu testemunho em um canal que entrevista ex-religiosos: relatou abusos psicológicos, pobreza teológica, sofrimento profundo vivido dentro de uma igreja evangélica. Ao final, contou que hoje frequenta um centro de Umbanda chamado Axé da Luz. A reação é automática: livrou-se do cristianismo para cair em algo ainda mais fantasioso e primitivo.
Mas então lembramos que somos humanos. E humanos precisam de pertencimento. Nietzsche já havia percebido isso no século XIX: o ateísmo raramente é uma negação plena da ideia de Deus, na maioria das vezes trata-se apenas da rejeição da forma específica de Deus que determinada sociedade construiu. No fundo, um teísmo, ainda que por via negativa, mais radical do que o religioso.
Veio-me à mente uma frase de Caio Fábio — figura controversa, mas intelectualmente instigante — quando diz que o Evangelho (não o Cristianismo) é, em matéria de crendices, essencialmente ateu. Não há altar, não há amuletos, não há autoridade mágica. Há apenas vida em comunidade, amor, ajuda mútua e o abandono da esperança de que este mundo seja capaz de nos oferecer plenitude, pois jaz corrompido. Curiosamente, esse pensamento ecoa o gnosticismo: a ideia de que o mundo material é prisão e ilusão. Troca-se a gnose por Cristo, mas a lógica permanece: morrer para este mundo, abandoná-lo em nome do próximo, continua sendo apresentado como lucro, como promessa de salvação.
O fato é que o 5 trouxe entendimento suficiente para tornar impossível o retorno. Arquétipos, simbolismos, psique humana, pertencimento, função social das religiões: tudo passa a ser visível. A mentalidade primitiva incapaz de relacionar causa e efeito se revela. Você lê, estuda, reflete dialeticamente, expande. Aprende cada pulo de cada gato. E, a partir daí, Deus, Jesus, Diabo, Demônios, Olimpo, Pomba Gira, Demiurgo passam a ocupar a mesma categoria simbólica do Jacaré Bangão, da dança da chuva ou dos Power Rangers.
Uma vez atingido esse estágio, nenhum argumento convence. O agnosticismo flerta seriamente com o ateísmo e com a hipótese de que talvez tudo seja, de fato, fruto do acaso. A única maneira de provar o contrário seria o transcendente romper o silêncio: a trombeta tocar, pessoas desaparecerem, ou — em escala mais modesta — alguém desenhar um pentagrama no chão, recitar versos antigos e algo, nem que fosse um saco plástico com jujubas, se materializar. Já imaginou os demônios da Goétia tretando no céu, tipo Batman vs. Superman? Parece ridículo. Talvez porque seja.
A constatação é dura: se não existe transcendente, se não existe mundo espiritual, ao humano só resta o humano. Ao Eu, só resta o Eu e a compaixão do Outro, que é sempre opcional.
Durante a entrevista, o apresentador lê a mensagem de um espectador: “Não creio mais em Deus, mas isso não me liberta, me sufoca. Como encontrar sentido se tudo é apenas matéria?” A pergunta desconcerta. O professor — ateu convicto, paladino da ciência — se diz surpreso. A maioria, segundo ele, sente alívio ao abandonar a religião. Nietzsche, mais uma vez, gargalha no túmulo.
Se tudo é matéria, somos matéria em decomposição. O tempo corre. Sem imortalidade, tudo vira urgência. Tudo precisa acontecer em 30 ou 40 anos, a depender da sua idade. Depois disso, a consciência se apaga. O que resta é buscar prazer, felicidade, experiências, como tentativa desesperada de dar sentido ao intervalo entre dois nadas. Eis o início da travessia do 5 para o 6. Talvez até o inferno seja mais reconfortante do que o apagamento absoluto do Eu.
Essa conclusão leva alguns humanos a um mesmo destino: a tentativa de vencer a morte. Não é mais delírio. O transumanismo avança, órgãos artificiais se aproximam da viabilidade plena, o corpo passa a ser visto como máquina reparável. Braços, pernas, fígado, rim, coração, tudo pode ser substituído. O verdadeiro obstáculo da ciência hoje é específico: replicar uma rede neural que funcione como o cérebro humano, com o mesmo baixo consumo energético, alimentada por coisas simples. Ainda não compreendemos totalmente a consciência. O desafio não é criar uma máquina que diga “eu”, mas garantir que esse “eu” seja o sujeito e não apenas um arquivo sofisticado de memórias simuladas.
Se somos apenas matéria, a pergunta final é simples e brutal: quem vai escapar da decomposição? A partir daí, a luta pelo poder se torna permanente e o que á mais triste e cínico: compreensível. Entende-se, então, o interesse de figuras discretas, poderosas, que financiam esses projetos ao custo de engenharia social, controle e sofrimento humano.
Cada um por si. Ao humano, o humano. Ao Eu, o Eu. Tentando dizer “eu” eternamente.
Mas talvez eu só esteja chapando.
Feliz passagem do 5 para o 6.
Do conhecimento à imperfeição.
Feliz 2026. Seja lá o que isso signifique.













