escrever é negociar com a lÃngua um modo mais feroz de calar
Mar Becker

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escrever é negociar com a lÃngua um modo mais feroz de calar
Mar Becker

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Mar Becker, Sal, AssÃrio & Alvim, 2022
Paulista, Pernambuco
tornei-me exageradamente delicada amando
e mesmo o tremor da cortina agora ameaça
a minha vida
o último amor da palavra, o silêncio
o último amor do silêncio, o pássaro
o último amor do pássaro, a queda
a queda última do amor, amar
"
amar em tuas mãos o que se cala
amá-las no que guardam de retiro, de pássaro cifrado
rastro
.
em tua boca, amar o que se ausenta
a sombra do meu desejo no teu, devorada
as palavras ditas no escuro
.
em cada arco, esta água que escapa
em cada curva, em cada rasante, um regresso
amar tua voz
no inaudÃvel da tua voz
um fio de ar
"
-Mar Becker
se não ocorresse de as manhãs nascerem antes dos teus olhos. se a estação dos ipês já não tivesse ido embora, e portanto a chuva de hoje ainda pudesse deitar aos pés da tua melancolia alguma esquina de flores encharcadas
se existisse algum calendário que partisse do tempo que demoram a crescer teus cabelos, se as horas
fossem medidas pelos ciclos da tua respiração ou o pulso do teu sangue
ou
os intervalos de tremor das tuas pálpebras durante o sono
se eu pudesse dar a ti vida longa o suficiente para acompanhar as centenas de milhões de anos que uma estrela demora morrendo. se, pelo contrário, pudesse torná-la tão curta
- uma asa vista de relance
um fio de faca
entre uma e outra aleluia
se não te encontrasse em sÃtio assim "frágil como o mundo"
se fosse capaz de erguer esta minha lÃngua pouca, se estas poucas palavras
vindas da herança de mortos, de tantos
troncos falidos
se me bastassem elas
para dizer que te amo
---
mar becker
em: paixão e caminho, estudos de percurso
imagem: turner

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éramos eu e tu à procura um do outro, e nisso de súbito
o instante em que nos reconhecemos
na área de desembarque e nos achegamos pelas beiradas. a mulher em mim no limiar da menina, como se ainda entre carreteis e relances de estampas; o menino em ti à beira do homem, ainda
diante do mar
por um instante breve tivemos medo - até que nos tocássemos
romper a linha
acompanhar o nÃvel da água subir
eu com medo de olhar teus olhos
tu, já olhando os meus, com medo de não ser olhado
amor, foi um susto, o meu: como talvez tenha sido o da primeira lua do mundo na descoberta
da face
talvez desespero, o teu: acompanhar as águas se avolumarem
e o luar nas cheias - Ã crista
de cada uma
e ainda assim permanecer na margem
(na praia de tramandaÃ)
menina, menino
o paÃs devastado pela pandemia, e nós dois de máscaras na mão, as bocas nuas, nós dois como os amantes de magritte que recém tivessem se desencapuzado um ao outro e então se sentissem assim nus
de amor
outros amaram em mim a mulher que sou mas a ti peço para amar aquela que vou deixando de ser
ama-me nos vestÃgios
na minha voz, o que não digo no quarto, o primeiro perÃodo da manhã a boca trazendo as palavras ainda inchada por um misto de sangue e sonho
meus braços minhas mãos à beira das tuas
outros me amaram em terra mas a ti peço que me ames no mar
e porque eu sou mar por isso, se um dia tu me vires chorando diante de ti, olha-me como quem tivesse devoção por minhas lágrimas
como quem imaginasse que é raro como o nácar o sal dos meus olhos
mar becker em: estudos em torno da série "amar, ruir"
porque uma de mim chama
mas a outra hesita
poque uma de mim espera a noite
mas a outra guarda a manhã
porque se cruzam na passagem, e uma olha
mas a outra desvia
porque permaneci no meio, e
o amor deita sombra em minha boca —
e numa de mim quero dizê-lo
Mar Becker